O dilema ético dos bebês projetados

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Criar pessoas geneticamente modificadas já não é fantasia de ficção científica; isso já é um provável cenário futuro. O biólogo Paul Knoeple...

Criar pessoas geneticamente modificadas já não é fantasia de ficção científica; isso já é um provável cenário futuro. O biólogo Paul Knoepler estima que, daqui a 15 anos, os cientistas usarão a tecnologia de modificação de genes CRISPR para fazer algumas "atualizações" nos embriões humanos, alterando a aparência física para eliminar o risco de doenças autoimunes. Nesta palestra provocadora, Knoepfler nos prepara para a revolução dos bebês projetados que está chegando e suas consequências pessoais e imprevisíveis.

E se eu pudesse fazer para vocês um bebê projetado? E se vocês, como futuros pais, e eu, como cientista, decidíssemos seguir nesse caminho juntos? E se não o fizéssemos? Se pensássemos: "É uma péssima ideia", mas muitos de sua família, amigos e colegas de trabalho tivessem tomado essa decisão?



Vamos avançar rapidamente apenas 15 anos no futuro. Vamos imaginar que estamos em 2030, e vocês são pais. Vocês têm sua filha Marianne ao seu lado e em 2030 ela é o que chamamos de natural, porque não tem modificações genéticas. Pelo fato de você e seu parceiro terem tomado essa decisão, muitos do seu círculo social olham vocês de forma diferente. Acham que são ludistas ou têm fobia de tecnologia.

Jenna, a melhor amiga de Marianne, que mora ao lado, tem uma história diferente. Ela nasceu geneticamente modificada com uma série de melhorias. Sim, melhorias. E esses aperfeiçoamentos foram introduzidos usando uma nova tecnologia de modificação genética que tem o nome engraçado de CRISPR, Em inglês, parece com "crisp", crocante, mas isso é CRISPR. Os cientistas que os pais de Jenna contrataram para fazer isso, por muitos milhões de dólares, introduziram o CRISPR em vários embriões humanos. Eles fizeram testes genéticos e previram que aquele pequeno embrião, o embrião de Jenna, seria o melhor que poderia existir. E agora Jenna é uma pessoa real. Ela está sentada no tapete da sua sala brincando com sua filha Marianne. E suas famílias se conhecem há anos, e começa a ficar muito claro para vocês que a Jenna é extraordinária. Ela é incrivelmente inteligente. Sendo honestos, vocês diriam que ela é mais inteligente do que vocês, e ela tem apenas cinco anos. (Risos) Ela é linda, alta, atlética, e a lista de qualidades é enorme. E, de fato, há toda uma nova geração dessas crianças geneticamente modificadas. Até aqui parece que são mais sadias do que a geração de seus pais, do que a sua geração. E elas têm menos gastos com saúde. São imunes a uma série de doenças, incluindo HIV/AIDS e doenças genéticas.

Tudo isso parece maravilhoso, mas vocês não conseguem evitar um sentimento perturbador, um profundo sentimento de que há algo errado com a Jenna, e sentem o mesmo sobre outras crianças geneticamente modificadas que já viram. Vocês também leram recentemente, nos jornais, notícias que um estudo sobre essas crianças que nasceram como bebês projetados indica que elas podem ter problemas, como maior grau de narcisismo e da agressividade. Mais imediatamente em sua cabeça vêm algumas notícias que vocês tiveram da família de Jenna. Ela é tão inteligente que agora irá para uma escola especial, diferente daquela em que sua filha Marianne estuda, e isso é o tipo de coisa que causa problemas em sua família. Marianne tem chorado. Na noite passada, ao colocá-la na cama e lhe dar um beijo de boa-noite, ela disse, "Papai, a Jenna não vai ser mais minha amiga?"

Como estou contando uma história imaginária do ano 2030, certamente alguns de vocês devem estar pensando que se trata de um cenário de ficção científica, certo? Acham que estão lendo um livro de ficção científica ou que talvez seja uma coisa do tipo Halloween. Mas essa é uma realidade possível para nós daqui a 15 anos.

Sou um pesquisador de células-tronco e genética e posso ver essa nova tecnologia CRISPR e seu provável impacto. E podemos nos deparar com essa realidade e muito irá depender do que decidirmos fazer hoje. Se ainda estiverem no modo ficção científica de pensar, considerem que o mundo da ciência teve um grande choque recentemente e que o grande público nem mesmo sabe disso. Pesquisadores chineses, há apenas alguns meses, relataram a criação de embriões humanos geneticamente modificados. Essa foi a primeira vez na história. E eles fizeram isso usando essa nova tecnologia CRISPR. Não funcionou perfeitamente, mas eu ainda acho que eles meio que entreabriram a porta da caixa de Pandora nesse tema. Eu acho que algumas pessoas vão seguir com essa tecnologia e tentar fazer bebês projetados.

Antes de seguir, alguns de vocês podem levantar as mãos e dizer: "Alto lá, Paul, vamos devagar. Isso não seria ilegal? Não se pode simplesmente sair por aí criando um bebê projetado." E, em certa medida, vocês estariam certos. Em alguns países, isso não seria possível. Mas em muitos outros países, incluindo o meu, os Estados Unidos, não existem leis para isso e, assim, em teoria, isso poderia ser feito. Houve outro fato este ano com impacto nessa área, e que aconteceu não tão longe daqui, na Inglaterra. E a Inglaterra tradicionalmente, tem sido o país mais rigoroso quando se fala de modificação genética humana. Isso era ilegal lá, mas, há apenas alguns meses, eles abriram uma exceção a essa regra. Aprovaram uma nova lei permitindo a criação de humanos geneticamente modificados, com o nobre objetivo de tentar evitar um tipo raro de doença genética. Mas ainda acho que esses eventos combinados nos levam além, na direção da aceitação da modificação genética humana.

Assim, tenho falado sobre essa tecnologia CRISPR. Mas o que é de fato a CRISPR? Se pensarem sobre os OGMs com os quais estamos mais familiarizados, como tomates e trigo geneticamente modificados e coisas parecidas, a CRISP é similar às tecnologias que usamos com esses vegetais, mas é incrivelmente melhor, mais barata e rápida.

Então o que é isso? É como se fosse um canivete suíço genético. Suponhamos que isto seja um canivete suíço, com várias ferramentas embutidas, e uma das ferramentas seja como uma lupa ou um GPS para o nosso DNA, que pode localizar um certo ponto. Outra ferramenta seja como uma tesoura, que possa cortar o DNA exatamente nesse ponto. E, finalmente, uma caneta com a qual pudéssemos reescrever o código genético naquele lugar. Simples assim.

E essa tecnologia, que entrou em cena há apenas três anos, arrebatou a ciência. Essa evolução é tão rápida e tão animadora para os cientistas — e admito estar fascinado por ela e usá-la no meu laboratório —, que acho que alguém dará um passo além e continuará o trabalho de MG em embriões humanos, talvez criando bebês projetados. Isso é tão universal agora. Isso veio à tona há três anos apenas. E hoje existem milhares de laboratórios que têm isso à mão e estão fazendo pesquisas importantes. Muitos deles não estão interessados em projetar bebês. Eles estão estudando as doenças humanas e outros importantes elementos da ciência. Existem pesquisas muito boas em curso com a CRISPR. O fato de atualmente podermos fazer modificações genéticas que costumavam levar anos e custar milhões de dólares, e em poucas semanas, por uns milhares de dólares, para mim, como cientista, é fantástico, mas, de novo, ao mesmo tempo, isso abre a porta para pessoas irem longe demais. E, para algumas pessoas, o foco não será tanto a ciência. Essa não será a motivação delas. Será ideologia ou corrida por lucros. E elas chegarão aos bebês projetados.

Então, por que deveríamos nos preocupar com isso? Sabemos, a partir de Darwin, se voltarmos dois séculos, que a evolução e a genética impactaram profundamente a humanidade, quem somos hoje. Alguns pensam que existe um darwinismo social em andamento no nosso mundo, e talvez até mesmo uma eugenia. Imaginem essas tendências, essas forças, turbinando essa tecnologia CRISPR, que é tão poderosa e tão universal. De fato, podemos voltar apenas um século para ver a força que a eugenia pode ter.

Meu pai, Peter Knoepfler, nasceu aqui mesmo em Viena. Era Vienense e nasceu aqui em 1929. Quando meus avós tiveram o pequeno bebê Peter, o mundo era muito diferente, certo? Era uma Viena diferente. Os EUA eram diferentes. O mundo era diferente. A eugenia estava crescendo, e meus avós se deram conta rapidamente, creio, de que estavam do lado errado da equação da eugenia. Então, embora aqui fosse sua casa e o lar de toda a sua família, e de esta região ter sido o lar da sua família por gerações, eles decidiram, por conta da eugenia, que deveriam partir. Eles sobreviveram, mas com o coração partido, e não estou certo de que meu pai tenha superado ter deixado Viena. Ele saiu quando tinha apenas oito anos, em 1938.

Então, hoje, vejo uma nova eugenia borbulhando na superfície. Era para ser uma eugenia amável, gentil, positiva e diferente dessas coisas do passado. Mas acho que, mesmo que o objetivo seja melhorar as pessoas, poderia ter consequências negativas, e me preocupa muito que alguns dos maiores proponentes dessa nova eugenia pensem que a CRISPR seja o passaporte para fazer isso acontecer.

Assim, devo admitir, vocês sabem, quando se fala em eugenia, fala-se sobre aperfeiçoar as pessoas. É uma questão complicada. O que é melhor em termos de um ser humano? Mas admito pensar que talvez muitos de nós podemos concordar que os seres humanos talvez possam ter um pouco de melhoria. Olhem para nossos políticos, aqui, vocês sabem, nos Estados Unidos. Melhor nem falar sobre lá agora. Talvez, mesmo se nos olharmos no espelho, deve haver maneiras de achar que podemos melhorar. Eu desejaria, honestamente, ter mais cabelos aqui, ao invés de ser careca. Alguns desejariam ser mais altos, ter peso ou aparência diferentes. Se pudermos fazer essas coisas, fazer essas coisas acontecerem ou fazê-las acontecer com as nossas crianças, isso seria muito sedutor. Ainda que com isso viessem esses riscos. Eu falei sobre a eugenia, mas há riscos para os indivíduos também. Se desconsiderarmos o aprimoramento das pessoas, e tentarmos apenas torná-las mais saudáveis usando a modificação genética, com essa tecnologia tão nova e tão poderosa, poderíamos, por acidente, tornar as pessoas mais doentes. Isso poderia acontecer facilmente. E há outro risco, que é toda a pesquisa legítima e importante da modificação genética que acontece nos laboratórios, repito, sem interesse em bebês projetados, e algumas pessoas indo pelo caminho de projetar bebês, as coisas ficariam tão ruins que poderiam pôr tudo a perder.

Eu também acho que não é tão improvável que os governos possam começar a ter interesse na modificação genética. Por exemplo, nossa imaginada criança modificada geneticamente, a Jenna, que é mais saudável, se houver uma geração assim, haverá menos custo de saúde, é possível que os governos comecem a tentar estimular os cidadãos a adotarem a modificação genética. Vejam a política do filho único na China. Um pensamento que evitou o nascimento de 400 milhões de seres humanos. Então, não está além da esfera do possível que a modificação genética possa ser algo que o governo estimule. E se bebês projetados se tornarem populares, na nossa era digital, com vídeos virais, mídia social, e se os bebês projetados se tornassem uma moda, e tornassem muito famosos, novos Kardashians ou coisa assim?

(Risos)

Será que podemos realmente controlar essas tendências? Não estou convencido de que possamos.

Então, outra vez, hoje é Halloween e, quando se fala em modificação genética, existe um personagem associado ao Halloween de que falamos e sempre nos lembramos, que é o Frankenstein. Especialmente alimentos modificados e todas essas outras coisas. Mas, se pensarmos nisso agora no contexto humano, num dia como o Halloween, se os pais podem, na essência, "customizar" seus filhos geneticamente, estamos falando de algo como um Frankenstein 2.0? Não creio; não acho que será assim tão radical. Mas, se formos meio que hackear o código humano, acho que é imprevisível em termos do que pode advir disso. Ainda haverá perigos. Podemos olhar o passado, para outros elementos da ciência transformadora e ver como eles podem sair de controle e permear a sociedade.

Então lhes darei um exemplo, que é o da fertilização in vitro. Há quase 40 anos, o primeiro bebê de proveta, Louise Brown, nasceu e foi espetacular, e acho, que desde lá, 5 milhões de bebês de proveta nasceram, trazendo felicidade imensurável. Muitos pais podem agora amar seus filhos. Mas, se pensarmos nisso, em 4 décadas, 5 milhões de bebês nasceram com base em uma tecnologia nova, é realmente incrível, e o mesmo tipo de coisa poderia acontecer com a modificação genética humana e bebês projetados. Então, dependendo das decisões que tomarmos nos próximos meses, próximo ano ou coisa assim, se o primeiro bebê projetado nascer, em algumas décadas poderiam muito bem existir milhões de humanos geneticamente modificados. E há uma diferença também, porque, se nós, vocês no auditório ou eu mesmo, se decidirmos ter bebês projetados, seus filhos também serão geneticamente modificados, e assim por diante, porque é hereditário. E essa é a grande diferença.

Com tudo isso em mente, o que devemos fazer? Na verdade, haverá uma reunião em um mês a contar de amanhã, em Washington, da Academia Nacional de Ciências dos EUA para discutir essa questão específica. Qual o caminho certo a seguir com a modificação genética humana? Neste momento acredito que precisamos de tempo. Temos de acabar com isso. Não deveríamos permitir a criação de pessoas geneticamente modificadas, porque é simplesmente muito perigoso e muito imprevisível. Mas existem muitas pessoas...

(Aplausos)

Obrigado.

(Aplausos)

E admito, como cientista, que é um pouco assustador dizer isso em público, porque a ciência geralmente não gosta de autorregulação e coisas do tipo. Acredito que precisamos suspender essas pesquisas, mas existem muitos que não apenas discordam de mim, mas veem exatamente o oposto. Eles são do tipo: "Acelera, velocidade total adiante, vamos fazer bebês projetados". Então, na reunião de dezembro e em outras reuniões que provavelmente ocorrerão nos próximos meses, é muito possível que não haverá adiamento. Acho que parte do problema é que toda essa tendência, essa revolução da modificação genética aplicada aos seres humanos é desconhecida pelo público. Ninguém está dizendo: "Vejam, é importante, é revolucionário, e isso pode nos afetar diretamente". E parte do meu objetivo é de fato mudar isso, e educar e engajar o público e fazer vocês falarem sobre isso. E espero que haja nessas reuniões lugar para o público, para trazer também sua voz.

Se visualizarmos agora 2030, aquela história imaginária, dependendo das decisões que tomarmos, repito, hoje, literalmente não temos muito tempo, nos próximos meses, no próximo ano ou quase, porque essa tecnologia está se espalhando rapidamente. Vamos imaginar que voltamos àquela realidade. Estamos num parque, e nosso filho está brincando no balanço. Nosso filho é um garoto natural ou decidimos ter um filho projetado? Digamos que tenhamos seguido o caminho tradicional e temos nosso filho no balanço, e, francamente, ele está longe de se perfeito. O cabelo não para penteado, como o meu. O nariz está entupido. Não é o melhor aluno do mundo. É adorável, vocês o amam, mas, no balanço ao lado, o melhor amigo dele é um garoto modificado geneticamente, e os dois estão balançando juntos, e é impossível não compará-los, certo? E o garoto modificado balança mais alto, tem melhor aparência, é melhor aluno, não está com o nariz sujo que precisa ser assoado. Como vocês se sentem com relação a isso? E que decisão tomarão da próxima vez?

Obrigado.

(Aplausos)

Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

COMMENTS

BLOGGER: 2
  1. Giovanna brito jardim ferreira28 de maio de 2018 14:08

    Em vez de fazer com tecnologia nao procuram uma coisa meio natural pegando orgaos de uns animais assexuados para colocarem na pessoa e a genetica dele ou dela podiam aplicar no parceiro ou na parceira pra nascer assexuadamente um filho nao ia ser legal ?

    ResponderExcluir
  2. Giovanna brito jardim ferreira28 de maio de 2018 14:14

    Eu acho tambem que pra aquele que querem ter filhos atravez de primos teria um jeito de terem filhos assexuada pessem nisso cientistas .

    ResponderExcluir
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Brasil Acadêmico: O dilema ético dos bebês projetados
O dilema ético dos bebês projetados
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Brasil Acadêmico
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