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Boniface Mwangi: O dia em que me ergui sozinho

O fotógrafo Boniface Mwangi queria protestar contra a corrupção no seu país: o Quênia. Assim, elaborou um plano: ele e alguns amigos se leva...

O fotógrafo Boniface Mwangi queria protestar contra a corrupção no seu país: o Quênia. Assim, elaborou um plano: ele e alguns amigos se levantariam e gritariam durante um grande ajuntamento público. Mas quando chegou a hora... Algo não saiu como planejado. E ele ergueu-se sozinho. O que aconteceu em seguida, diz ele, mostrou-lhe quem realmente era. Como ele diz: "Existem dois dias poderosos na nossa vida. O dia em que nascemos, e o dia em que descobrimos porquê". AVISO! Imagens explícitas.



As pessoas no meu país me chamam de inoportuno, alguém que arranja confusão, irritante, um rebelde, um ativista, a voz do povo. Mas nem sempre fui assim.



Ao crescer, tinha uma alcunha. Costumavam chamar-me "Softy", o que queria dizer: o rapaz pacato e inofensivo. Tal como qualquer ser humano, eu evitava os problemas. Na minha infância, ensinaram-me o silêncio.

"Não discutas, faz o que te mandam".

Na catequese, ensinaram-me a não ter confrontos, a não discutir, mesmo tendo razão, a dar a outra face.

Isso era reforçado pelo ambiente político da época.

(Risos)

O Quênia é um país onde se é culpado até prova de sermos ricos.

(Risos)

Os pobres do Quênia, têm cinco vezes mais probabilidade de serem mortos pela polícia que os devia proteger do que por criminosos. Isso era reforçado pelo clima político vigente. Tínhamos um presidente, Moi, que era um ditador. Ele governava o país com um punho de ferro. Quem se atrevesse a desafiar a sua autoridade era detido, torturado, preso ou até morto. Isso ensinava as pessoas a serem cobardes espertos, a evitarem problemas. Ser cobarde não era um insulto. Ser cobarde era um elogio. Dizíamos que um cobarde volta para casa para junto da mãe. Isso significava que evitar problemas nos mantinha vivos.

Eu questionava esse conselho. Há oito anos, houve eleições no Quênia e os resultados foram violentamente contestados. O que se seguiu a essa eleição foi uma terrível violência, violações e a morte de mais de mil pessoas. O meu trabalho era documentar a violência. Como fotógrafo, tirei milhares de fotografias. Dois meses depois, os dois políticos reuniram-se, tomaram chá, assinaram um tratado de paz, e o país continuou.

Eu era um homem perturbado, porque vi a violência com os meus olhos. Vi as matanças. Vi o desalojamento. Conheci mulheres violadas e isso perturbou-me, mas o país nunca falou sobre isso. Fingimos. Tornamo-nos cobardes espertos. Decidimos evitar problemas e não falar sobre o assunto.

Dez meses depois, despedi-me. Disse que não aguentava mais. Depois de me despedir, decidi juntar os meus amigos para falar sobre a violência no país e sobre o estado da nação. No dia 1 de junho de 2009 devíamos ir ao estádio e tentar chamar a atenção do presidente. É um feriado nacional, é transmitido para todo o país. Eu apareci no estádio. Os meus amigos não apareceram. Dei por mim sozinho, não sabia o que fazer. Estava assustado, mas sabia bem que naquele preciso dia teria de decidir. Seria capaz de viver como um cobarde, como os outros, ou ia tomar uma posição? Quando o presidente se levantou para falar, dei por mim em pé, a gritar para o presidente, a dizer-lhe que recordasse as vítimas de violência após as eleições, que parasse com a corrupção. E, subitamente, do nada, a polícia atacou-me como leões famintos. Taparam-me a boca e arrastaram-me para fora do estádio, onde me bateram exaustivamente e me levaram para a prisão. Passei essa noite no frio chão de cimento da cela, e isso fez-me pensar. O que me fazia sentir assim? Os meus amigos e família pensavam que eu era doido pelo que fizera. As fotografias que tinha tirado perturbavam a minha vida. Essas fotos eram apenas um número para muitos quenianos. Muitos quenianos não viram a violência. Era uma história, para eles.

Assim, decidi começar uma exposição de rua para mostrar as imagens da violência pelo país fora e levar as pessoas a falar sobre isso. Percorremos o país e exibimos as fotografias. Foi uma viagem que me iniciou no caminho do ativismo, em que decidi deixar de ficar em silêncio, para falar destes assuntos. Viajamos, e o local em que fazíamos a exposição tornava-se o "graffiti" político da situação no país, em que se falava de corrupção, da má liderança. Até fizemos enterros simbólicos. Entregamos porcos vivos no parlamento do Quênia, como símbolo da ganância dos políticos. Já fora feito no Uganda e noutros países. O mais poderoso é que as imagens foram apanhadas pelos "media" e amplificadas pelo país, através do continente.

Onde costumava estar sozinho, há sete anos, tenho agora uma comunidade de muitos a erguerem-se comigo. Já não estou sozinho quando me ergo para falar destes assuntos. Pertenço a um grupo de jovens que são apaixonados pelo país e que querem fazer a mudança. Eles já não têm medo, já não são cobardes espertos. Esta foi a minha história. Naquele dia, no estádio, levantei-me como um cobarde esperto. Com esse simples gesto, disse adeus a 24 anos a viver como um cobarde.

Existem dois dias muito importantes na nossa vida: o dia em que nascemos e o dia em que descobrimos porquê. No dia em que me levantei no estádio, a gritar para o presidente, descobri por que razão tinha realmente nascido, que não ia continuar em silêncio perante a injustiça. E vocês, sabem por que motivo nasceram? Obrigado. (Aplausos)

Tom Rielly: É uma história fantástica. Quero apenas fazer algumas perguntas rápidas. Então, PAWA254: criaste um estúdio, um sítio onde jovens podem ir e aproveitar o poder dos meios digitais para realizar algumas destas ações. O que está a acontecer com o PAWA?

Boniface Mwangi: Temos um grupo de realizadores, artistas de "graffiti", músicos, e, se há um problema no país, juntamo-nos, partilhamos ideias, e agimos sobre esse problema. A nossa arma mais poderosa é a arte, porque vivemos num mundo atarefado, onde as pessoas estão muito ocupadas e não têm tempo para ler. Então concentramos o nosso ativismo e concentramos a nossa mensagem na arte. Fazemos isso a partir da música, do "graffiti", da arte. Posso dizer mais uma coisa?

TR: Sim, claro.

(Aplausos)

BM: Apesar de ter sido preso, agredido, ameaçado, quando descobri a minha voz e que podia erguer-me pelo que acreditava, deixei de ter medo. Costumavam chamar-me "Softy", mas eu já não sou pacato, porque descobri o que, na verdade, sou, e o que quero fazer, e há tanta beleza em fazê-lo. Não há nada tão poderoso, como saber que o meu destino é fazer isto, porque não temos medo, continuamos só a viver a nossa vida.

Obrigado.

(Aplausos)


Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

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