Neurociência: Revolução pouco noticiada pela mídia

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No meio de borbulhantes frascos coloridos, dispositivos de alta tecnologia e sob rítmicos sinais sonoros que não interferem na sua concentra...

No meio de borbulhantes frascos coloridos, dispositivos de alta tecnologia e sob rítmicos sinais sonoros que não interferem na sua concentração, o cientista brasileiro acomoda a máscara e as luvas, pega com extremo cuidado pele de três crianças e, depois de alguns procedimentos intermediários, as coloca em condições de máxima segurança num útero metálico.

Dr. Alysson Muotri

Ali nada vai lhes faltar, nem os nutrientes, nem o oxigênio nem os cuidados. E lá que vão viver um tempo preciso e precioso, na mesma temperatura do corpo humano, para se transformar, um dia não muito distante, em mini cérebros humanos vivos.

Parece filme, mas não é. O cientista brasileiro é o Dr. Alysson Muotri, que lidera uma equipe internacional de pesquisadores, e o local é o Departamento de Pediatria e Medicina celular e molecular da Universidade de Califórnia em São Diego, EUA. E o mais importante de tudo, a pesquisa é muito importante e está dando excelentes resultados. Cadê a mídia para noticiar?

Reações na mídia brasileira

O importante avanço publicado esta semana, como matéria de capa da revista científica Molecular Psychiatry teve no pais uma resposta que não condiz com a sua importância. É verdade que deu direito a uma entrada no Jornal Nacional e uma matéria da editoria de Ciência na Folha de São Paulo titulada “Cientistas criam mini órgãos com células-tronco para entender doenças” e assinada por Reinaldo José Lopez (pode ser visto aqui http://app.folha.uol.com.br/#noticia/594191), que depois saiu na versão impressa com um título mais empolgante: “Querida, encolhi o cérebro” (pode ser visto aqui http://www1.folha.uol.com.br/sp/cienciasaude/232417-querida-encolhi-o-cerebro.shtml.

A pesquisa também foi divulgada pelo site G1 onde o Alysson é da casa, pois escreve uma coluna de ciência, o que justificou a apresentação de um vídeo de quase cinco minutos com o pesquisador. Mas sem ter acesso ao número de cliques, estou certa que o título e o lide “Cientista brasileiro cria mini cérebro para testar droga contra síndrome” dificilmente atrairia um grande número de leitores.

Ainda podem aparecer mais matérias mas é possível afirmar que para grande parte da imprensa brasileira, e o seu público, o assunto passou desapercebido. O que no fundo deixa visível a ausência de ciência na imprensa em particular e na cultura brasileira em geral.

O exemplo é paradigmático porque se a mídia não consegue divulgar ciência em condições ótimas, ou seja, quando há um brasileiro no Olimpo da neurociência, ele mesmo é um excelente comunicador, dá para imaginar quantas notícias científicas menos impactantes ficam de fora da agenda diária da imprensa .

Neste caso concreto, os jornalistas contavam com vários ganchos além da nacionalidade do pesquisador principal. Um atrativo é sem dúvida a técnica utilizada, o que é ressaltado na matéria da Folha: versões miniaturizadas de cérebros, estômago pulmões e pâncreas entre outros estão se tornando ferramentas de pesquisa cada vez mais comuns.

Outro apelo jornalístico é que esses mini- órgãos são fabricados a partir de células tronco, das que todo mundo já ouviu falar. Dez anos atrás, a mídia amplificou promessas exageradas sobre sua utilidade (o resultado foram centenas de brasileiros viajando para o México, China e até Alemanha para se submeter a terapias inúteis e caras contra os mais diversos males).

Os fracassos destes tratamentos experimentais tiveram pouca repercussão e agora estamos frente o que tal vez seja o maior sucesso das pesquisas em células tronco: nos laboratórios de ponta no mundo todo se reconvertem em mini órgãos para compreender melhor as doenças e testar drogas de maneira rápida. No momento de gloria, nos esquecemos de divulgar.

Um novo modelo de pesquisa

A importância de ter um novo modelo de pesquisa precisa ser explicado com exemplos. No caso dos mini órgãos foi possível testar, com sucesso, uma droga que nunca tinha sido considerada para doenças neurológicas, e as conclusões que em experimentação em animais levaria anos nos mini cérebros levou meses. Além de tudo, como as células pertencem a pacientes concretos, a nova e prometedora medicina personalizada avançou mais um passo.

Finalmente, o principalmente para algumas famílias, Moutri e seu equipe avançaram no potencial tratamento de uma patologia, conhecida como síndrome de duplo MECP2, na qual os pacientes dificilmente chegam a dez anos de idade e que hoje não tem tratamento. Comportamento autista e incapacidade mental são alguns das consequências da doença de nome enigmático. Não dá para prever o futuro, mas pelos avanços conseguidos, é de esperar que uma droga contra a doença comece os testes clínicos em breve.

Pode até ser que tudo não passe de uma esperança falsa. Que o remédio nunca passe os testes em humanos. Mas há consenso entre os jornalistas científicos de que esse não deve ser um motivo para não noticiar. O desafio do comunicador é apenas cuidar as palavras para que a mensagem seja bem decodificada pelos receptores. Dentro do humanamente possível: o Facebook do pesquisador acumula pedidos de famílias desesperadas.

O presente está espantosamente difícil mas para enxergar o futuro é preciso superar as barreiras psicológicas e sair das tragédias de cada dia, seja na Europa, na Síria, em Brasília ou no campus da USP.

A revolução da neurociência

A neurociência está passando por uma revolução que a imprensa brasileira não mostra. Nunca houve um momento mais excitante que o atual, até porque embora seja difícil de acreditar, na área da neurologia não houve medicamentos novos no último meio século. Mas em 2014 foram publicadas mais de 100.000 pesquisas científicas sobre o cérebro, e isso promete seguir aumentando.

Só para ter uma ideia, nos Estados Unidos está em curso o projeto BRAIN, apoiado pelo governo de Barack Obama para aumentar o conhecimento cerebral a partir de novas tecnologias, e na Europa, o Projeto Cérebro Humano. Cada uma destas iniciativas consumirá mais de um bilhão de euros nos próximos dez anos. Há também o Projeto Conectoma humano, que já produz milhões de gigabytes de dados descrevendo as rotas cerebrais e a sua ligação com a genética, e muitos outros programas similares na China, Japão e na Austrália que produzirão resultados sem dúvida surpreendentes nos próximos anos. Como vamos acompanhar tudo isto se deixarmos a divulgação da ciência de lado?

A falta de ciência na mídia brasileira responde sem dúvida a uma multidão de causas, não apenas as econômicas que enxugaram as redações. “Os pesquisadores temos que nos envolver mais. O cientista não é treinado para falar com uma linguagem acessível ao público leigo, são poucos os que se aventuram nessa área, mas a distância entre a ciência de ponta e a sociedade poderia diminuir se tivéssemos mais cientistas se esforçando para falar de modo simples, pratico, didático e eficiente” opina Alysson Muotri.

“Poderíamos explicar melhor as consequências dos resultados. Por exemplo, quando me perguntam quanto tempo vai levar para a droga entrar em clínica, ao invés de dizer o tradicional 10 anos eu digo que depende de uma série de variáveis, como financiamento da pesquisa, formação do profissional que trabalha no projeto, aprovação do comitê de ética, etc. Ou seja, ao invés de dizer simplesmente um número tento passar a complexidade da pesquisa científica, instruindo o público sobre como essa pesquisa pode trazer benefício para sociedade. Acredito que se todos fizessem isso, haveria mais pressão nas agências de fomento e mais investimento em ciência e tecnologia. Os cientistas tornaram-se escravos da própria incapacidade de explicar ciência”, afirma o pesquisador.

Perguntas diretas, respostas simples

A carência atual só poderá ser mitigada se os jornalistas forem motivados para fazer este tipo de cobertura. Às vezes não é falta de interesse mas a dificuldade de compreender e logo explicar o avanço, ou titular de forma atrativa. Nos afogamos na informação técnica e perdemos na linguagem especializada. Um problema que nas palavras do jornalista Júlio Abramczyk se enfrenta de forma concreta: perguntas diretas, respostas simples.

Se não nos preocupamos mais pela cultura científica da população, não estaremos preparando, nem profissionais nem leitores ou ouvintes, para compreender questões que no futuro vão ser muito importantes. É imprescindível aumentar urgentemente o espaço da ciência na mídia, de forma responsável, mediando entre fontes sérias e o público, de maneira clara e atraente.

É importante para ampliar a mente e fomentar o espírito crítico. É importante porque a saúde é a nossa principal preocupação. Pagar por pílulas magicas e inúteis será sempre, como foi dito, uma espécie de imposto voluntario pago a ignorância científica. É importante pelo impacto da ciência na nossa vida e nas decisões importantes que deixamos, como cheque ao portador, na consciência de nossos cientistas.

É necessário aumentar o engajamento dos cidadãos nos debates de importância para as sociedades democráticas. É importante porque a ciência é o principal recursos para não ficarmos amarrados a conhecimentos antigos e práticas superadas. E importante porque a ciência é a maneira de não ficarmos amarrados a conhecimentos antigos e práticas superadas e principalmente, é importante, também, porque a curiosidade é nosso melhor instinto e conhecer o que acontece além da própria experiência e ter informações sobre aquilo que não se pode ver com os próprios olhos está no núcleo de nossa humanidade

***

Roxana Tabakman é bióloga e jornalista. Autora de A saúde na mídia, medicina para jornalistas, jornalismo para médicos. Ed. Summus (2013)

Fonte: Observatório da Imprensa
[Visto no Brasil Acadêmico]

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