Qual será a aparência dos humanos em 100 anos?

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Podemos desenvolver bactérias, plantas e animais — o futurista Juan Enriquez pergunta: é ético aprimorar o corpo humano?

Podemos desenvolver bactérias, plantas e animais — o futurista Juan Enriquez pergunta: é ético aprimorar o corpo humano?

Numa conversa visionária que vai das próteses medievais aos dias da neuroengenharia atuais e ciência do DNA artificial, Enriquez classifica a ética associada à evolução humana e imagina as maneiras que teremos para transformar nossos próprios corpos se tivermos esperança de explorar e viver em outros lugares que não na Terra.



Eis uma pergunta importante.

É ético aprimorar o corpo humano?

É que estamos começando a ter todas as ferramentas para aprimorá-lo. Podemos desenvolver bactérias, plantas e animais e estamos atingindo o ponto em que devemos nos perguntar: é realmente ético e queremos aprimorar os seres humanos? Enquanto pensamos nessa questão, vou falar disso no contexto das próteses, do passado, do presente e do futuro delas.


Esta é uma mão de ferro que pertenceu a algum conde alemão. Ele adorava lutar e perdeu seu braço numa dessas batalhas. Sem problemas, ele apenas fez uma armadura, a colocou, uma prótese perfeita.

Daí vem o conceito “governar com punho de ferro”.

Claro, essas próteses vêm sendo cada vez mais úteis e modernas. Com elas, é possível segurar ovos levemente cozidos e ter todo tipo de controle, e enquanto pensamos nisso, há pessoas maravilhosas como Hugh Herr, que tem construído próteses absolutamente extraordinárias. O fantástico Aimee Mullins irá perguntar: "Que altura quero ter essa noite?" Ou mesmo: "Que tipo de montanha eu quero escalar?" Ou se alguém quer correr uma maratona, ou quer uma dança de salão? E ao adaptarmos as próteses, é interessante observar que elas estão indo para dentro do corpo. As próteses externas agora se tornaram joelhos e quadris artificiais. Elas também evoluíram ainda mais, se tornaram não apenas úteis, mas essenciais de se ter.


Quando falamos sobre marca-passos como próteses, falamos de algo que não é apenas: "Sinto falta da minha perna", é algo como: "Se não tiver isso, eu posso morrer". E nesse sentido, uma prótese se torna uma relação simbiótica com o corpo humano. Quatro das pessoas mais inteligentes que já conheci: Ed Boyden, Hugh Herr, Joe Jacobson, Bob Lander, estão trabalhando no Center for Extreme Bionics. E o interessante é que as próteses agora estão integradas aos ossos, à pele e aos músculos. E um dos outros lados do Ed é que ele tem pensado em como conectar o cérebro usando a luz ou outros mecanismos, diretamente a essas próteses. Se isso for possível, então é possível mudar aspectos fundamentais da humanidade. A rapidez com que se reage a algo depende do diâmetro de um nervo. E claro, se você tem nervos que são externos ou próteses, digamos, que com luz ou metal líquido, é possível aumentar seu diâmentro ou até mesmo aumentá-lo, teoricamente, ao ponto em que enquanto você vê o disparo de uma arma, poderia desviar do projétil. Essas são as ordens de grandeza das mudanças das quais falamos.



Este é o quarto nível de próteses. São os aparelhos auditivos Phonak, e eles são muito interessantes porque transcendem o limite das próteses como algo para alguém que é "deficiente" e elas se tornam algo para alguém que é "normal" possa, de fato, querer tê-las.

O interessante nessas próteses é que não apenas ajudam a ouvir, mas você pode focar a audição, e ouvir uma conversa vinda de qualquer lugar. Pode ter superaudição ou ouvir em 360 graus e ter o ruído branco, pode gravar e, a propósito, podem até colocar um telefone nisso. 

Assim, ela tem as funções de audição e também de um telefone. E a partir daí, alguém pode de fato querer ter próteses, voluntariamente.

Essas milhares de pequenas partes conectadas estão se juntando e é questão de tempo perguntarmos: como queremos desenvolver os seres humanos em um ou dois séculos? Para isso, vamos para um grande filósofo que era muito inteligente, apesar de ser fã dos Yankees.

(Risos)

E Yogi Berra costumava dizer, claro, que é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro.

(Risos)



Então, ao invés de fazer previsões sobre como o futuro será, vamos ver o que está acontecendo agora com pessoas como Tony Atala, que está redesenhando uns 30 órgãos inusitados.

Talvez a prótese mais atual não seja algo externo, como titânio. Talvez seja uma prótese com o seu código genético, que refaça suas próprias partes do corpo, porque isso é muito mais efetivo do que qualquer tipo de prótese. 

Enquanto falamos disso, podemos ver o trabalho de Craig Venter e Ham Smith: estamos tentando descobrir como reprogramar as células. Se for possível reprogramar uma célula, é possível mudar as células desses órgãos. Se pudermos mudar as células desses órgãos, talvez possamos fazê-los mais resistentes à radiação e eles absorvam mais oxigênio, tornando-os mais eficientes para filtrar impurezas que não se queira no corpo. E nas últimas semanas, George Church tem estado em evidência, porque está falando sobre pegar uma dessas células programáveis e inserir todo um genoma humano nessa célula. E uma vez que seja possível inserir todo um genoma humano numa célula, então se começa a questionar: "Queremos aprimorar algo nesse genoma?" "Queremos aprimorar o corpo humano?" "Como nós o aprimoraríamos?" Até onde é ético aprimorar o corpo humano e até onde não é ético aprimorar o corpo humano? E de repente, tudo que temos feito é chegar neste tabuleiro de xadrez, no qual podemos mudar a genética humana usando vírus para atacar doenças como a AIDS, ou mudar o código genético através de terapia de gene para eliminar algumas doenças hereditárias, ou podemos mudar o ambiente, e mudar a expressão desses genes no epigenoma humano e passar isso para as próximas gerações. E de repente, não é apenas um pedaço, são todos esses pequenos pedaços que nos permitem ter pequenas porções disso, até que todas as partes se juntem nos levando a algo que é muito diferente.

E muitas pessoas têm medo desse tipo de coisa. Parece assustador e há riscos envolvidos nisso. Então por que afinal iríamos querer fazer isso? Por que iríamos querer alterar o corpo humano de forma significativa?

A resposta repousa em parte com Lord Rees, astrônomo real da Grã Bretanha. E uma das suas falas favoritas é que o universo é 100% mau. E o que isso significa? Se pegarmos qualquer um dos seus corpos, de forma aleatória, e jogarmos em qualquer lugar do universo: jogue-o no espaço, você morre, jogue-o no Sol ou em Mercúrio e você morre, ou próximo de uma Supernova, você morre. Mas felizmente, isso é apenas 80% efetivo.



Então como já disse um famoso físico, existem pequenos caminhos da biologia que criam ordem numa corrente de entropia. Enquanto o universo dissipa energia, existem turbilhões de correntes contrárias que criam a ordem biológica. O problema com essas correntes é que elas tendem a desaparecer. Elas mudam, se movem nos rios. Por isso, quando uma corrente muda, quando a Terra se transforma numa bola de neve, fica muito quente, ou é atingida por um asteroide, ou temos supervulcões, quando há dilatações solares, quando temos potencialmente eventos de nível de extinção, como a próxima eleição...

(Risos)

então, de repente, podemos ter extinções periódicas. E a propósito, isso aconteceu cinco vezes na Terra e portanto é muito plausível que a espécie humana da Terra seja extinta algum dia. Não na próxima semana, não no próximo mês, talvez em novembro, mas talvez 10 mil anos após isso. (Risos) Enquanto estamos pensando nas consequências disso, se acreditamos que essas extinções são comuns, naturais e normais e ocorrem periodicamente, se torna um imperativo moral diversificar nossa espécie. Torna-se um imperativo moral porque será muito difícil viver em Marte se não modificarmos fundamentalmente o corpo humano. Certo? Se partirmos de uma célula, mãe e pai juntos para fazer uma célula, numa cascata de 10 trilhões de células. Não sabemos, se mudarmos substancialmente a gravidade, se a mesma coisa acontecerá para criar nossos corpos. Nós sabemos que se expusermos nossos corpos, como são agora, a muita radiação, morreremos. Então, pensando nisso, é preciso redesenhar as coisas para poder ir a Marte. Esqueçam sobre as luas de Netuno ou Júpiter. E como diria Nikolai Kardashev, pensemos sobre a vida numa série de camadas. Então a civilização Vida Um é uma civilização que começa a alterar a sua aparência. E temos feito isso por milhares de anos. Temos a cirurgia de abdominoplastia; alteramos nossas aparências, e dizem que nem todas essas mudanças são feitas por motivos médicos.

(Risos)

Parece peculiar.

A civilização Vida Dois é diferente. Ela altera aspectos fundamentais do corpo. Colocamos hormônio de crescimento humano e ficamos mais altos ou colocamos X e uma pessoa fica mais gorda ou perde metabolismo ou fazemos uma série de coisas, mas estamos alterando funções de uma forma substantiva.



Para nos tornarmos uma civilização intrasolar, teremos de criar a civilização Vida Três, e isso parece muito diferente do que vimos até agora. Talvez se juntem bactérias resistentes à radiação e então as células podem se rejuntar após muita exposição à radiação. Talvez respiremos tendo o fluxo de oxigênio através do sangue, ao invés dos pulmões. Mas estamos falando sobre um redesenho realmente radical e uma das coisas mais interessantes que aconteceu na última década é que se descobriu toda uma gama de planetas lá fora. Muitos podem ser parecidos com a Terra. O problema é que se quisermos um dia ir a esses planetas, os objetos humanos mais rápidos, Juno, Voyager e todas estas outras coisas, demoram dezenas de milhares de anos para chegar ao sistema solar mais próximo. Se queremos começar a explorar praias em algum outro lugar ou ver dois pores do sol, então estamos falando sobre algo bem diferente, porque é necessário mudar a escala de tempo e o corpo humano de formas que podem ser absolutamente irreconhecíveis. E essa é a civilização Vida Quatro.

Não se pode ainda começar a imaginar como isso pode parecer, mas estamos começando a ter vislumbres de instrumentos que podem nos levar mesmo até lá. E vou dar-lhes dois exemplos. Este é o maravilhoso Floyd Romesberg e ele tem brincado com a química básica da vida. Toda vida desse planeta é feita de ATCGs, as quarto letras do DNA. Toda bactéria, planta, animal, humano, as vacas e tudo mais. O Floyd mudou dois dos nossos pares base, então é um ATXY. E isso quer dizer que agora temos um sistema paralelo para fazer vida, para fazer bebês, reproduzir, evoluir, que não se enquadra com muitas coisas da Terra ou de fato, talvez com nada na Terra. Talvez façamos plantas imunes à toda bactéria ou a qualquer vírus. Por que isso é tão interessante? Significa que não somos a única solução, e que podemos criar outras alternativas químicas a nós, que poderiam ser químicas adaptáveis a muitos planetas diferentes que poderiam criar vida e hereditariedade.

O segundo experimento, ou a outra implicação desse experimento, é que todos nós, toda vida é baseada em 20 aminoácidos. Se não substituímos dois aminoácidos, se você não diz ATXY, se diz ATCG + XY, passa de uma construção de 20 blocos, para uma de 172, e de repente você tem 172 blocos de aminoácidos para construir vida de vários diferentes formatos.

O segundo experimento para pensar é um experimento muito estranho que está ocorrendo na China. Uma pessoa tem transplantado centenas de cabeças de ratos. Certo? Por que é um experimento interessante? Pensem nos primeiros transplantes de coração. Costumava-se trazer a esposa ou a filha do doador, então o receptor poderia responder aos médicos às perguntas: "Você reconhece essa pessoa? Você a ama? Sente algo por ela?" Nós rimos disso hoje. Rimos por sabermos que o coração é um músculo, mas por séculos nós ouvimos: "Dei a ela meu coração. Ela destruiu meu coração". Pensávamos que era emoção e que talvez as emoções fossem transplantadas com o coração. Não. E o que falar do cérebro? Dois possíveis resultados desse experimento. Se você pegar um rato que é funcional então poderá ver: o novo cérebro é um quadro em branco? E pessoal, isso tem implicações. Segunda opção: o novo rato reconhece Minnie Mouse. O novo rato se lembra do que ele temia, de como andar pelo labirinto, e se isso for verdade, então podemos transplantar memória e consciência. A questão realmente interessante é: se for possível transplantar isso, o único mecanismo de entrada e saída é este corpo? Ou poderíamos transplantar essa consciência para outra coisa que fosse muito diferente, que resistiria no espaço, poderia sobreviver por séculos, que seria um corpo totalmente redesenhado e poderia manter a consciência por um longo período de tempo?

Voltemos à primeira questão: Por que iríamos querer fazer isso? Eu lhes direi o porquê. Porque essa é a mais moderna selfie.

(Risos)



Essa foto foi tirada a 6 bilhões de milhas de distância e ali está a Terra. E somos todos nós. E se essa pequena coisa acabar, toda a humanidade acaba também. E você quer alterar o corpo humano porque você finalmente quer uma foto que diga, somos nós, e esses somos nós, e esses somos nós, porque é como a humanidade sobrevive a extinção de longo prazo. E é por isso que, de fato, é antiético não aprimorar o corpo humano, mesmo que isso possa ser assustador e desafiador, mas é isso que nos permitirá explorar, viver e chegar a lugares que nem mesmo sonhamos hoje, mas nos quais os filhos de nossos tataranetos poderão chegar algum dia.

Muito obrigado.

(Aplausos)

Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

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