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Amos Oz: escritor israelense é entrevistado pelo Roda Viva

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O escritor israelense Amos Oz participa do programa de entrevista Roda Viva e fala sobre sua infância, seu título de pacifista e sobre os co...

O escritor israelense Amos Oz participa do programa de entrevista Roda Viva e fala sobre sua infância, seu título de pacifista e sobre os conflitos no oriente médio.


Amos Klausner nasceu em Jerusalém, em 4 de Maio de 1939. Os seus pais fugiram em 1917 de Odessa para Vilnius e daí para a Palestina em 1933. Após a morte de sua mãe, em 1954, e devido a um conflito com seu pai, Oz entrou para o Kibbutz Hulda e adotou sobrenome Oz (coragem, em hebraico).


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Os kibutzim (plural de kibbutz) inicialmente eram cooperativas agrícolas israelenses de inspiração socialista que tiveram papel fundamental na formação do Estado de Israel. Apesar não serem compostos por mais do que 7% da população eles podem ter contribuído, como poucas instituições em Israel, para cunhar a identidade cultural do país. Eles forneceram a Israel uma parte desproporcionalmente importante dos seus líderes intelectuais, políticos e militares. E Amos é certamente um dos seus mais célebres frutos.

Durante o seu estudo de Literatura e Filosofia na Universidade Hebraica de Jerusalém entre 1960 e 1963 publicou seus primeiros contos curtos. Oz participou na Guerra dos Seis Dias em 1967 e fundou nos anos 1970, juntamente com outros, o movimento pacifista israelita Schalom Achschaw (Peace Now, ou Paz Agora). Uma ONG pacifista de esquerda, sediada em Israel, que tem por finalidade influenciar a opinião pública e convencer o governo israelense da necessidade e possibilidade de uma paz justa e uma conciliação histórica com o povo palestino e com os países árabes vizinhos, em troca de um assentamento territorial basedo na fórmula "terra por paz".

Em 1973 voltou a pegar em armas na Guerra do Yom-Kippur

Em destaque: Guerras onde o escritor combateu.
Guerras de Israel
1947-49
1956
1967
1969-70
1973
1982
2006

É o escritor mais influente de seu país. Poucos autores escrevem com tanta compaixão e clareza sobre as agruras presentes e passadas de Israel. Em romances como Meu Michel (2002), Conhecer uma mulher (1992) ou Pantera no porão (1999) explora a persistência do amor durante a guerra.

O Monte do mau conselho é um deles. Foi publicado pela primeira vez em 1973. Mas só agora chega às livrarias brasileiras.

Em 1991 foi eleito membro da Academia de Letras Hebraicas;

Em 1992, recebeu o Prêmio de Frankfurt pela Paz, e ganhou o Prémio Israel de Literatura, o mais prestigioso do país.

Em 1998 (50º ano da Independência de Israel), recebeu o Prêmio Femina em França e foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura em 2002. Em 2004 recebeu o Prêmio Internacional Catalunya, junto com o pacifista palestino Sari Nusseibeh, e também Prêmio de Literatura do jornal alemão Die Welt, por "Uma História de Amor e Escuridão". Publicou cerca de duas dezenas de livros em hebraico, e mais de 450 artigos e ensaios em revistas e jornais de Israel e internacionais (muitos dos quais para o jornal do Partido Trabalhista "Davar" e, desde o encerramento deste na década de 1990, para o "Yediot Achronot").

Tem livros e artigos seus traduzidos por todo o mundo e quase toda a sua obra se encontra traduzida em português.

Em 2005, recebeu o prêmio Goethe, como escritor.

Em 2007 recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias de letras.

Para Amos Oz, a literatura é um eficiente antídoto contra o fanatismo.

Mario Sergio Conti: Amos Oz, boa noite. Uma pesquisa recente diz que 61% dos israelenses são a favor que o país, Israel, ataque o Irã. Você é a favor de atacar o Irã?

Amos Oz: Não. Acho que seria um erro se Israel atacasse o Irã pela simples razão de que não se pode bombardear o know-how; e os iranianos têm o know-how. Se forem atacados pelos EUA ou por Israel eles irão cavar ainda mais fundo e construir as mesmas instalações novamente. Eles têm o know-how, não há sentido bombardeá-los. Ao invés de bombardear os iranianos é importante ajudar o povo do Irã a se livrar dessa terrível ditadura dos Aiatolás.

(...)

Paulo Werneck: O Sr. falou que é contra o ataque de Israel ao Irã. No entanto, em entrevista, ao explicar o seu tipo de pacifismo, o senhor lembra a declaração de uma tia sua... de uma parente sua... que dizia:

Veja bem, nós não fomos libertados do campo de concentração por pacifistas à moda europeia e sim por americanos armados até os dentes.

Como é que o senhor define então a sua ação pacifista que inclui esse tipo de ação belicosa?

Amos Oz: Eu desenho uma linha entre pacifismo e peacenik. Eu sou um peacenik e não um pacifista. E eu lhe digo a diferença em poucas palavras:

Um pacifista acredita que a guerra é o pior dos males e que deve ser evitada a todo custo. Um peacenikm, como eu, sustenta que o pior dos males é a agressão. E, por vezes, a agressão tem que ser reprimida pela força.

Estive nos campos de batalha duas vezes em minha vida, em 1967 e 1973, ocasiões em que os países árabes tentaram destruir Israel completamente. Se esse cenário se repetir eu vou lutar novamente.

Mas me recusarei a lutar por lugares sagrados, ou por assentamentos, ou por recursos naturais, ou por mais território. Luto apenas pela vida e pela liberdade. Nada mais.

Sobre quando prevê que haverá paz entre Israel e palestinos. Amos diz haver uma palavra mágica para isso: Concessão.

Concessões que resultarão em uma solução de dois Estados, o Estado palestino ao lado do Estado de Israel, e em paz com o Estado de Israel. Isso é possível e acontecerá um dia.

Sobre a integração do Estado da palestina pela Unesco, combatida pelos EUA e Israel, Amos deu a sua opinião:

Vou dizer algo que o governo de israelense não vai gostar. Israel seria sensato em ser o primeiro país do mundo a reconhecer o Estado da Palestina; e por razões históricas.

E, então, vamos discordar dos palestinos e negociar fronteiras e locais sagrados, e assentamentos, e segurança, e todas as questões. Mas esse será um debate entre dois Estados soberanos.

(...)Se o governo de Israel ouvisse meu conselho, eu lhe diria que reconhecesse a palestina no momento que ela desejar declarar independência.

Sobre a imagem de Israel, deu a seguinte declaração:

Há uma enorme diferença entre a Israel da mídia e a da realidade. Na Israel da mídia você vê 80% de fanáticos e zelotes, fanáticos religiosos e colônios fanáticos na Cisjordânia. 19% de soldados sem coração nos bloqueios das estradas, e 1% de intelectuais maravilhosos como eu que criticam o governo e clamam por paz. Isso é totalmente falso.

Na verdade, Israel é um país de 8 milhões de cidadão, 8 milhões de primeiros-ministros, 8 milhões de profetas e messias. Cada israelense tem sua fórmula pessoal de redenção.

Amos escreveu bastante sobre o fanatismo e sobre o ceticismo. Sobre o fanatismo:

O fanático é alguém que não consegue mudar de opinião e também não muda de assunto.
Frase retirada do livro "Sobre o fanatismo". Destacada por Noemi Jaffe. Professora de literatura da PUC/SP

O fanático é um ponto de exclamação ambulante. Ele tem todas as respostas e não está interessado nas perguntas.
Amos Oz

Eu creio que o senso de humor é o melhor antídoto contra o fanatismo.

Nunca vi um fanático com senso de humor e nunca vi alguém com senso de humor se tornar fanático.

Sobre escrever em hebraico:

O hebraico é um instrumento musical.

Não sou chauvinista quanto a meu país, mas sou com meu idioma.

Sobre a (não) tradução de seus livros para o idioma árabe:

Amos Oz: Três dos meus livros foram traduzidos para o árabe. Muito recentemente "Uma história de amor e trevas" surgiu no Líbano, por meio de um editor libanês muito corajoso, cuja vida foi ameaçada pelo Hesbollah, que teve a coragem de editar "Uma história de amor e trevas" e distribuir por todo mundo árabe.

E há uma história interessante sobre a versão em árabe, cerca de 7 anos atrás, um jovem estudante em Jerusalém, um estudante árabe palestino, estava praticando jogging e levou um tiro na cabeça de palestinos que acharam que ele fosse judeu. Sua família resolveu custear a tradução de "Uma história de amor e trevas" em árabe, para celebrar o filho amado, morto por fanáticos, e para melhorar o entendimento entre judeus e árabes. Uma história muito comovente.

Felizmente para haver paz, não temos que concordar sobre o passado. Mas de concordar sobre o presente e o futuro. Principalmente o futuro.

Sobre sua literatura:

Eu escrevo sobre essa normalidade em meio à anormalidade, sobre pessoas comuns e seu dia-a-dia em situações catastróficas.

Quando o poeta e filósofo Adorno disse que depois de Auschwitz não haveria mais poesia, ele sugeria que déssemos a vitória aos nazistas. Eu não quero dar a vitória a eles; quero que a poesia prevaleça, depois de Auschwitz, quero que a poesia floresça, em tempos cataclísmicos.

Escrevo para que cada parágrafo seja doloroso e engraçado. A comédia trágica é a minha maneira de lidar com os horrores da vida.

Eu não escrevo sobre os caras bons e os caras maus. Escrevo sobre o conflito (trágico) entre o certo e o certo. (...) Aliás, considero o conflito palestino-israelense um conflito entre o certo e o certo.

Quando eles [os personagens] deixam de responder como marionetes, e resistem a mim, eu sei que existe vida naquele trabalho. Quando a coisa é muito fácil, eu sei que alguma coisa está errada.

Amos Oz:Permita-me concluir com uma história. Há uma história sobre um rabino que, revestido em sua capacidade de ser um juiz, tem de decidir entre duas reinvindicações sobre a mesma cabra. Ele houve a todos e, em seguida, diz: "Ambos estão certos."
Ao chegar em casa a esposa lhe pergunta: "Querido marido, como podem ambos estarem certos se reinvindicam a mesma cabra?"
E ele diz: "Sabe de uma coisa? Você também está certa."
Eu sou esse rabino. Quando eu escrevo um livro eu sou esse rabino. Todos tem razão.

Sobre o medo da morte:

O medo da morte deixa você e eu e todos nós muito alertas. Na presença da morte você está muito alerta. E não apático.

Sobre a esquerda:

É muito difícil ser esquerda em tempos de conflito. Em tempos de conflito as pessoas estão, acima de tudo, com muita raiva. E pessoas descontentes votam na direita.

Amos Oz: Isso é verdade não só em um conflito internacional, mas também familiar. Quando há uma briga entre marido e mulher, ou entre pai e filho, todos estão bravos. Quando todos estão com raiva ninguém faz concessões.

Sobre a "Primavera Árabe":

Mario Sergio Conti: Amos, nos últimos tempos teve o fenômeno do movimento da "Primavera Árabe". Tunísia, caiu a ditadura. Egito, caiu a ditadura. Síria, grande revolta. Em todo o Oriente Médio há essa movimentação contra os governos que vêm oprimindo a região há tempos. Isso prejudica/ajuda a sua causa? A causa de dois Estados em Israel, um palestino e um israelense?

Amos Oz: Pode ajudar, é muito cedo para se afirmar, pois não tenho certeza de que estamos testemunhando uma primavera árabe.

As pessoas usam o termo "Primavera Árabe" porque acham que a história irá se repetir e, assim como o colapso do império soviético, e com todos os Estados satélites se voltando para a democracia, a mesma coisa está destinada a acontecer no mundo árabe - não necessariamente.

Acho que em alguns países árabes o que vemos não é uma primavera árabe, mas um inverno islâmico.

Nunca acreditei no capitalismo darwinista. Sempre fui um social-democrata e sempre acreditei em um estado social - uma terceira via entre capitalismo e comunismo.

Penso que depois do colapso da URSS o capitalismo darwinista prevaleceu em muitos países. E hoje há uma crise no capitalismo darwinista e pode ser que uma terceira via tenha chance em alguns países.

Talvez tenhamos alguma possibilidade em Israel. Nós tivemos enormes protestos em Israel com meio milhão de pessoas marchando em protesto pelas ruas de Tel Aviv.

Meio milhão em Tel Aviv seria como 10 milhões em São Paulo, uma enorme multidão. E no entanto não houve violência. Nem uma janela sequer foi quebrada.

(...) Porque o slogan não era "Abaixo o governo" ou "Abaixo os ricos", o slogan era "Vamos renovar a solidariedade". Vamos renovar a solidariedade social.

Portanto, eu tenho esperança.

Sobre os leitores:

Acredito no leitor que se pergunta: "Que parte do livro é relevante para minha vida?"

Onde eu estou no livro?

Não onde o autor está por trás do livro. "Onde eu estou por trás do livro?" Não, "com quantas mulheres o autor fez amor?", mas, "o que essa cena de amor evoca em mim?"

Sobre os críticos:

Críticos são leitores com canetas.

Sobre prêmios:

(Mas) há algo interessante sobre prêmios literários. Você recebe prêmio por algo que você faria de qualquer forma. (...)É como se me dessem prêmios por respirar.

E ainda que em vez de prêmios houvesse penalidades, e eu tivesse que pagar por elas. Ainda assim continuaria escrevendo. Mas não diga isso aos ganhadores do prêmio Nobel.

Sobre a paz:

A minha utopia posso lhe dizer em uma palavra: Paz.

Sobre Israel:

Israel nasceu de um sonho. Tudo que nasce de um sonho está fadado a um certo desapontamento. Tudo. A única maneira de manter um sonho perfeito e cor-de-rosa é nunca concretizá-lo.

(...) E Israel tem um sabor de desapontamento porque nasceu de um sonho. O desapontamento não está na natureza de Israel, mas na natureza dos sonhos.

Sobre o kibutz:

O kibutz está tendo um ressurgimento muito interessante hoje em Israel. Ele mudou, foi reformado, é menos rígido e formalista do que costumava ser; mas é hoje, mais uma vez, atraente para muitos jovens israelenses que querem outro caminho.

Onde quer que eu olhe em Israel, e provavelmente no Brasil, vejo pessoas trabalhando demais para ganhar mais dinheiro do que realmente precisam, para comprar coisas que não precisam, para impressionar pessoas que eles nem ao menos gostam.

Pessoas que estão cheias disso tudo estão procurando uma alternativa. E Israel, inicialmente, fornecia uma alternativa. E então essa alternativa foi desaparecendo, Israel se tornou muito capitalista. Um Estado muito "normal". Muito ocidental.

Não se pode ser adolescente duas vezes. (...) Podemos selecionar do passado alguns pontos importantes e instaurá-los novamente; mas não reviver o passado.

Sobre os palestinos:

Se eu fosse um palestino eu buscaria um acordo razoável com os israelenses, com base em dois Estados, Israel ao lado da Palestina, simplesmente porque não há outra alternativa senão a de dois Estados.

Sobre esquecer:

Amos Oz: Há uma história sobre um turista que pergunta a um judeu israelense:
- Por que você veio para este país?
E o judeu israelense diz:
- Viemos para cá para esquecer.
E o turista diz:
- Para esquecer o quê?
E o judeu responde:
- Eu esqueci.
O primeiro esqucimento é saudável e desejável. O segundo não.

Sobre Jorge Amado:

Amos Oz: - Devo admitir que ele me atraiu mais quando eu era jovem do que me atrai hoje.

Sobre a política dos EUA para com Israel:

Amos Oz: O que os EUA podem fazer, e não só os EUA, mas o Brasil também, e todos os países. É dar a ambos os lados tanta empatia e apoio quanto for possível. Pois a divisão e a criação dos dois Estados será dolorosa para israelenses e palestinos.

(...) Vocês no Brasil, por exemplo. E Obama nos EUA.
Não devem se perguntar:
"Eu sou a favor da Palestina ou de Israel?"


[Via BBA]

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