O Pix não inventou a transferência de dinheiro — e talvez por isso seja a inovação brasileira mais bem-sucedida das últimas décadas. Neste p...
No dia 16 de novembro de 2020, entrou oficialmente no ar um sistema de pagamentos que não trazia, a rigor, nenhuma tecnologia inédita. Transferência eletrônica de dinheiro já existia havia décadas; pagamento instantâneo já rodava em outros países; QR Code era coisa dos anos 1990. Cinco anos depois, esse sistema — o Pix — tinha 170 milhões de usuários adultos, mais de 20 milhões de empresas cadastradas e caminhava para movimentar cerca de R$ 30 trilhões em um único ano, o equivalente a quase duas vezes o PIB brasileiro (AGÊNCIA BRASIL, 2025). A moça do brigadeiro na porta da faculdade aceita. O flanelinha aceita. Sua avó usa.
E aqui mora um aparente paradoxo: se nada ali era tecnicamente novo, por que tanta gente séria — do Banco Central a rankings internacionais — trata o Pix como um caso exemplar de inovação? A resposta exige desmontar a palavra. É o que este post se propõe a fazer: sem autoajuda corporativa, sem frase de LinkedIn, com as fontes na mesa.
Iteração 01
Uma palavra com muitos donos
"Inovação" virou palavra-curinga: cabe no edital de fomento, no discurso de posse, na embalagem do iogurte. Mas o conceito tem endereço e certidão de nascimento. Quem primeiro o colocou no centro da economia foi o austríaco Joseph Schumpeter, ainda em 1911, ao afirmar que o desenvolvimento econômico não vem do crescimento gradual da poupança ou da população, e sim da introdução de novas combinações dos meios produtivos: um novo bem, um novo método de produção, a abertura de um novo mercado, uma nova fonte de matérias-primas ou uma nova forma de organização (SCHUMPETER, 1997).
Décadas depois, o mesmo Schumpeter cunharia a expressão que talvez seja a mais citada — e a mais mal citada — da história do tema: a destruição criadora, o "processo de mutação industrial que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova" (SCHUMPETER, 2017). O automóvel não aperfeiçoou a carruagem; aposentou-a. O streaming não melhorou a locadora; extinguiu-a. Inovação, nessa chave, não é enfeite do capitalismo — é o motor dele.
Já Peter Drucker, o pai da administração moderna, puxou o conceito da macroeconomia para a mesa do gestor: inovação é "o instrumento específico dos empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio diferente ou um serviço diferente". E completou com uma provocação que segue atual: inovação pode ser aprendida e praticada de forma sistemática — não é raio que cai da nuvem do gênio (DRUCKER, 2016).
Iteração 02
Descoberta, invenção, inovação: a linha de montagem da ideia
Se cada autor tem seu sotaque, o padrão internacional de medição tem uma gramática só. O Manual de Oslo, publicado pela OCDE e pelo Eurostat e hoje na 4ª edição, é a referência mundial para definir e medir o fenômeno. A definição de 2018 diz, em síntese, que inovação é um produto ou processo de negócios novo ou aprimorado (ou uma combinação de ambos) que difere significativamente dos anteriores da unidade e que foi disponibilizado a usuários potenciais ou colocado em uso (OCDE; EUROSTAT, 2018). A edição atual enxugou a taxonomia para dois grandes tipos: inovação de produto (bens e serviços) e inovação de processo de negócios (produção, distribuição, marketing, sistemas de informação, administração e desenvolvimento).
Repare no verbo que sustenta a definição: disponibilizado. É ele que separa a inovação de suas duas primas mais confundidas. A descoberta revela algo que já existia na natureza — ninguém "inventou" o grafeno, ele foi isolado. A invenção concebe um artefato ou método inédito — e pode muito bem morrer na prateleira, dentro de uma patente que ninguém licencia. A inovação só se consuma quando o novo chega ao uso, ao mercado, à sociedade. Sem adoção, não há inovação; há promessa.
Teste você mesmo: o que é o quê?
Selecione um caso abaixo e veja em que estação da linha de montagem ele para. O quarto caso costuma surpreender.
Escolha um caso para ver o veredito.
Quadro 1 — Diferenças conceituais entre descoberta, invenção e inovação
| Dimensão | Descoberta | Invenção | Inovação |
|---|---|---|---|
| O que faz | Revela o que já existe na natureza | Concebe artefato ou método inédito | Leva o novo ao uso ou ao mercado |
| Prova de sucesso | Validação pela comunidade científica | Funcionamento técnico (ex.: patente) | Adoção por usuários e sociedade |
| Pode ficar na gaveta? | Sim, sem aplicação prática | Sim — e frequentemente fica | Não: sem uso, não se consuma |
| Exemplo | Isolamento do grafeno (2004) | Patente sem licenciamento | Pix (2020) |
Fonte: elaborado pelo autor com base em OCDE e Eurostat (2018) e Schumpeter (1997).
Dentro do território da inovação ainda há gradações que o debate público adora misturar: a inovação incremental melhora o que existe (o iogurte com nova tampa), a radical rompe o paradigma técnico (o LED frente à lâmpada incandescente) e a disruptiva — termo de Clayton Christensen que virou sinônimo indevido de "qualquer coisa nova" — descreve algo bem específico: o produto inicialmente pior e mais barato, que atende quem estava fora do mercado e depois desbanca os líderes (CHRISTENSEN, 2012). Pela régua original do autor, a maioria das "disrupções" anunciadas por aí não passa de melhoria incremental com assessoria de imprensa.
Iteração 03
O que diz a lei brasileira (sim, temos uma)
Pouca gente sabe, mas "inovação" tem definição jurídica no Brasil. A Lei de Inovação — Lei nº 10.973/2004, atualizada pelo Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016) — define o termo como a "introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produtivo e social que resulte em novos produtos, serviços ou processos ou que compreenda a agregação de novas funcionalidades ou características a produto, serviço ou processo já existente que possa resultar em melhorias e em efetivo ganho de qualidade ou desempenho" (BRASIL, 2004).
Dois detalhes dessa definição merecem grifo. Primeiro, o legislador falou em ambiente produtivo e social: inovação, no Brasil, não é monopólio de empresa — cabe na escola pública que reinventa a recuperação escolar, na ONG que redesenha o acesso à água, no cartório que enfim aposentou a fila. Segundo, a lei criou engrenagens para tirar o conhecimento da gaveta acadêmica: os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), que toda Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) deve manter para gerir sua política de inovação e suas patentes. Se você é da comunidade acadêmica, provavelmente há um NIT na sua instituição neste momento, esperando que alguém bata à porta com uma ideia aplicável.
Iteração 04
Quanto o Brasil inova, segundo o IBGE
Definição na mão, dá para medir. É o que faz a Pesquisa de Inovação (PINTEC) do IBGE, construída justamente sobre a gramática do Manual de Oslo. A edição mais recente — PINTEC Semestral 2024: Indicadores Básicos, divulgada em março de 2026 — mostra que 64,4% das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas implementaram inovação de produto ou de processo em 2024. Parece muito? A série vem caindo: eram 70,5% em 2021, e 2024 marcou a terceira queda consecutiva, o menor valor desde o início da série. No mesmo período, porém, o dispêndio em pesquisa e desenvolvimento cresceu 4,4%, alcançando R$ 39,9 bilhões (IBGE, 2026).
E a taxa varia — muito — conforme o setor. Veja o retrato de 2024:
Tabela 1 — Taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas, por atividades selecionadas — Brasil — 2024
| Atividade | Taxa de inovação (%) |
|---|---|
| Fabricação de produtos químicos | 84,5 |
| Fabricação de máquinas e materiais elétricos | 82,1 |
| Fabricação de móveis | 77,1 |
| Fabricação de equipamentos de informática e eletrônicos | 76,8 |
| Fabricação de produtos farmacêuticos | 76,6 |
| Fabricação de produtos do fumo | 29,8 |
| Total da indústria | 64,4 |
Fonte: elaborado pelo autor com base em IBGE (2026).Nota: taxa de inovação = percentual de empresas que implementaram inovação de produto e/ou de processo de negócios no ano de referência.
A corrida por setor, em barras
Alerta metodológico: os 64,4% que não são bem o que parecem
Quando a PINTEC saiu, manchetes anunciaram que "a taxa de inovação das empresas brasileiras chegou a 64,4%". Cuidado com o atalho: o recorte da pesquisa é a indústria — extrativa e de transformação — e apenas empresas com 100 ou mais pessoas ocupadas (IBGE, 2026). Comércio, serviços e o oceano de micro e pequenas empresas que formam a maior parte do tecido produtivo brasileiro estão fora da fotografia. O número é valioso; a generalização, não. Fica a lição de sempre: antes de citar uma estatística, pergunte qual é o denominador.
Iteração 05
E no mapa-múndi, onde estamos?
A régua internacional mais usada é o Índice Global de Inovação (IGI), publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) (WIPO, 2025). Na edição de 2025, o Brasil aparece em 52º lugar — duas posições abaixo de 2024 — e perdeu para o Chile (51º) a liderança na América Latina que sustentava desde 2021. No topo, a Suíça segue soberana pelo quinto ano consecutivo, seguida por Suécia e Estados Unidos (IT FORUM, 2025).
Tabela 2 — Posições selecionadas no Índice Global de Inovação — 2025
| Economia | Posição em 2025 | Posição em 2024 |
|---|---|---|
| Suíça | 1º | 1º |
| Suécia | 2º | 2º |
| Estados Unidos | 3º | 3º |
| Chile | 51º | — |
| Brasil | 52º | 50º |
Fonte: elaborado pelo autor com base em WIPO (2025) e IT Forum (2025).Nota: o sinal — indica posição não informada nas fontes consultadas.
Nem tudo é queda, porém. O mesmo relatório classifica o Brasil como "superdesempenho" pelo quinto ano seguido — produzimos mais inovação do que o esperado para o nosso nível de desenvolvimento — com destaque para produção de conhecimento e tecnologia e produção criativa (50º em ambos), e São Paulo figura entre os 50 principais polos de produção científica do mundo (IT FORUM, 2025). O gargalo apontado é velho conhecido desta casa: a dificuldade de conectar a academia à indústria. Traduzindo para o nosso vocabulário: somos bons de descoberta, razoáveis de invenção e devedores crônicos na última estação da linha de montagem — aquela em que a ideia vira uso.
Iteração 06
Perguntas para o seu contexto
Se inovação é o novo colocado em uso, então ela não exige laboratório: exige método. Marque abaixo o que você já consegue responder sobre o seu projeto, sua pesquisa, sua escola ou seu negócio:
Se marcou menos da metade, ótimo: agora você sabe exatamente onde sua ideia está parada na linha de montagem — e a transposição vale igualmente para a educação: um professor que redesenha a avaliação e a coloca em prática na turma seguinte está, nos termos da lei brasileira, inovando no ambiente social (BRASIL, 2004).
Lançamento
Da prateleira para a mão de alguém
Voltemos à moça do brigadeiro na porta da faculdade. Ela não leu Schumpeter, não sabe o que é o Manual de Oslo e jamais ouviu falar em taxa de inovação. Mas no dia em que colou o QR Code na caixinha de isopor, ela encerrou uma fila de troco, ganhou clientes que não andavam com dinheiro e mudou seu pequeno ambiente produtivo — exatamente como a lei descreve, exatamente como a OCDE mede, exatamente como o velho austríaco previu: uma nova combinação, colocada em uso.
É isso que separa inovação de eureca: a descoberta pergunta "o que existe?", a invenção pergunta "o que é possível?", e a inovação faz a pergunta mais difícil das três — quem vai usar? E você: o que anda tirando da gaveta?
Nota do autor: parte da imprensa noticiou a PINTEC Semestral 2024 como retrato da "taxa de inovação das empresas brasileiras"; este post adota o escopo declarado pelo IBGE — empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas — e assim o registra no texto e na Tabela 1. A série histórica citada (70,5% em 2021; 64,6% em 2023; 64,4% em 2024) segue os valores publicados pela Agência IBGE Notícias; o valor de 2022, mencionado pela fonte como parte da sequência de quedas, não foi divulgado na notícia consultada e por isso não figura na série. No Quadro 1 e no classificador interativo, os exemplos são ilustrativos e não constam das fontes normativas citadas.
Referências
- AGÊNCIA BRASIL. Pix completa cinco anos perto de movimentar R$ 30 trilhões por ano. Agência Brasil, Brasília, 16 nov. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-11/pix-completa-cinco-anos-perto-de-movimentar-r-30-trilhoes-por-ano. Acesso em: 5 ago. 2026.
- BRASIL. Lei nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004. Dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo e dá outras providências (com redação dada pela Lei nº 13.243, de 11 de janeiro de 2016). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 3 dez. 2004. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.973.htm. Acesso em: 5 ago. 2026.
- CHRISTENSEN, C. M. O dilema da inovação: quando as novas tecnologias levam empresas ao fracasso. São Paulo: M.Books, 2012.
- DRUCKER, P. F. Inovação e espírito empreendedor: prática e princípios. São Paulo: Cengage Learning, 2016.
- IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Em 2024, taxa de inovação da indústria cai pelo terceiro ano consecutivo e atinge o menor valor da série. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 19 mar. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/46120-em-2024-taxa-de-inovacao-da-industria-cai-pelo-terceiro-ano-consecutivo-e-atinge-o-menor-valor-da-serie. Acesso em: 5 ago. 2026.
- IT FORUM. Brasil cai duas posições e se classifica em 52º no Índice Global de Inovação (IGI). IT Forum, São Paulo, 18 set. 2025. Disponível em: https://itforum.com.br/noticias/brasil-ranking-inovacao/. Acesso em: 5 ago. 2026.
- OCDE; EUROSTAT. Oslo Manual 2018: guidelines for collecting, reporting and using data on innovation. 4. ed. Paris: OECD Publishing, 2018. DOI: 10.1787/9789264304604-en. Disponível em: https://doi.org/10.1787/9789264304604-en. Acesso em: 5 ago. 2026.
- SCHUMPETER, J. A. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Coleção Os Economistas).
- SCHUMPETER, J. A. Capitalismo, socialismo e democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
- WIPO — WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION. Global Innovation Index 2025. Genebra: WIPO, 2025. Disponível em: https://www.wipo.int/gii/en/. Acesso em: 5 ago. 2026.

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