O Profissional do Futuro

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Michelle fala sobre o profissional do futuro. Ela aborda a evolução do mercado de trabalho nos últimos anos e as mudanças que a tecnologia t...

Michelle fala sobre o profissional do futuro. Ela aborda a evolução do mercado de trabalho nos últimos anos e as mudanças que a tecnologia trouxe e ainda vai trazer nos próximos anos. Em um futuro em que as máquinas irão substituir metade da força global de trabalho, como os profissionais vão conseguir se diferenciar das máquinas e permanecerem humanos dentro de um mundo tão digital. Michelle é publicitária, DJ, maratonista e atua hoje como Head de Educação no LinkedIn Brasil.

Alguns anos atrás, eu estava na ponte aérea voltando do Rio de Janeiro, em uma semana particularmente difícil. Era uma época em que não me alimentava bem, não dormia bem, e vivi uma das épocas mais difíceis da minha vida profissional. Quando entrei no avião e sentei, fiz o óbvio: abri o computador pra trabalhar. Logo a aeromoça veio, pedindo para eu fechar, dizendo que o voo estava lotado, e que não era permitido.



Na verdade, dizendo que estava na saída de emergência e que não era permitido o uso de computadores. Eu tentei mudar de assento, obviamente, mas o voo estava lotado. Então como de costume, já estava pronta pra colocar meu fone de ouvido, quando escutei a seguinte frase:

“Por que você não aproveita esses 40 minutos pra você? Eles não vão mudar nada na sua vida.”

Quando virei, um homem simpático sorriu e continuou dizendo: “Sabe que já mudei do Brasil faz um tempo, mas me assusta cada vez que eu venho pra cá, ver as pessoas trabalhando e vivendo nesse ritmo, e ver que eu vivi exatamente assim.” Eu fiquei envergonhada, tentei jogar o assunto pra esporte, maratona, bicicleta, mas logo ele me perguntou: “E o computador hein? O que tem nele de tão importante?” Eu contei que trabalhava no LinkedIn, e ele me perguntou se eu conhecia o Oswaldo, que era nosso CEO na época.

Eu disse: “Claro! De onde você conhece ele?” Então ele me disse:

“Eu vim desse mercado. Fui eu que trouxe o Google e o Facebook pro Brasil.”

Gente, fiquei desesperada. Mil conexões passaram na minha cabeça. Pessoas, frases, notícias... Eu sabia quem tinha trazido o Google e o Facebook pro Brasil. Esse cara era uma referência pra mim. Mesmo superempolgada, naquele momento contive a minha surpresa, agi naturalmente, e disse: “Ah! Você é o Hagen?” E ele me disse: “Sou.” O fato de eu não saber quem era ele, me deixou mais à vontade pra ser eu mesma. Pelo menos até aquele momento, né? A gente falou sobre diversos assuntos: “startups”, empreendedorismo, projetos sociais, Google, Facebook, Instagram. Podia dizer que tinha ido pra Europa. Mas já chegando em São Paulo, pensei:

“O que eu poderia perguntar pra esse cara, que de alguma forma, poderia mudar a minha carreira?” Então criei coragem e disse: “O que você olha antes de contratar alguém?”

Entendendo que ele deveria ter contratado um time muito bom, pra essas empresas estarem onde estão hoje.

E ele me disse que olhava basicamente cinco coisas, mas que tinha uma que chamava muito a atenção dele, que era entender quem era aquela pessoa fora do ambiente de trabalho. Ele me contou então um caso, de quando ele contratou uma pessoa para o Google, para a área financeira, que era um palhaço fora do escritório, e disse que aquilo tinha chamado muito a atenção dele.

Eu aproveitei e contei que no LinkedIn, todos os meses a gente tem uma reunião com todos os funcionários da empresa, e que os novatos têm que ir lá na frente se apresentar, e contar algo que não está no perfil do LinkedIn deles. Que era uma maneira parecida de descobrir essa habilidade. E já na fila do táxi, nos despedindo então, ele me perguntou:

“E me diz hein, o que não está no seu perfil do LinkedIn?”

Eu fiquei um pouco sem graça, não sabia muito o que falar, e acabei contando sobre um hobby novo que tinha na época, e disse que era DJ. O que eu não podia imaginar, é que ele ia virar superempolgado e dizer: “Mentira! Eu também sou DJ.” E foi nesse dia, no caminho de volta pra casa, que eu comecei a pensar sobre o profissional do futuro.

Na verdade mais ainda sobre eu, como uma profissional do futuro. Não é novidade para ninguém que a tecnologia está mudando o mundo e nos levando pra um futuro ainda desconhecido. Nos próximos anos, a Inteligência Artificial (IA) vai excluir centenas de milhares de pessoas do mercado de trabalho, e esse é um problema em escala global que vai afetar a economia de todos os países. E se por um lado já existe um movimento pra esse assunto, me assusta ver que a maioria das pessoas não fazem ideia sequer do tamanho dessa ruptura tecnológica que está pra acontecer.

E não estou falando de algo que vai acontecer daqui há 200 anos, é uma mudança que já começou, e vais se intensificar demais nos próximos 10 a 20 anos.

A substituição de empregos por robôs e softwares tem sido tema de diversos estudos, e um deles, da Universidade de Oxford, aponta que aproximadamente 47% dos empregos tendem a desaparecer nos próximos 20 anos.

E aqui não estou falando só de motoristas, operadores de telemarketing e corretores. Professores, médicos e advogados também estão nessa lista.

Atualmente, um site chamado WebMT, que é uma coleção de sites de saúde, em que as pessoas podem fazer consultas online, recebe mais visitas do que todos os médicos dos Estados Unidos. Já no mundo das disputas judiciais, todos os anos, mais de 60 milhões de desacordos entre comerciantes do eBay, são resolvidos através de resolução de disputas online. Ou seja, robôs em vez de advogados e juízes. E se a gente pensa que só nós profissionais, vamos ser transformados em robôs, o Vaticano concedeu a primeira licença digital a um aplicativo chamado Confissão, que vai ajudar as pessoas a se prepararem pra se confessar.

E eu fico imaginando como será que vai ser se confessar pra um robô padre.

Pois é... Se de um lado a gente tem esses milhões de empregos desaparecendo, é claro que diante dessa nova economia, muitos novos empregos vão surgir. Mas existe um ponto importante aqui. Se a gente olhar pra trajetória da Revolução Industrial, quando os humanos foram substituídos pelas máquinas, isso geralmente aconteceu em trabalhos de baixa qualificação. Quando a gente não precisava mais dos trabalhadores agrícolas, que representavam 80% do mercado de trabalho na época, eles passaram a ocupar as vagas nas indústrias que estavam surgindo.

Ou seja, eles deixaram de arar a terra e passaram a apertar parafusos nas linhas de montagem. Quando esses empregos nas linhas de montagem começaram a ser automatizados também, eles passaram da linha montagem, pra serviços de baixa qualificação, que é onde essas pessoas estão hoje. Ou seja, até aqui a gente sempre deu um jeito, né? Agora quando as pessoas dizem que haverá novos empregos no futuro e que os humanos podem ser melhores que a IA, e que os humanos podem ser melhores que os robôs, essas pessoas geralmente pensam em trabalhos de alta qualificação, como pessoas que vão trabalhar com robótica, com gameficação, com realidade aumentada...

Eu não vejo como um motorista de caminhão desempregado aos 50 anos, que perdeu seu emprego pra veículos autônomos, nem como um caixa de supermercado que não teve oportunidade de estudo, vai se reinventar diante desses empregos do futuro, que vão exigir uma alta qualificação.

E isso faz com que o mundo caminhe pra uma desigualdade jamais vista antes. Uma vez que os mais afetados serão essas pessoas de baixa qualificação e de baixa renda.

E aí? O que a gente faz com tanta gente que vai ficar sem emprego? Muita gente diz que a solução pra isso é a possibilidade de se criar uma renda básica universal, ou seja, oferecer uma renda básica pra qualquer adulto independente dessa pessoa trabalhar ou não.

Eu confesso que fiquei chocada a primeira vez que ouvi falar nesse assunto, mas ele vem ganhando cada vez mais novos adeptos inclusive grandes nomes do Vale do Silício como Mark Zuckerberg e Elon Musk. Essa iniciativa é vista como uma forma de compensar o desemprego gerado pela automação. Só que aqui não está claro o que é universal nem o que é básico.

Quando a gente fala em renda básica universal, a gente pensa na verdade no problema de forma nacional pra um problema que é global.

E vou dar um exemplo aqui pra gente entender melhor isso. Imaginem vocês que a IA e as impressoras 3D vão excluir milhões de trabalhadores escravos em Bangladesh. Quem vai pagar a renda básica deles? Será que os Estados Unidos e a Europa vão recolher imposto do Google, da Amazon, da Apple, e vão usar esse dinheiro pra pagar a renda básica dos bengaleses? Eu não sei o que vocês acham disso, mas eu particularmente não acho que isso vá acontecer.

E aqui também não está claro o que é básico quando a gente fala em renda básica universal. O que é básico pra vocês? Quais são as necessidades básicas do ser humano? Algumas pessoas vão dizer que alimento e abrigo são suficientes. Já outras vão dizer: “Educação tem que fazer parte desse pacote”. Mas se a gente falar de educação, de quanto tempo a gente está falando? Seis anos? Doze anos? PhD? Quando as pessoas perdem a sua empregabilidade, a única coisa que vai lhes restar é a renda básica universal.

Então o que compõe essa cesta, é uma questão ética muito delicada. A gente tá falando do provável surgimento de uma enorme classe de pessoas ociosas. E aí eu fico pensando... Será que essas pessoas que reclamam tanto do trabalho, vão ficar felizes com essa possibilidade? Ou será que doenças como estresse, depressão, obesidade e até suicídio, vão se agravar ainda mais diante dessa falta do que fazer? Então, como a gente se prepara pra esse mundo, que a gente nem sabe ainda bem qual vai ser?

Afinal, quais são os empregos do futuro? Detetive de dados? Psicólogo de robôs? A verdade é que não tenho essa resposta.

Não sei dizer quais são os empregos do futuro, e acho que talvez ninguém ainda tenha essa resposta. Do mesmo jeito que 10, 12 anos atrás a gente não sabia que iam existir Youtubers, motoristas de Uber, desenvolvedores de aplicativo, jogadores de League of Legends... A gente também não tem como dizer quais serão os empregos do futuro. 75% das crianças que estão no ensino médio hoje, vão trabalhar em um emprego que ainda não existe.

Mas então como que essas escolas e essas universidades se preparam diante de um futuro tão incerto? Eu já estive algumas vezes no Vale do Silício visitando as universidades mais inovadoras de lá. Eu visitei universidades sem campus, universidades sem professores, colégios pra crianças superdotadas que aprendem através de projetos com impressoras 3D, corte a laser. Fui numa universidade do Google com a NASA que fica dentro da NASA. Eu vi muita coisa, muito legal e muito interessante.

Mas uma das que mais me chamou a atenção, foi um escola chamada Minerva School, em que além de várias coisas superlegais que eles têm, eles têm um foco muito grande em desenvolver as habilidades comportamentais de seus alunos.

Foi lá uma das primeiras vezes na vida que eu ouvi dizer, que as habilidades do futuro não serão as habilidades técnicas, e sim as habilidades comportamentais. Uma vez que com a IA os robôs poderia aprender quase qualquer habilidade técnica que a gente tem hoje, mas ao menos não tão cedo poderiam desenvolver suas habilidades comportamentais. O World Economic Forum reforçou esse “insight” quando listou e apresentou ali quais serão as dez habilidades mais importantes para o profissional do futuro. E confirmou que todas elas, sem exceção, serão habilidades comportamentais e não técnicas. Em outras palavras, pra ser bem-sucedido, esse profissional do futuro vai ter de saber como pensar, e não mais o que pensar.

A maioria das escolas e das universidades hoje nos ensinam o que pensar, e não como pensar. A gente cresceu ouvindo dos nosso pais, dos nossos professores, dos nossos chefes e da sociedade em geral, o que era certo e o que era errado. E diante de um modelo linear industrial como aquele, se a gente fizesse o que era certo, a gente tinha uma chance muito grande de sermos “bem-sucedidos”. Já na era digital, devorar nomes e fórmulas já não faz mais sentido. As respostas estão prontas na internet. Isso não quer dizer que a gente não vai ter que se desenvolver tecnicamente. A gente vai sim, ter que desenvolver essas habilidades, e a chance delas estarem ligadas à tecnologia e à codificação é enorme. Porém, a velocidade da mudança das coisas vai ser tão grande, que essas habilidades técnicas vão ter um prazo de validade muito curto. Em outras palavras, esse profissional do futuro então vai ter que ser um “longlife learner”, ou seja, ele vai ter que aprender pra sempre.

Aquela história de que a gente vai estudar até os 20 e poucos anos, e aí a gente vai entrar no mercado de trabalho, e a gente vai fazer algumas pequenas pausas pra uma MBA ou uma pós-graduação, não vão mais fazer nenhum sentido diante dessa nova economia. Dizem inclusive que esse profissional do futuro vai ter aproximadamente até cinco carreiras ao longo da vida. Isso se elas não acontecerem ao mesmo tempo. O futurista Alvin Tofler disse que o analfabeto do século XXI não será aquele que não sabe ler e escrever, mas sim, aquele que não souber aprender a desaprender e a reaprender.

É claro que isso tudo são possibilidades, mas o que eu sinto, é que independente do que vai acontecer no futuro, nós humanos hoje, estamos ficando cada vez melhores em compreender o cérebro e a inteligência. Mas a gente está evoluindo cada vez menos a nossa consciência. E as pessoas confundem inteligência e consciência. Inteligência é a capacidade de resolver problemas, e consciência é a capacidade de sentir.

A gente está criando Inteligência Artificial, mas a gente não está criando Consciência Artificial.

Dizem que no ano de 2029, o computador vai se tornar tão inteligente quanto nós, seres humanos. E que em 2045, um único computador vai ser mais inteligente do que toda a humanidade junta. Porém, não há nenhum indício, de que esses computadores vão se tornar conscientes. Ao menos tão cedo, eles não vão poder sentir. E se é isso que vai diferenciar a gente dos computadores, isso que vai diferenciar a gente dos robôs, a gente tem que começar a desenvolver mais a consciência humana.

A gente está cada vez mais desenvolvendo a nossa externa, esquecendo de olhar pra dentro da gente. Cada vez mais nos é cobrado que a gente seja o melhor profissional, o mais bem-sucedido, o mais inteligente, o mais competitivo, mas ninguém ensina a gente a lidar com as nossas emoções. Se a gente não aprender e não entender que a felicidade não está em ter e sim em ser, a gente vai continuar criando mais e mais robôs humanos. Pois não é preciso ser um robô para agir como um. Então hoje quando eu penso: “Quem será o profissional do futuro?” “Quem serei eu como profissional do futuro?” Pra mim, o profissional do futuro vai sim desenvolver as habilidades externas, mas se ele não desenvolver os “skills” internos e conseguir equilibrar isso dentro dele, a chance dele viver uma vida medíocre e infeliz será muito grande.

Em outras palavras, o profissional do futuro nada mais é do que um ser humano do futuro.

E hoje eu quando me perguntam: “O que não está no meu perfil do LinkedIn?” Eu digo que além de ser DJ, eu venho acordando de anos em que eu vivi anestesiada. Eu levei anos pra perceber que eu era uma perfeita ninguém. Que eu respondia a demanda da sociedade, as demandas do meu trabalho, as demandas da minha família, menos as minhas. Até porque eu não tinha a menor ideia de quais eram as minhas próprias vontades, senão, atender as expectativas dos outros. E hoje quando me perguntam o que é que me fez acordar de tudo isso, foi o amor. O amor em perceber, descobrir e aceitar a beleza das minhas próprias imperfeições. E vocês? O que é que não está no seu perfil do LinkedIn? Obrigada!

Fonte: TEDx Talks
[Visto no Brasil Acadêmico]

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Brasil Acadêmico: O Profissional do Futuro
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Brasil Acadêmico
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