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Para resolver velhos problemas, estude novas espécies

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A natureza é abundantemente maravilhosa, diversa e misteriosa. No entanto, a pesquisa biológica atual tende a focar apenas sete espécies, qu...

A natureza é abundantemente maravilhosa, diversa e misteriosa. No entanto, a pesquisa biológica atual tende a focar apenas sete espécies, que incluem ratos, galinhas, moscas-da-fruta e nós mesmos. Estamos estudando uma fatia incrivelmente pequena da vida, afirma o biólogo Alejandro Sánchez Alvarado, e esperando que seja o suficiente para resolver os problemas mais antigos e desafiadores da ciência, como o câncer. Numa palestra de visual atraente, Alvarado nos convida a explorar o desconhecido e nos mostra incríveis descobertas que surgem ao fazermos isso.


Nos últimos anos, tenho passado o verão no laboratório de biologia marinha de Woods Hole, Massachusetts. E, lá, basicamente o que faço é alugar um barco. Então, hoje gostaria de convidá-los a virem num passeio de barco comigo.



Vamos de Eel Pond a Vineyard Sound, bem na costa de Martha's Vineyard, equipados com um drone para identificar potenciais lugares de onde observar o Atlântico. Eu ia dizer as profundezas do Atlântico, mas não temos de ir tão fundo para alcançar o desconhecido. Aqui, a apenas 3,5 km de distância do que é seguramente o maior laboratório de biologia marinha do mundo, jogamos na água uma simples rede de plâncton e trazemos à superfície coisas nas quais a humanidade raramente presta qualquer atenção, e muitas vezes nunca viu antes.

Eis um dos organismos que capturamos com nossa rede. Esta é uma água-viva. Mas olhem mais de perto: vivendo dentro deste animal há um outro organismo, provavelmente inteiramente desconhecido da ciência, uma espécie totalmente nova. E o que dizer desta belezinha transparente, com um coração pulsando, desenvolvendo, de forma assexuada, no topo da cabeça uma prole que vai se reproduzir sexualmente. Vou tornar a repetir: este animal está desenvolvendo assexuadamente no topo de sua cabeça uma prole que vai se reproduzir sexualmente na próxima geração. Uma água-viva estranha? Na verdade, não. Esta é da classe das ascídias. É um grupo de animais com quem, sabemos agora, compartilhamos uma enorme ancestralidade genômica, e talvez seja a espécie invertebrada mais próxima da nossa. Conheçam sua prima: “Thalia democratica”.

(Risos)

Tenho certeza de que, na última festa de família, ninguém guardou um lugarzinho para a Thalia, mas, deixem-me dizer uma coisa, esses animais estão profundamente ligados a nós de formas que estamos apenas começando a entender. Assim, na próxima vez que alguém, de forma irônica, disser a vocês que esse tipo de pesquisa é uma “simples expedição de pesca”, espero que lembrem a essa pessoa a viagem que acabamos de fazer.

Hoje, muitas das ciências biológicas veem valor apenas em estudar mais a fundo o que já sabemos, em mapear continentes já descobertos. Mas alguns de nós estamos muito mais interessados no desconhecido. Queremos descobrir continentes completamente desconhecidos e contemplar esplêndidos horizontes ainda ignorados. Adoramos a experiência de ficar completamente perplexos por algo que nunca vimos antes. E, sim, concordo, o ego é massageado quando somos capazes de dizer: “Ei, fui o primeiro a descobrir isso”. Mas essa não é uma empreitada para ficarmos nos gabando, pois, nesse tipo de pesquisa, quando não nos sentimos um completo idiota a maior parte do tempo, significa que não estamos pesquisando o suficiente.

(Risos)

Assim, todo verão, trago para o convés do nosso barquinho cada vez mais coisas sobre as quais sabemos muito pouco. Assim, esta noite gostaria de lhes contar uma história sobre a vida que raramente é contada num ambiente como este. Do ponto de vista estratégico dos laboratórios do século 21, começamos a esclarecer muitos mistérios da vida. Sentimos que, após séculos de pesquisa científica, estamos começando a fazer incursões importantes para entender alguns dos princípios mais fundamentais da vida.

Nosso otimismo coletivo se reflete no crescimento da biotecnologia no mundo, que se empenha em usar o conhecimento científico para curar doenças humanas. Coisas como câncer, envelhecimento, doenças degenerativas, para citar apenas algumas das coisas indesejáveis que desejamos controlar. Sempre me pergunto: por que temos tanta dificuldade para resolver o problema do câncer? Será que estamos tentando resolver o problema do câncer sem tentar entender a vida?

A vida neste planeta compartilha uma origem comum e posso resumir 3,5 bilhões de anos de história deste planeta numa única imagem. O que veem aqui são representantes de todas espécies conhecidas na Terra. Nessa imensidão de vida e biodiversidade, ocupamos uma posição bem irrelevante.

(Risos)

“Homo sapiens”: o último do tipo. E, apesar de não querermos de forma alguma menosprezar as conquistas da nossa espécie, e não importa o quanto desejamos e finjamos que seja assim, não somos a medida de todas as coisas. Somos, no entanto, a medida de muitas. Nós medimos, analisamos e comparamos incessantemente, e muito disso é completamente incalculável e necessário.

Mas essa ênfase hoje em forçar a pesquisa biológica a se especializar e produzir resultados práticos está, na verdade, restringindo nossa habilidade de pesquisar a vida a confins inaceitavelmente estreitos e profundidades insatisfatórias. Estamos medindo uma fração tremendamente estreita de vida e esperando que esses números salvem nossas vidas. Quão pouco pesquisamos? Deixem-me lhes dar um número. The National Oceanic and Atmospheric Administration recentemente calculou que cerca de 95% dos nossos oceanos continuam inexplorados. Pensem um pouco sobre isso. É... 95% dos nossos oceanos continuam inexplorados. Pode-se afirmar com segurança que não sabemos nem mesmo quanto desconhecemos sobre a vida.

Por isso, não é nenhuma surpresa que toda semana na minha área começamos a ver a inclusão de cada vez mais espécies nessa incrível árvore da vida. Este aqui é um exemplo, descoberto no verão passado, novo para a ciência, e agora ocupando seu galho solitário na nossa árvore da vida. O mais trágico ainda é que conhecemos muitas outras espécies de animais por aí, mas sua biologia continua seriamente subestudada.

Tenho certeza de que alguns aqui já ouviram falar que a estrela-do-mar consegue regenerar o braço depois de perdê-lo. Mas alguns talvez não saibam que o próprio braço consegue regenerar uma estrela-do-mar inteira. E há animais por aí que fazem coisas realmente impressionantes. Estou quase apostando que muitos aqui nunca ouviram falar da planária, a “Schmidtea mediterranea”. Este carinha aqui faz coisas simplesmente impressionantes. Podemos pegar um desses animais e cortá-lo em 18 fragmentos, e cada um desses fragmentos vai conseguir regenerar um animal completo em menos de duas semanas. Isso mesmo: 18 cabeças, 18 corpos, 18 mistérios. Na última década e meia, ou quase, tenho tentado descobrir como essas criaturinhas conseguem fazer isso, e como fazem esse truque de mágica. Mas, como todo bom mágico, elas não me contam seus segredos facilmente.

(Risos)

Então, aqui estamos nós, depois de praticamente 20 anos estudando esses animais, mapeamento genômico, quebrando a cabeça, e milhares de amputações e milhares de regenerações, e ainda não entendemos completamente como esses animais fazem o que fazem. Cada planária é em si mesma um oceano desconhecido.

Uma das características comuns de todos esses animais sobre os quais tenho falado é que eles não parecem ter recebido o memorando de que precisavam se comportar de acordo com as regras que deram origem a um punhado de animais selecionados aleatoriamente, que atualmente habitam a vasta maioria dos laboratórios biomédicos pelo mundo. Conheçam nossos ganhadores do Prêmio Nobel. Sete espécies, praticamente, que produziram para nós o grosso do nosso entendimento do comportamento biológico hoje. Este carinha aqui: 3 Prêmios Nobel em 12 anos. E, apesar disso, depois de toda atenção que receberam, e todo o conhecimento que geraram, assim como a maior fatia do financiamento, aqui estamos enfrentando a mesma ladainha de problemas insolúveis e muitos desafios novos. E isso porque, infelizmente, esses sete animais basicamente correspondem a 0,0009% de todas as espécies que habitam o planeta.

Assim, estou começando a desconfiar que nossa especialização está, na melhor das hipóteses, impedindo nosso progresso e, na pior, nos desviando do caminho. Isso porque a vida neste planeta e sua história é a história de rebeldes. A vida começou na face deste planeta como organismos unicelulares, nadando por milhões de anos no oceano, até que uma dessas criaturas resolveu: “Hoje vou fazer as coisas diferente. Hoje quero inventar algo chamado multicelularidade, e vou fazer isso”. E tenho certeza de que não foi uma decisão popular na época,

mas, de alguma forma, ela deu seu jeito.

(Risos)

E então organismos multicelulares começaram a povoar todos esses oceanos ancestrais, e prosperaram. E estão aqui hoje. Massas de terra começaram a emergir da superfície dos oceanos, e outra criatura pensou: “Ei, olha só que imóvel ótimo. Eu adoraria morar lá”. "Você ficou louca? Você vai desidratar lá. Nada consegue sobreviver fora d'água." Mas a vida achou um jeito, e há organismos agora que vivem na terra. Uma vez em terra firme, devem ter olhado para o céu

e dito: “Seria ótimo ir até as nuvens; vou voar”. “Você não pode enfrentar a lei da gravidade, não tem como voar.” E, no entanto, a natureza inventou, em ocasiões diferentes e independentes, maneiras de voar.

Amo estudar esses animais que quebram as regras, pois, toda vez que quebram uma regra, eles inventam algo novo que nos possibilita estarmos aqui hoje. Esses animais não receberam o memorando. Eles desobedeceram às regras. Assim, se vamos estudar animais que não seguem as regras, não deveríamos quebrar as regras na maneira de estudá-los?

Acho que precisamos renovar nosso espírito de exploração. Em vez de trazer a natureza para nossos laboratórios, e extrairmos seus dados lá, precisamos levar nossa ciência ao laboratório majestoso que é a natureza, e lá, com nosso moderno arsenal tecnológico, interrogar toda nova forma de vida que encontrarmos, e qualquer novo atributo biológico que possamos descobrir. Na verdade, precisamos deixar toda nossa inteligência burra novamente, ignorante diante da imensidão do desconhecido. Porque, afinal de contas, a ciência, na realidade, não é sobre conhecimento. A ciência tem a ver com ignorância. É isso o que fazemos.

Antoine de Saint-Exupéry uma vez escreveu: “Se você quiser construir um navio, não reúna pessoas para pegar madeira, nem distribua tarefas ou trabalho, mas, em vez disso, ensine a elas a desejar a imensidão infinita do mar...”. Como cientista e professor, quero parafrasear isso para dizer que nós, cientistas, precisamos ensinar nossos alunos a desejar a imensidão infinita do mar que é a nossa ignorância. Nós, Homo sapiens, somos a única espécie que sabemos ser movida pela investigação científica. Nós, como todas as demais espécies do planeta, estamos intimamente ligados à história da vida neste planeta. E acho que estou meio que errado quando digo que a vida é um mistério, pois acho que a vida é, na verdade um segredo aberto que tem convidado nossa espécie por milênios a entendê-la.

Então, pergunto a vocês: “Não somos a melhor chance que a vida tem de conhecer a si mesma?” E, se é assim, o que é que estamos esperando? Obrigado.

(Aplausos)

Fonte:
[Visto no Brasil Acadêmico]

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Brasil Acadêmico: Para resolver velhos problemas, estude novas espécies
Para resolver velhos problemas, estude novas espécies
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