Numa sala de orientação de trabalho de conclusão, a cena se repete todo semestre: o estudante de Sistemas de Informação chega com um aplicat...
Ponto de partida
"Eu quero fazer um aplicativo"
A frase é dita com o entusiasmo de quem já tem o protótipo no celular. O orientador, que já viu dezenas de protótipos no celular, responde com a pergunta que desmonta a cena: qual é a pergunta? Não a pergunta do cliente, nem a do usuário — a pergunta que o trabalho vai responder e que ninguém respondeu antes. O estudante volta para casa com a sensação de que construir não vale. Vale. Só não é, por si só, pesquisa.
A distinção mais usada no mundo para separar essas coisas está no Manual de Frascati, o documento da OCDE que define o que conta como pesquisa e desenvolvimento para fins de estatística e de política pública (OECD, 2015). Ele separa três atividades: a pesquisa básica, que busca conhecimento novo sobre os fundamentos dos fenômenos sem mirar uma aplicação particular; a pesquisa aplicada, que também busca conhecimento novo, mas dirigido a um objetivo prático específico; e o desenvolvimento experimental, que usa conhecimento existente para produzir ou melhorar produtos e processos. E fixa cinco critérios para uma atividade contar como P&D: ela precisa ser nova, criativa, incerta quanto ao resultado, sistemática e transferível ou reprodutível.
Passe o aplicativo do estudante por esses cinco filtros e o diagnóstico aparece sozinho. Ele é sistemático e é transferível; talvez seja criativo. Mas não é incerto — o estudante sabe que vai funcionar, porque é um cadastro com relatórios — e não é novo no sentido de produzir conhecimento que não existia. Pesquisa aplicada não é "pesquisa que serve para alguma coisa": é a produção de conhecimento novo a serviço de um problema concreto. O aplicativo pode ser o instrumento dessa produção. Não é o produto dela.
Antes de mostrar como transformar um em outro, vale olhar de perto os dois métodos que o estudante e o orientador estão, sem saber, defendendo.
Etapa 01
Dois métodos, uma bomba d'água e uma nave
Em agosto de 1854, o bairro do Soho, em Londres, viveu um surto de cólera que matou centenas de pessoas em poucos dias. A teoria dominante dizia que a doença vinha dos "miasmas", o ar ruim das cidades sujas. Um médico chamado John Snow desconfiava de outra coisa: água contaminada. Em vez de discutir a teoria, ele foi contar mortos, casa por casa, e marcou cada um no mapa. Os casos se aglomeravam em torno de uma única bomba d'água pública na Broad Street — e rareavam, de forma reveladora, exatamente onde os moradores tinham outra fonte de água, como a cervejaria local, cujos operários bebiam cerveja. Snow publicou os dados, as tabelas e o mapa no ano seguinte (Snow, 1855).
Figura 1 — A bomba da Broad Street: uma hipótese, um mapa e uma contagem. A teoria do miasma não previa aquele padrão; a da água, sim.
Isso é o método científico em sua forma mais limpa: uma observação que a teoria vigente não explica bem, uma hipótese alternativa, uma previsão que permite distinguir as duas, dados coletados para testar a previsão e uma conclusão que fica aberta a contestação. A hipótese de Snow era arriscada — poderia ter sido derrubada pelos próprios dados —, e é isso que, para Popper, separa uma afirmação científica de uma que apenas parece científica: a possibilidade de ser refutada (Popper, 2013). Uma teoria que explica qualquer resultado não explica nada.
O outro método
Cento e dezesseis anos depois, em abril de 1970, três astronautas da Apollo 13 estavam trancados no módulo lunar de uma nave avariada, e o dióxido de carbono subia. O módulo lunar tinha filtros cilíndricos para duas pessoas; o módulo de comando, inutilizado, tinha filtros quadrados em abundância. Quadrado não entra em redondo. A equipe em solo tinha algumas horas e uma restrição absoluta: qualquer solução precisava ser montada com o que já estava dentro da nave. O resultado foi um adaptador feito de sacos plásticos, cartões plastificados de um manual de bordo, mangueiras das roupas espaciais e muita fita adesiva, com as instruções transmitidas por rádio (National Air and Space Museum, [s. d.]). Funcionou.
Figura 2 — O adaptador da Apollo 13: nenhuma hipótese foi testada, nenhum conhecimento novo sobre a natureza foi produzido — e foi um dos melhores trabalhos de engenharia do século.
Ninguém em Houston testou uma hipótese sobre a natureza. Eles resolveram um problema mal compreendido, sob prazo, com os recursos disponíveis, e a solução foi "boa o suficiente" no único sentido que importava. É a definição de Billy Koen para o método de engenharia: o uso de heurísticas para provocar a melhor mudança possível numa situação mal compreendida, dentro dos recursos disponíveis (Koen, 2003). Heurística, para Koen, é qualquer regra que ajuda a decidir sem garantir o acerto: "faça um protótipo antes", "dê margem de segurança", "aloque recursos para o ponto fraco", "na dúvida, use o que já funcionou". O cientista quer estar certo; o engenheiro quer entregar.
Figura 3 — Os dois ciclos giram sozinhos, mas trocam peças o tempo todo: a engenharia consome teorias; a ciência consome instrumentos.
Quadro 1 — Método científico e método de engenharia: o que cada um pergunta, produz e considera sucesso
| Dimensão | Método científico | Método de engenharia |
|---|---|---|
| Pergunta central | Por que o mundo se comporta assim? | Como fazer isto funcionar aqui, agora? |
| Ponto de partida | Uma observação que a teoria não explica | Uma necessidade com restrições de prazo e recurso |
| Motor | Hipótese falseável e teste controlado | Heurísticas, protótipos e iteração |
| Produto | Conhecimento generalizável | Artefato que resolve o caso |
| Critério de sucesso | A hipótese sobreviveu à tentativa de refutação | Atende aos requisitos dentro dos recursos |
| Atitude diante da incerteza | Reduzir a incerteza antes de concluir | Decidir apesar da incerteza |
| Exemplo desta postagem | A bomba da Broad Street (1854) | O adaptador da Apollo 13 (1970) |
Fonte: elaborado pelo autor com base em Popper (2013), Koen (2003), Snow (1855) e National Air and Space Museum ([s. d.]).
A ponte: design science
Volte ao estudante com o aplicativo. Ele está no ciclo da direita e o orientador cobra o ciclo da esquerda. A saída não é abandonar o artefato; é fazê-lo atravessar a ponte. É para isso que existe a design science research: um modo de pesquisa em que o artefato — um sistema, um método, um modelo — é construído justamente para responder a uma pergunta, e sua avaliação rigorosa é o que produz o conhecimento (Dresch; Lacerda; Antunes Júnior, 2015). Wieringa, que escreveu o manual mais usado da área em sistemas de informação e engenharia de software, descreve o ciclo em três movimentos: investigar o problema, projetar um tratamento e validar esse tratamento — e insiste que a validação responda a perguntas de conhecimento, não só de "funcionou" (Wieringa, 2014).
Figura 4 — Na design science, o artefato não é o fim: é o meio pelo qual o problema vira conhecimento — e o conhecimento volta para melhorar o artefato.
A diferença está toda na pergunta. "Desenvolver um aplicativo de agendamento para clínicas" é um projeto. "Em que medida um aplicativo de agendamento com confirmação automática reduz o não comparecimento em clínicas pequenas, e por quê?" é uma pesquisa — e o aplicativo é o instrumento. Wazlawick, no livro que virou leitura obrigatória de metodologia em computação, faz o mesmo alerta de outro ângulo: o trabalho que só descreve o sistema construído, sem pergunta, sem comparação e sem avaliação, é um relatório técnico, por mais bem feito que seja (Wazlawick, 2014). O que separa o projeto da pesquisa não é a quantidade de código: é a existência de uma pergunta cuja resposta alguém poderia contestar.
Etapa 02
Tipos de pesquisa: três botões, não uma gaveta
Todo manual de metodologia traz uma classificação de pesquisas, e todo estudante tenta decorá-la como se fosse uma lista de gavetas onde o trabalho precisa caber inteiro. Não é. A classificação mais difundida no Brasil, a de Antonio Carlos Gil, organiza as pesquisas por três critérios independentes (Gil, 2022): quanto à finalidade (básica ou aplicada), quanto aos objetivos (exploratória, descritiva ou explicativa) e quanto aos procedimentos (bibliográfica, documental, experimental, levantamento, estudo de caso, pesquisa-ação e outras). São três botões giratórios, e toda pesquisa tem os três em alguma posição ao mesmo tempo.
Figura 5 — Os três eixos de classificação são independentes: uma pesquisa aplicada pode ser exploratória ou explicativa, com levantamento ou com experimento.
Quadro 2 — Classificação das pesquisas segundo Gil: eixos, categorias e a pergunta que decide cada um
| Eixo | Categorias | Pergunta que decide |
|---|---|---|
| Finalidade | Básica (pura ou estratégica); aplicada | O conhecimento produzido mira um problema prático identificado? |
| Objetivos | Exploratória; descritiva; explicativa | Quero me familiarizar com o problema, retratá-lo com precisão ou explicar suas causas? |
| Procedimentos | Bibliográfica; documental; experimental; levantamento; estudo de caso; pesquisa-ação; ex-post-facto; etnográfica; entre outras | De onde vêm os dados e como serão obtidos? |
Fonte: elaborado pelo autor com base em Gil (2022).Nota: a design science research não consta da classificação de Gil; ela é tratada aqui como procedimento por Dresch, Lacerda e Antunes Júnior (2015).
Experimente: monte o seu tipo de pesquisa
Gire os três botões abaixo. O painel escreve a classificação completa e sugere como seria um trabalho de conclusão em sistemas de informação com aquela combinação — repare que algumas combinações pedem justificativa extra, e o painel avisa.
Finalidade
Objetivo
Procedimento
Pesquisa básica, exploratória, bibliográfica
Quanto à finalidade, busca conhecimento novo sem mirar, de saída, uma aplicação específica. Quanto ao objetivo, quer se familiarizar com um problema ainda pouco conhecido e levantar hipóteses. Quanto ao procedimento, os dados vêm de material já publicado.
Exemplo em sistemas de informação: Revisão sistemática do que se sabe sobre o abandono de aplicativos de saúde nos primeiros trinta dias de uso.
Figura 6 — Classificador de pesquisa: os eixos são independentes, mas nem toda combinação é natural — e o painel diz quando é preciso justificar.
Repare no que o classificador não faz: ele não escolhe por você. A classificação é consequência da pergunta, e nunca o contrário — quem começa escolhendo "vou fazer um estudo de caso" e depois procura uma pergunta que caiba nele está montando o quebra-cabeça pela tampa da caixa.
Etapa 03
Em quem confiar: a fonte é o alicerce
Snow venceu o debate do miasma com uma tabela. Mas a tabela só valia porque qualquer pessoa podia ir ao Soho, bater nas mesmas portas e contar os mesmos mortos. A pesquisa é uma conversa entre desconhecidos que só funciona quando cada afirmação vem com o endereço de onde foi tirada — e é por isso que a escolha das fontes vem antes da escrita, e não depois, como enfeite de rodapé.
Três camadas de distância do fato
A primeira distinção é a distância entre a fonte e o fato. A fonte primária é o registro original: o artigo que relata o experimento, o conjunto de dados, o documento oficial, a norma, o código-fonte. A secundária comenta, resume ou analisa fontes primárias: o artigo de revisão, o livro didático, a reportagem científica. A terciária compila secundárias: a enciclopédia, o dicionário, o verbete da Wikipédia. Nenhuma camada é proibida; o que muda é o uso. Terciárias e secundárias servem para chegar às primárias — e é a primária que entra na referência. Citar a enciclopédia quando o artigo original está a um clique de distância é declarar que não se fez o clique.
Figura 7 — A base larga é onde a busca começa; o topo estreito é onde a citação termina.
Revisado por pares não é sinônimo de verdadeiro
Há uma segunda distinção, mais incômoda. A ideia de que "artigo revisado por pares é fonte segura" precisa de asteriscos. Em 2023, mais de 10 mil artigos científicos foram retratados — isto é, oficialmente retirados da literatura por erro ou fraude —, um recorde; mais de 8 mil deles saíram de uma única editora, a Hindawi, então subsidiária da Wiley, em números especiais capturados por fábricas de artigos; e a proporção de retratações passou de 0,2% do publicado, mais que o triplo de uma década antes (Van Noorden, 2023). O mesmo levantamento mostra que a taxa varia muito por país de origem — e que o problema não é exclusivo das áreas "moles": só a IEEE, a maior editora de engenharia e computação, retratou mais de 10 mil trabalhos nas duas últimas décadas, a maioria artigos de conferência.
Tabela 1 — Taxa de retratação de artigos científicos por país, para os países com as maiores taxas, nas duas décadas até 2023
| País | Retratações por 10 mil artigos |
|---|---|
| Arábia Saudita | 30,6 |
| Paquistão | 28,1 |
| Rússia | 24,9 |
| China | 23,5 |
| Índia | 18,8 |
| Irã | 17,2 |
| Malásia | 16,7 |
| Egito | 15,2 |
Fonte: elaborado pelo autor com base em Van Noorden (2023).Nota: a análise original considera países com mais de 100 mil artigos publicados no período; o Brasil não figura entre os oito primeiros.
O outro lado do mesmo problema são as revistas predatórias: publicações que cobram do autor, prometem revisão por pares e não a fazem. Um consenso internacional de 2019 as definiu como entidades que priorizam o interesse próprio em detrimento do conhecimento, com informação falsa ou enganosa, desvio das boas práticas editoriais, falta de transparência e táticas agressivas de captação (Grudniewicz et al., 2019). O Brasil não está fora. Um estudo que cruzou a Plataforma Lattes com listas de revistas suspeitas encontrou que a fatia de artigos brasileiros nessas revistas ainda era pequena, mas crescia exponencialmente — e, pior, que bastava uma revista dessas ganhar classificação no Qualis para atrair mais submissões que as sérias (Perlin; Imasato; Borenstein, 2018).
Figura 8 — A isca costuma vir por e-mail, com elogio ao seu último trabalho e promessa de publicação em dias. Revisão por pares séria não cabe em 48 horas.
Dois protocolos de bolso
Para avaliar uma fonte individual, o instrumento mais usado nas bibliotecas universitárias é o teste CRAAP, criado na Universidade Estadual da Califórnia em Chico: cinco perguntas sobre atualidade, relevância, autoridade, exatidão e propósito (Meriam Library, 2010). Ele funciona bem para o que já está na sua mesa. Para o que chega pela tela, Mike Caulfield propôs um protocolo mais rápido, o SIFT, em quatro movimentos: pare; investigue a fonte antes de ler o conteúdo; procure cobertura melhor sobre a mesma afirmação; e rastreie citações, imagens e trechos até o contexto original (Caulfield, 2019). O terceiro e o quarto movimentos são a versão digital do "vá até a fonte primária".
Um lembrete prático para quem estuda em instituição privada: a maioria dos artigos que parecem trancados atrás de paywall está acessível por dois caminhos gratuitos — a biblioteca virtual da própria instituição e o Portal de Periódicos da CAPES, que qualquer estudante de instituição vinculada acessa com o login institucional. Antes de citar a versão do blog que resumiu o artigo, vale um minuto para tentar o original.
Fica um roteiro de verificação, para ser aplicado a cada fonte antes de ela entrar na lista de referências:
0 de 6 — comece pela origem.
Etapa 04
Normas: a ABNT e as outras
Existe um mal-entendido persistente sobre normas de trabalho acadêmico: a de que elas são um ritual de formatação inventado para atormentar estudantes na véspera da entrega. A função delas é outra. Uma norma de citação é um protocolo de rastreabilidade: ela garante que qualquer leitor, em qualquer lugar, consiga refazer o caminho até a fonte sem precisar perguntar ao autor. É a mesma lógica da tabela de Snow — o endereço de cada afirmação —, só que padronizada para que máquinas e bibliotecários também consigam seguir.
A família ABNT
No Brasil, quem escreve essas regras é a Associação Brasileira de Normas Técnicas, e não há uma "norma ABNT": há uma família de normas, cada uma cuidando de uma parte do documento. A NBR 14724, atualizada em dezembro de 2024, define a estrutura do trabalho acadêmico — capa, folha de rosto, elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais (ABNT, 2024). A NBR 10520, revista em 2023, rege as citações no corpo do texto (ABNT, 2023). A NBR 6023, de 2018, rege a lista de referências (ABNT, 2018b). E há as coadjuvantes: a NBR 6022 para artigos em periódicos (ABNT, 2018a), a NBR 6028 para resumos (ABNT, 2021) e a NBR 15287 para o projeto de pesquisa, aquele que se escreve antes de fazer qualquer coisa (ABNT, 2011).
Quadro 3 — Principais normas ABNT para trabalhos acadêmicos: o que cada uma rege e a versão vigente
| Norma | O que rege | Versão vigente | Mudança recente que mais afeta o estudante |
|---|---|---|---|
| NBR 14724 | Estrutura e apresentação de trabalhos acadêmicos (TCC, dissertação, tese) | 2024 | Ficha catalográfica "conforme código vigente"; ilustrações podem ser alinhadas à esquerda; tabelas seguem o IBGE com fonte conforme a NBR 10520 |
| NBR 10520 | Citações no texto | 2023 | Autor entre parênteses passa a caixa baixa: (Souza, 2015), e não mais (SOUZA, 2015); ponto final antes do parêntese; recuo de 4 cm vira recomendação |
| NBR 6023 | Lista de referências | 2018 | Modelos para documentos digitais, DOI, redes sociais; destaque tipográfico do título a critério do autor, desde que uniforme |
| NBR 6022 | Artigo em publicação periódica científica | 2018 | Estrutura de artigo alinhada às demais normas da família |
| NBR 6028 | Resumo, resenha e recensão | 2021 | Distingue resumo (do próprio autor) de resenha e recensão |
| NBR 15287 | Projeto de pesquisa | 2011 | Estrutura mínima do projeto: tema, problema, hipóteses, objetivos, justificativa, método, cronograma |
Fonte: elaborado pelo autor com base em ABNT (2011, 2018a, 2018b, 2021, 2023, 2024).Nota: as normas ABNT são documentos pagos, disponíveis nas bibliotecas de normas técnicas assinadas pelas instituições de ensino; os resumos de mudanças aqui listados são do autor.
A mudança de 2023 na NBR 10520 merece um parágrafo, porque pega desprevenido quem aprendeu a citar há mais de três anos. A chamada entre parênteses deixou de usar caixa alta no sobrenome: escreve-se (Gil, 2022), e não (GIL, 2022). A pontuação também mudou de lugar — o ponto final agora fica antes do parêntese que fecha a citação. E o recuo de quatro centímetros da citação direta longa, antes obrigatório, virou recomendação. A lista de referências, regida pela NBR 6023, continua com o sobrenome em caixa alta: GIL, Antonio Carlos. A aparente incoerência tem lógica: a lista é ordenada por sobrenome, e a caixa alta ajuda a varrer a coluna; a chamada no texto não precisa gritar.
E as outras normas?
A ABNT é brasileira; a ciência não. Quem publica fora, ou lê o que vem de fora, cruza com pelo menos quatro outras convenções — e vale saber que elas se dividem em duas famílias. A família autor-data, à qual pertencem a ABNT e a APA (da Associação Americana de Psicologia, dominante em ciências humanas e sociais), identifica a fonte no texto pelo sobrenome e pelo ano (American Psychological Association, 2020). A família numérica identifica a fonte por um número, na ordem em que aparece no texto: é o caso da Vancouver, mantida pelo comitê internacional de editores de revistas médicas, que numera consecutivamente e remete ao padrão da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (ICMJE, 2025), e da IEEE, usada em engenharia elétrica e computação, com o número entre colchetes e o nome do autor invertido — iniciais antes do sobrenome (IEEE, 2018). A Chicago oferece as duas: notas de rodapé com bibliografia, preferidas em história e humanidades, ou autor-data (University of Chicago Press, 2024). E, acima de todas, a norma internacional ISO 690 define os princípios gerais que as nacionais adaptam — a ABNT declara a NBR 6023 como baseada nela (ISO, 2021).
Figura 9 — Mesmo livro, quatro carimbos: o conteúdo da referência é o mesmo; muda a ordem, a pontuação e o que recebe destaque.
Quadro 4 — Cinco convenções de citação comparadas
| Convenção | Mantenedor | Sistema | Chamada no texto | Ordem da lista | Nome do autor na lista | Áreas típicas |
|---|---|---|---|---|---|---|
| ABNT (NBR 6023 e 10520) | Associação Brasileira de Normas Técnicas | Autor-data (numérico também previsto) | (Gil, 2022) | Alfabética | GIL, Antonio Carlos | Todas, no Brasil |
| APA, 7. ed. | American Psychological Association | Autor-data | (Gil, 2022) | Alfabética | Gil, A. C. | Psicologia, educação, ciências sociais |
| Vancouver (ICMJE/NLM) | International Committee of Medical Journal Editors | Numérico | (1) ou sobrescrito | Ordem de citação | Gil AC | Medicina e saúde |
| IEEE | Institute of Electrical and Electronics Engineers | Numérico | [1] | Ordem de citação | A. C. Gil | Engenharia elétrica, computação |
| Chicago, 18. ed. | University of Chicago Press | Notas e bibliografia; ou autor-data | Nota de rodapé numerada; ou (Gil 2022) | Alfabética | Gil, Antonio Carlos | História, humanidades, editoras |
Fonte: elaborado pelo autor com base em ABNT (2018b, 2023), American Psychological Association (2020), ICMJE (2025), IEEE (2018) e University of Chicago Press (2024).Nota: na ABNT, a chamada em caixa baixa segue a NBR 10520:2023; textos anteriores a julho de 2023 usam (GIL, 2022).
Experimente: a mesma referência, quatro normas
O componente abaixo formata duas fontes desta postagem — um artigo e um livro — em cada uma das quatro convenções mais usadas. Passe de uma para outra e observe o que muda: o que vai para caixa alta, o que vai para itálico, onde entra o ano e quem recebe número. As cores marcam as mesmas partes em todas as normas.
Chamada no texto
Segundo Van Noorden (2023), … ou … (Van Noorden, 2023).
Artigo de periódico
VAN NOORDEN, Richard. More than 10,000 research papers were retracted in 2023 — a new record. Nature, London, v. 624, n. 7992, p. 479-481, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-023-03974-8. Acesso em: 14 set. 2026.
Livro
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. Barueri: Atlas, 2022.
ABNT NBR 6023:2018 e NBR 10520:2023. Sobrenome em caixa alta na lista, em caixa baixa na chamada; destaque no título do livro e no nome do periódico; lista em ordem alfabética.
autor ano título veículo ou editora número
Figura 10 — Conversor de referências: o conteúdo é invariante; o que a norma decide é ordem, pontuação e destaque. Sem JavaScript, o componente exibe a versão ABNT.
Há uma lição escondida no conversor. As quatro normas exigem exatamente as mesmas informações — autor, ano, título, veículo, volume, páginas, DOI. O trabalho difícil de uma referência não é a formatação: é ter anotado, na hora da leitura, de onde veio cada coisa. Quem guarda isso desde o primeiro dia formata em qualquer norma em uma tarde; quem não guarda descobre, na véspera, que o PDF sem cabeçalho não diz nem o ano.
Defesa
O aplicativo virou pesquisa
Volte uma última vez à sala de orientação. O estudante não jogou o protótipo fora. Ele reescreveu a primeira página: em vez de "desenvolver um sistema de agendamento", o objetivo passou a ser "avaliar em que medida a confirmação automática reduz faltas em clínicas de pequeno porte". A finalidade é aplicada; o objetivo, explicativo; o procedimento, design science com um estudo de caso em duas clínicas. A revisão bibliográfica buscou artigos de acesso aberto sobre não comparecimento em saúde — e descartou dois, publicados em revistas de reputação duvidosa. O aplicativo continua lá, no capítulo de método. A resposta, com números e limitações, está no capítulo de resultados. As referências seguem a NBR 6023 e as chamadas, a NBR 10520 de 2023 — em caixa baixa, para desgosto de quem decorou a regra antiga.
Figura 11 — O caminho do celular à monografia passa por uma pergunta, um método, uma avaliação e um resultado. O código é só a segunda parada.
Pesquisar é construir com o método de engenharia e responder com o método científico.
A ciência e a engenharia não são rivais no trabalho de conclusão: são turnos. A engenharia constrói o instrumento com o que há a bordo; a ciência o aponta para uma pergunta e aceita a resposta que vier, inclusive a que contraria a hipótese. As normas são o que permite que alguém, daqui a dez anos, refaça o percurso. E as fontes confiáveis são o chão onde tudo isso se apoia — o chão que Snow pisou, casa por casa, antes de desenhar o mapa.
No trabalho que você está começando agora — o aplicativo, o levantamento, a revisão —, qual é a afirmação que alguém poderia contestar? E, se ela for contestada, para qual fonte você vai apontar?
Nota do autor: as chamadas de citação desta postagem seguem a NBR 10520:2023 (sobrenome em caixa baixa entre parênteses); postagens anteriores deste blog usam a forma da versão de 2002, então vigente. As definições do Manual de Frascati foram parafraseadas pelo autor a partir da edição original em inglês; há tradução para o português do Brasil disponibilizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os resumos de mudanças das normas ABNT no Quadro 3 são interpretações do autor a partir dos textos normativos, que são documentos pagos; recomenda-se consultar o texto integral pela biblioteca de normas da instituição. A Tabela 1 reproduz taxas calculadas pela reportagem citada com base em dados da Retraction Watch e de outras fontes, para o período de cerca de duas décadas até 2023; o valor exato do intervalo e o corte mínimo de artigos por país são os da reportagem. O estudo de Perlin, Imasato e Borenstein é citado na versão preprint de acesso aberto; a versão do periódico é de acesso restrito. Os exemplos formatados no conversor são do autor e simplificam variantes opcionais de cada norma (como a inclusão do local de publicação e a abreviação de títulos de periódicos). O caso do estudante é uma composição de situações reais de orientação, sem corresponder a uma pessoa específica. As traduções de trechos originalmente em inglês são do autor.
Referências
- AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Publication manual of the American Psychological Association. 7. ed. Washington, DC: APA, 2020.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15287: informação e documentação: projeto de pesquisa: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica técnica e/ou científica: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2018a.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018b.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6028: informação e documentação: resumo, resenha e recensão: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2021.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
- CAULFIELD, Mike. SIFT (the four moves). Hapgood, 19 jun. 2019. Disponível em: https://hapgood.us/2019/06/19/sift-the-four-moves/. Acesso em: 14 set. 2026.
- DRESCH, Aline; LACERDA, Daniel Pacheco; ANTUNES JÚNIOR, José Antonio Valle. Design science research: método de pesquisa para avanço da ciência e tecnologia. Porto Alegre: Bookman, 2015.
- GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. Barueri: Atlas, 2022.
- GRUDNIEWICZ, Agnes et al. Predatory journals: no definition, no defence. Nature, London, v. 576, n. 7786, p. 210-212, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-019-03759-y. Acesso em: 14 set. 2026.
- INSTITUTE OF ELECTRICAL AND ELECTRONICS ENGINEERS. IEEE reference guide. Piscataway: IEEE, 2018. Disponível em: https://journals.ieeeauthorcenter.ieee.org/wp-content/uploads/IEEE-Reference-Guide.pdf. Acesso em: 14 set. 2026.
- INTERNATIONAL COMMITTEE OF MEDICAL JOURNAL EDITORS. Recommendations for the conduct, reporting, editing, and publication of scholarly work in medical journals: preparing a manuscript for submission to a medical journal. [S. l.]: ICMJE, 2025. Disponível em: https://www.icmje.org/recommendations/browse/manuscript-preparation/preparing-for-submission.html. Acesso em: 14 set. 2026.
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- ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. Frascati manual 2015: guidelines for collecting and reporting data on research and experimental development. Paris: OECD Publishing, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1787/9789264239012-en. Acesso em: 14 set. 2026.
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