Pesquisa aplicada: método científico, método de engenharia, tipos de pesquisa, fontes e normas

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Numa sala de orientação de trabalho de conclusão, a cena se repete todo semestre: o estudante de Sistemas de Informação chega com um aplicat...

Numa sala de orientação de trabalho de conclusão, a cena se repete todo semestre: o estudante de Sistemas de Informação chega com um aplicativo quase pronto e o orientador pergunta "e onde está a pesquisa?". Os dois têm razão. Construir algo que funciona e produzir conhecimento verificável são atividades diferentes, com métodos, critérios e literaturas próprias — e a pesquisa aplicada vive exatamente na fronteira entre as duas. Este texto percorre essa fronteira em quatro etapas: os métodos científico e de engenharia (e a ponte que a design science estende entre eles), os tipos de pesquisa, o problema muito concreto de saber em que fonte confiar, e as normas que transformam tudo isso em um documento que outro pesquisador consegue rastrear — a ABNT, comparada com a APA, a Vancouver, a IEEE e a Chicago.
Bancada de trabalho onde uma trilha com lupa, caderno e frasco de laboratório e outra com chave inglesa, protótipo e paquímetro convergem para um único documento encadernado

Ponto de partida

"Eu quero fazer um aplicativo"

A frase é dita com o entusiasmo de quem já tem o protótipo no celular. O orientador, que já viu dezenas de protótipos no celular, responde com a pergunta que desmonta a cena: qual é a pergunta? Não a pergunta do cliente, nem a do usuário — a pergunta que o trabalho vai responder e que ninguém respondeu antes. O estudante volta para casa com a sensação de que construir não vale. Vale. Só não é, por si só, pesquisa.

A distinção mais usada no mundo para separar essas coisas está no Manual de Frascati, o documento da OCDE que define o que conta como pesquisa e desenvolvimento para fins de estatística e de política pública (OECD, 2015). Ele separa três atividades: a pesquisa básica, que busca conhecimento novo sobre os fundamentos dos fenômenos sem mirar uma aplicação particular; a pesquisa aplicada, que também busca conhecimento novo, mas dirigido a um objetivo prático específico; e o desenvolvimento experimental, que usa conhecimento existente para produzir ou melhorar produtos e processos. E fixa cinco critérios para uma atividade contar como P&D: ela precisa ser nova, criativa, incerta quanto ao resultado, sistemática e transferível ou reprodutível.

Passe o aplicativo do estudante por esses cinco filtros e o diagnóstico aparece sozinho. Ele é sistemático e é transferível; talvez seja criativo. Mas não é incerto — o estudante sabe que vai funcionar, porque é um cadastro com relatórios — e não é novo no sentido de produzir conhecimento que não existia. Pesquisa aplicada não é "pesquisa que serve para alguma coisa": é a produção de conhecimento novo a serviço de um problema concreto. O aplicativo pode ser o instrumento dessa produção. Não é o produto dela.

Antes de mostrar como transformar um em outro, vale olhar de perto os dois métodos que o estudante e o orientador estão, sem saber, defendendo.

Etapa 01

Dois métodos, uma bomba d'água e uma nave

Em agosto de 1854, o bairro do Soho, em Londres, viveu um surto de cólera que matou centenas de pessoas em poucos dias. A teoria dominante dizia que a doença vinha dos "miasmas", o ar ruim das cidades sujas. Um médico chamado John Snow desconfiava de outra coisa: água contaminada. Em vez de discutir a teoria, ele foi contar mortos, casa por casa, e marcou cada um no mapa. Os casos se aglomeravam em torno de uma única bomba d'água pública na Broad Street — e rareavam, de forma reveladora, exatamente onde os moradores tinham outra fonte de água, como a cervejaria local, cujos operários bebiam cerveja. Snow publicou os dados, as tabelas e o mapa no ano seguinte (Snow, 1855).

Mapa esquemático de um bairro do século dezenove com uma bomba d'água ao centro e barras de casos concentradas ao redor dela

Figura 1 — A bomba da Broad Street: uma hipótese, um mapa e uma contagem. A teoria do miasma não previa aquele padrão; a da água, sim.

Isso é o método científico em sua forma mais limpa: uma observação que a teoria vigente não explica bem, uma hipótese alternativa, uma previsão que permite distinguir as duas, dados coletados para testar a previsão e uma conclusão que fica aberta a contestação. A hipótese de Snow era arriscada — poderia ter sido derrubada pelos próprios dados —, e é isso que, para Popper, separa uma afirmação científica de uma que apenas parece científica: a possibilidade de ser refutada (Popper, 2013). Uma teoria que explica qualquer resultado não explica nada.

O outro método

Cento e dezesseis anos depois, em abril de 1970, três astronautas da Apollo 13 estavam trancados no módulo lunar de uma nave avariada, e o dióxido de carbono subia. O módulo lunar tinha filtros cilíndricos para duas pessoas; o módulo de comando, inutilizado, tinha filtros quadrados em abundância. Quadrado não entra em redondo. A equipe em solo tinha algumas horas e uma restrição absoluta: qualquer solução precisava ser montada com o que já estava dentro da nave. O resultado foi um adaptador feito de sacos plásticos, cartões plastificados de um manual de bordo, mangueiras das roupas espaciais e muita fita adesiva, com as instruções transmitidas por rádio (National Air and Space Museum, [s. d.]). Funcionou.

Adaptador improvisado com caixa, tubo, fita adesiva, saco plástico e mangueira sobre uma mesa, cercado pelas peças soltas

Figura 2 — O adaptador da Apollo 13: nenhuma hipótese foi testada, nenhum conhecimento novo sobre a natureza foi produzido — e foi um dos melhores trabalhos de engenharia do século.

Ninguém em Houston testou uma hipótese sobre a natureza. Eles resolveram um problema mal compreendido, sob prazo, com os recursos disponíveis, e a solução foi "boa o suficiente" no único sentido que importava. É a definição de Billy Koen para o método de engenharia: o uso de heurísticas para provocar a melhor mudança possível numa situação mal compreendida, dentro dos recursos disponíveis (Koen, 2003). Heurística, para Koen, é qualquer regra que ajuda a decidir sem garantir o acerto: "faça um protótipo antes", "dê margem de segurança", "aloque recursos para o ponto fraco", "na dúvida, use o que já funcionou". O cientista quer estar certo; o engenheiro quer entregar.

Dois ciclos lado a lado: o científico, com hipótese e teste, e o de engenharia, com requisito e protótipo, ligados por uma pequena ponte

Figura 3 — Os dois ciclos giram sozinhos, mas trocam peças o tempo todo: a engenharia consome teorias; a ciência consome instrumentos.

Quadro 1 — Método científico e método de engenharia: o que cada um pergunta, produz e considera sucesso

DimensãoMétodo científicoMétodo de engenharia
Pergunta centralPor que o mundo se comporta assim?Como fazer isto funcionar aqui, agora?
Ponto de partidaUma observação que a teoria não explicaUma necessidade com restrições de prazo e recurso
MotorHipótese falseável e teste controladoHeurísticas, protótipos e iteração
ProdutoConhecimento generalizávelArtefato que resolve o caso
Critério de sucessoA hipótese sobreviveu à tentativa de refutaçãoAtende aos requisitos dentro dos recursos
Atitude diante da incertezaReduzir a incerteza antes de concluirDecidir apesar da incerteza
Exemplo desta postagemA bomba da Broad Street (1854)O adaptador da Apollo 13 (1970)

Fonte: elaborado pelo autor com base em Popper (2013), Koen (2003), Snow (1855) e National Air and Space Museum ([s. d.]).

A ponte: design science

Volte ao estudante com o aplicativo. Ele está no ciclo da direita e o orientador cobra o ciclo da esquerda. A saída não é abandonar o artefato; é fazê-lo atravessar a ponte. É para isso que existe a design science research: um modo de pesquisa em que o artefato — um sistema, um método, um modelo — é construído justamente para responder a uma pergunta, e sua avaliação rigorosa é o que produz o conhecimento (Dresch; Lacerda; Antunes Júnior, 2015). Wieringa, que escreveu o manual mais usado da área em sistemas de informação e engenharia de software, descreve o ciclo em três movimentos: investigar o problema, projetar um tratamento e validar esse tratamento — e insiste que a validação responda a perguntas de conhecimento, não só de "funcionou" (Wieringa, 2014).

Ponte dourada entre uma margem rotulada problema e outra rotulada conhecimento, com um artefato no ponto mais alto e setas fechando o ciclo

Figura 4 — Na design science, o artefato não é o fim: é o meio pelo qual o problema vira conhecimento — e o conhecimento volta para melhorar o artefato.

A diferença está toda na pergunta. "Desenvolver um aplicativo de agendamento para clínicas" é um projeto. "Em que medida um aplicativo de agendamento com confirmação automática reduz o não comparecimento em clínicas pequenas, e por quê?" é uma pesquisa — e o aplicativo é o instrumento. Wazlawick, no livro que virou leitura obrigatória de metodologia em computação, faz o mesmo alerta de outro ângulo: o trabalho que só descreve o sistema construído, sem pergunta, sem comparação e sem avaliação, é um relatório técnico, por mais bem feito que seja (Wazlawick, 2014). O que separa o projeto da pesquisa não é a quantidade de código: é a existência de uma pergunta cuja resposta alguém poderia contestar.

Etapa 02

Tipos de pesquisa: três botões, não uma gaveta

Todo manual de metodologia traz uma classificação de pesquisas, e todo estudante tenta decorá-la como se fosse uma lista de gavetas onde o trabalho precisa caber inteiro. Não é. A classificação mais difundida no Brasil, a de Antonio Carlos Gil, organiza as pesquisas por três critérios independentes (Gil, 2022): quanto à finalidade (básica ou aplicada), quanto aos objetivos (exploratória, descritiva ou explicativa) e quanto aos procedimentos (bibliográfica, documental, experimental, levantamento, estudo de caso, pesquisa-ação e outras). São três botões giratórios, e toda pesquisa tem os três em alguma posição ao mesmo tempo.

Painel com três botões giratórios rotulados finalidade, objetivo e procedimento, com um pequeno visor acima

Figura 5 — Os três eixos de classificação são independentes: uma pesquisa aplicada pode ser exploratória ou explicativa, com levantamento ou com experimento.

Quadro 2 — Classificação das pesquisas segundo Gil: eixos, categorias e a pergunta que decide cada um

EixoCategoriasPergunta que decide
FinalidadeBásica (pura ou estratégica); aplicadaO conhecimento produzido mira um problema prático identificado?
ObjetivosExploratória; descritiva; explicativaQuero me familiarizar com o problema, retratá-lo com precisão ou explicar suas causas?
ProcedimentosBibliográfica; documental; experimental; levantamento; estudo de caso; pesquisa-ação; ex-post-facto; etnográfica; entre outrasDe onde vêm os dados e como serão obtidos?

Fonte: elaborado pelo autor com base em Gil (2022).Nota: a design science research não consta da classificação de Gil; ela é tratada aqui como procedimento por Dresch, Lacerda e Antunes Júnior (2015).

Experimente: monte o seu tipo de pesquisa

Gire os três botões abaixo. O painel escreve a classificação completa e sugere como seria um trabalho de conclusão em sistemas de informação com aquela combinação — repare que algumas combinações pedem justificativa extra, e o painel avisa.

Finalidade

Objetivo

Procedimento

Pesquisa básica, exploratória, bibliográfica

Quanto à finalidade, busca conhecimento novo sem mirar, de saída, uma aplicação específica. Quanto ao objetivo, quer se familiarizar com um problema ainda pouco conhecido e levantar hipóteses. Quanto ao procedimento, os dados vêm de material já publicado.

Exemplo em sistemas de informação: Revisão sistemática do que se sabe sobre o abandono de aplicativos de saúde nos primeiros trinta dias de uso.

Figura 6 — Classificador de pesquisa: os eixos são independentes, mas nem toda combinação é natural — e o painel diz quando é preciso justificar.

Repare no que o classificador não faz: ele não escolhe por você. A classificação é consequência da pergunta, e nunca o contrário — quem começa escolhendo "vou fazer um estudo de caso" e depois procura uma pergunta que caiba nele está montando o quebra-cabeça pela tampa da caixa.

Etapa 03

Em quem confiar: a fonte é o alicerce

Snow venceu o debate do miasma com uma tabela. Mas a tabela só valia porque qualquer pessoa podia ir ao Soho, bater nas mesmas portas e contar os mesmos mortos. A pesquisa é uma conversa entre desconhecidos que só funciona quando cada afirmação vem com o endereço de onde foi tirada — e é por isso que a escolha das fontes vem antes da escrita, e não depois, como enfeite de rodapé.

Três camadas de distância do fato

A primeira distinção é a distância entre a fonte e o fato. A fonte primária é o registro original: o artigo que relata o experimento, o conjunto de dados, o documento oficial, a norma, o código-fonte. A secundária comenta, resume ou analisa fontes primárias: o artigo de revisão, o livro didático, a reportagem científica. A terciária compila secundárias: a enciclopédia, o dicionário, o verbete da Wikipédia. Nenhuma camada é proibida; o que muda é o uso. Terciárias e secundárias servem para chegar às primárias — e é a primária que entra na referência. Citar a enciclopédia quando o artigo original está a um clique de distância é declarar que não se fez o clique.

Três camadas empilhadas rotuladas primária, secundária e terciária, com caderno de laboratório no topo, livros e lupa no meio, enciclopédia e monitor na base

Figura 7 — A base larga é onde a busca começa; o topo estreito é onde a citação termina.

Revisado por pares não é sinônimo de verdadeiro

Há uma segunda distinção, mais incômoda. A ideia de que "artigo revisado por pares é fonte segura" precisa de asteriscos. Em 2023, mais de 10 mil artigos científicos foram retratados — isto é, oficialmente retirados da literatura por erro ou fraude —, um recorde; mais de 8 mil deles saíram de uma única editora, a Hindawi, então subsidiária da Wiley, em números especiais capturados por fábricas de artigos; e a proporção de retratações passou de 0,2% do publicado, mais que o triplo de uma década antes (Van Noorden, 2023). O mesmo levantamento mostra que a taxa varia muito por país de origem — e que o problema não é exclusivo das áreas "moles": só a IEEE, a maior editora de engenharia e computação, retratou mais de 10 mil trabalhos nas duas últimas décadas, a maioria artigos de conferência.

Tabela 1 — Taxa de retratação de artigos científicos por país, para os países com as maiores taxas, nas duas décadas até 2023

PaísRetratações por 10 mil artigos
Arábia Saudita30,6
Paquistão28,1
Rússia24,9
China23,5
Índia18,8
Irã17,2
Malásia16,7
Egito15,2

Fonte: elaborado pelo autor com base em Van Noorden (2023).Nota: a análise original considera países com mais de 100 mil artigos publicados no período; o Brasil não figura entre os oito primeiros.

O outro lado do mesmo problema são as revistas predatórias: publicações que cobram do autor, prometem revisão por pares e não a fazem. Um consenso internacional de 2019 as definiu como entidades que priorizam o interesse próprio em detrimento do conhecimento, com informação falsa ou enganosa, desvio das boas práticas editoriais, falta de transparência e táticas agressivas de captação (Grudniewicz et al., 2019). O Brasil não está fora. Um estudo que cruzou a Plataforma Lattes com listas de revistas suspeitas encontrou que a fatia de artigos brasileiros nessas revistas ainda era pequena, mas crescia exponencialmente — e, pior, que bastava uma revista dessas ganhar classificação no Qualis para atrair mais submissões que as sérias (Perlin; Imasato; Borenstein, 2018).

Envelope aberto com um anzol e um cartão-isca dizendo publique em 48 horas, com peixes de capelo nadando em direção a ele e um peixe maior dando meia-volta

Figura 8 — A isca costuma vir por e-mail, com elogio ao seu último trabalho e promessa de publicação em dias. Revisão por pares séria não cabe em 48 horas.

Dois protocolos de bolso

Para avaliar uma fonte individual, o instrumento mais usado nas bibliotecas universitárias é o teste CRAAP, criado na Universidade Estadual da Califórnia em Chico: cinco perguntas sobre atualidade, relevância, autoridade, exatidão e propósito (Meriam Library, 2010). Ele funciona bem para o que já está na sua mesa. Para o que chega pela tela, Mike Caulfield propôs um protocolo mais rápido, o SIFT, em quatro movimentos: pare; investigue a fonte antes de ler o conteúdo; procure cobertura melhor sobre a mesma afirmação; e rastreie citações, imagens e trechos até o contexto original (Caulfield, 2019). O terceiro e o quarto movimentos são a versão digital do "vá até a fonte primária".

Um lembrete prático para quem estuda em instituição privada: a maioria dos artigos que parecem trancados atrás de paywall está acessível por dois caminhos gratuitos — a biblioteca virtual da própria instituição e o Portal de Periódicos da CAPES, que qualquer estudante de instituição vinculada acessa com o login institucional. Antes de citar a versão do blog que resumiu o artigo, vale um minuto para tentar o original.

Fica um roteiro de verificação, para ser aplicado a cada fonte antes de ela entrar na lista de referências:

0 de 6 — comece pela origem.

Etapa 04

Normas: a ABNT e as outras

Existe um mal-entendido persistente sobre normas de trabalho acadêmico: a de que elas são um ritual de formatação inventado para atormentar estudantes na véspera da entrega. A função delas é outra. Uma norma de citação é um protocolo de rastreabilidade: ela garante que qualquer leitor, em qualquer lugar, consiga refazer o caminho até a fonte sem precisar perguntar ao autor. É a mesma lógica da tabela de Snow — o endereço de cada afirmação —, só que padronizada para que máquinas e bibliotecários também consigam seguir.

A família ABNT

No Brasil, quem escreve essas regras é a Associação Brasileira de Normas Técnicas, e não há uma "norma ABNT": há uma família de normas, cada uma cuidando de uma parte do documento. A NBR 14724, atualizada em dezembro de 2024, define a estrutura do trabalho acadêmico — capa, folha de rosto, elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais (ABNT, 2024). A NBR 10520, revista em 2023, rege as citações no corpo do texto (ABNT, 2023). A NBR 6023, de 2018, rege a lista de referências (ABNT, 2018b). E há as coadjuvantes: a NBR 6022 para artigos em periódicos (ABNT, 2018a), a NBR 6028 para resumos (ABNT, 2021) e a NBR 15287 para o projeto de pesquisa, aquele que se escreve antes de fazer qualquer coisa (ABNT, 2011).

Quadro 3 — Principais normas ABNT para trabalhos acadêmicos: o que cada uma rege e a versão vigente

NormaO que regeVersão vigenteMudança recente que mais afeta o estudante
NBR 14724Estrutura e apresentação de trabalhos acadêmicos (TCC, dissertação, tese)2024Ficha catalográfica "conforme código vigente"; ilustrações podem ser alinhadas à esquerda; tabelas seguem o IBGE com fonte conforme a NBR 10520
NBR 10520Citações no texto2023Autor entre parênteses passa a caixa baixa: (Souza, 2015), e não mais (SOUZA, 2015); ponto final antes do parêntese; recuo de 4 cm vira recomendação
NBR 6023Lista de referências2018Modelos para documentos digitais, DOI, redes sociais; destaque tipográfico do título a critério do autor, desde que uniforme
NBR 6022Artigo em publicação periódica científica2018Estrutura de artigo alinhada às demais normas da família
NBR 6028Resumo, resenha e recensão2021Distingue resumo (do próprio autor) de resenha e recensão
NBR 15287Projeto de pesquisa2011Estrutura mínima do projeto: tema, problema, hipóteses, objetivos, justificativa, método, cronograma

Fonte: elaborado pelo autor com base em ABNT (2011, 2018a, 2018b, 2021, 2023, 2024).Nota: as normas ABNT são documentos pagos, disponíveis nas bibliotecas de normas técnicas assinadas pelas instituições de ensino; os resumos de mudanças aqui listados são do autor.

A mudança de 2023 na NBR 10520 merece um parágrafo, porque pega desprevenido quem aprendeu a citar há mais de três anos. A chamada entre parênteses deixou de usar caixa alta no sobrenome: escreve-se (Gil, 2022), e não (GIL, 2022). A pontuação também mudou de lugar — o ponto final agora fica antes do parêntese que fecha a citação. E o recuo de quatro centímetros da citação direta longa, antes obrigatório, virou recomendação. A lista de referências, regida pela NBR 6023, continua com o sobrenome em caixa alta: GIL, Antonio Carlos. A aparente incoerência tem lógica: a lista é ordenada por sobrenome, e a caixa alta ajuda a varrer a coluna; a chamada no texto não precisa gritar.

E as outras normas?

A ABNT é brasileira; a ciência não. Quem publica fora, ou lê o que vem de fora, cruza com pelo menos quatro outras convenções — e vale saber que elas se dividem em duas famílias. A família autor-data, à qual pertencem a ABNT e a APA (da Associação Americana de Psicologia, dominante em ciências humanas e sociais), identifica a fonte no texto pelo sobrenome e pelo ano (American Psychological Association, 2020). A família numérica identifica a fonte por um número, na ordem em que aparece no texto: é o caso da Vancouver, mantida pelo comitê internacional de editores de revistas médicas, que numera consecutivamente e remete ao padrão da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (ICMJE, 2025), e da IEEE, usada em engenharia elétrica e computação, com o número entre colchetes e o nome do autor invertido — iniciais antes do sobrenome (IEEE, 2018). A Chicago oferece as duas: notas de rodapé com bibliografia, preferidas em história e humanidades, ou autor-data (University of Chicago Press, 2024). E, acima de todas, a norma internacional ISO 690 define os princípios gerais que as nacionais adaptam — a ABNT declara a NBR 6023 como baseada nela (ISO, 2021).

Quatro exemplares do mesmo livro com carimbos ABNT, APA, Vancouver e IEEE, e etiquetas abaixo sugerindo formatos diferentes da mesma referência

Figura 9 — Mesmo livro, quatro carimbos: o conteúdo da referência é o mesmo; muda a ordem, a pontuação e o que recebe destaque.

Quadro 4 — Cinco convenções de citação comparadas

ConvençãoMantenedorSistemaChamada no textoOrdem da listaNome do autor na listaÁreas típicas
ABNT (NBR 6023 e 10520)Associação Brasileira de Normas TécnicasAutor-data (numérico também previsto)(Gil, 2022)AlfabéticaGIL, Antonio CarlosTodas, no Brasil
APA, 7. ed.American Psychological AssociationAutor-data(Gil, 2022)AlfabéticaGil, A. C.Psicologia, educação, ciências sociais
Vancouver (ICMJE/NLM)International Committee of Medical Journal EditorsNumérico(1) ou sobrescritoOrdem de citaçãoGil ACMedicina e saúde
IEEEInstitute of Electrical and Electronics EngineersNumérico[1]Ordem de citaçãoA. C. GilEngenharia elétrica, computação
Chicago, 18. ed.University of Chicago PressNotas e bibliografia; ou autor-dataNota de rodapé numerada; ou (Gil 2022)AlfabéticaGil, Antonio CarlosHistória, humanidades, editoras

Fonte: elaborado pelo autor com base em ABNT (2018b, 2023), American Psychological Association (2020), ICMJE (2025), IEEE (2018) e University of Chicago Press (2024).Nota: na ABNT, a chamada em caixa baixa segue a NBR 10520:2023; textos anteriores a julho de 2023 usam (GIL, 2022).

Experimente: a mesma referência, quatro normas

O componente abaixo formata duas fontes desta postagem — um artigo e um livro — em cada uma das quatro convenções mais usadas. Passe de uma para outra e observe o que muda: o que vai para caixa alta, o que vai para itálico, onde entra o ano e quem recebe número. As cores marcam as mesmas partes em todas as normas.

Chamada no texto

Segundo Van Noorden (2023), … ou … (Van Noorden, 2023).

Artigo de periódico

VAN NOORDEN, Richard. More than 10,000 research papers were retracted in 2023 — a new record. Nature, London, v. 624, n. 7992, p. 479-481, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-023-03974-8. Acesso em: 14 set. 2026.

Livro

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. Barueri: Atlas, 2022.

ABNT NBR 6023:2018 e NBR 10520:2023. Sobrenome em caixa alta na lista, em caixa baixa na chamada; destaque no título do livro e no nome do periódico; lista em ordem alfabética.

autor ano título veículo ou editora número

Figura 10 — Conversor de referências: o conteúdo é invariante; o que a norma decide é ordem, pontuação e destaque. Sem JavaScript, o componente exibe a versão ABNT.

Há uma lição escondida no conversor. As quatro normas exigem exatamente as mesmas informações — autor, ano, título, veículo, volume, páginas, DOI. O trabalho difícil de uma referência não é a formatação: é ter anotado, na hora da leitura, de onde veio cada coisa. Quem guarda isso desde o primeiro dia formata em qualquer norma em uma tarde; quem não guarda descobre, na véspera, que o PDF sem cabeçalho não diz nem o ano.

Defesa

O aplicativo virou pesquisa

Volte uma última vez à sala de orientação. O estudante não jogou o protótipo fora. Ele reescreveu a primeira página: em vez de "desenvolver um sistema de agendamento", o objetivo passou a ser "avaliar em que medida a confirmação automática reduz faltas em clínicas de pequeno porte". A finalidade é aplicada; o objetivo, explicativo; o procedimento, design science com um estudo de caso em duas clínicas. A revisão bibliográfica buscou artigos de acesso aberto sobre não comparecimento em saúde — e descartou dois, publicados em revistas de reputação duvidosa. O aplicativo continua lá, no capítulo de método. A resposta, com números e limitações, está no capítulo de resultados. As referências seguem a NBR 6023 e as chamadas, a NBR 10520 de 2023 — em caixa baixa, para desgosto de quem decorou a regra antiga.

Mesa de estudo com um smartphone ligado por um cabo, através de quatro cartões com ícones, a uma monografia com uma fita dizendo o aplicativo virou pesquisa

Figura 11 — O caminho do celular à monografia passa por uma pergunta, um método, uma avaliação e um resultado. O código é só a segunda parada.

Pesquisar é construir com o método de engenharia e responder com o método científico.

A ciência e a engenharia não são rivais no trabalho de conclusão: são turnos. A engenharia constrói o instrumento com o que há a bordo; a ciência o aponta para uma pergunta e aceita a resposta que vier, inclusive a que contraria a hipótese. As normas são o que permite que alguém, daqui a dez anos, refaça o percurso. E as fontes confiáveis são o chão onde tudo isso se apoia — o chão que Snow pisou, casa por casa, antes de desenhar o mapa.

No trabalho que você está começando agora — o aplicativo, o levantamento, a revisão —, qual é a afirmação que alguém poderia contestar? E, se ela for contestada, para qual fonte você vai apontar?

Nota do autor: as chamadas de citação desta postagem seguem a NBR 10520:2023 (sobrenome em caixa baixa entre parênteses); postagens anteriores deste blog usam a forma da versão de 2002, então vigente. As definições do Manual de Frascati foram parafraseadas pelo autor a partir da edição original em inglês; há tradução para o português do Brasil disponibilizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os resumos de mudanças das normas ABNT no Quadro 3 são interpretações do autor a partir dos textos normativos, que são documentos pagos; recomenda-se consultar o texto integral pela biblioteca de normas da instituição. A Tabela 1 reproduz taxas calculadas pela reportagem citada com base em dados da Retraction Watch e de outras fontes, para o período de cerca de duas décadas até 2023; o valor exato do intervalo e o corte mínimo de artigos por país são os da reportagem. O estudo de Perlin, Imasato e Borenstein é citado na versão preprint de acesso aberto; a versão do periódico é de acesso restrito. Os exemplos formatados no conversor são do autor e simplificam variantes opcionais de cada norma (como a inclusão do local de publicação e a abreviação de títulos de periódicos). O caso do estudante é uma composição de situações reais de orientação, sem corresponder a uma pessoa específica. As traduções de trechos originalmente em inglês são do autor.

Referências

  1. AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Publication manual of the American Psychological Association. 7. ed. Washington, DC: APA, 2020.
  2. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15287: informação e documentação: projeto de pesquisa: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
  3. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica técnica e/ou científica: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2018a.
  4. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018b.
  5. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6028: informação e documentação: resumo, resenha e recensão: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2021.
  6. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023.
  7. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
  8. CAULFIELD, Mike. SIFT (the four moves). Hapgood, 19 jun. 2019. Disponível em: https://hapgood.us/2019/06/19/sift-the-four-moves/. Acesso em: 14 set. 2026.
  9. DRESCH, Aline; LACERDA, Daniel Pacheco; ANTUNES JÚNIOR, José Antonio Valle. Design science research: método de pesquisa para avanço da ciência e tecnologia. Porto Alegre: Bookman, 2015.
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  11. GRUDNIEWICZ, Agnes et al. Predatory journals: no definition, no defence. Nature, London, v. 576, n. 7786, p. 210-212, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-019-03759-y. Acesso em: 14 set. 2026.
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Brasil Acadêmico: Pesquisa aplicada: método científico, método de engenharia, tipos de pesquisa, fontes e normas
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