Os dados da sua empresa podem ajudar a acabar com a fome no mundo

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Sua empresa pode já ter doado dinheiro para ajudar a resolver questões humanitárias, mas há algo ainda mais útil que vocês podem oferecer: s...

Sua empresa pode já ter doado dinheiro para ajudar a resolver questões humanitárias, mas há algo ainda mais útil que vocês podem oferecer: seus dados. Mallory Soldner nos mostra como empresas do setor privado podem ajudar a acelerar a solução de grandes problemas — da crise de refugiados à fome no mundo —, doando dados inexplorados e cientistas de dados. Com o que sua empresa pode contribuir?

Junho de 2010. (Risos) Aterrissei, pela primeira vez, em Roma, na Itália. Não estava lá a passeio. Estava lá para resolver o problema da fome no mundo.



(Risos)

Isso mesmo. Eu era uma doutoranda de 25 anos, com o protótipo de uma ferramenta desenvolvida em minha universidade, e ia ajudar o World Food Programme a resolver o problema da fome. Assim, entrei decidida na sede do programa e meus olhos passaram em revista as bandeiras da ONU, e sorri como se dissesse a mim mesma: "A engenheira chegou".

(Risos)

“Podem me passar os dados. Vou otimizar tudo.”

(Risos)

"Falem-me dos alimentos que compraram, onde e quando vão ser distribuídos, e vou lhes mostrar as rotas mais curtas, rápidas e baratas para transportá-los. Vamos economizar dinheiro, vamos evitar atrasos e falhas e, por fim, vamos salvar vidas. De nada."

(Risos)

Achei que isso ia levar 12 meses, tá bom... talvez 13. Mas não foi bem assim. Com apenas alguns meses no projeto, meu chefe francês me disse: "Sabe, Mallory, é uma boa ideia, mas os dados de que você precisa para seus algoritmos, nós não temos. É a ideia certa, mas na hora errada, e a ideia certa na hora errada é a ideia errada."

(Risos)

Fim do projeto. (Risos) Fiquei arrasada. (Risos)

Hoje, quando olho para trás, para aquele primeiro verão em Roma, e vejo quanta coisa mudou nos últimos seis anos, foi uma transformação absurda. Chegou a hora de trazermos dados para o mundo humanitário. É emocionante, é inspirador, mas ainda não chegamos lá. E preparem-se, executivos, porque vou colocar empresas na berlinda para assumirem o papel que sei que vocês podem.

Minhas experiências lá em Roma provam que podemos usar dados para salvar vidas. Tá bem, não na primeira tentativa, mas a gente acaba chegando lá. Deixem-me lhes mostrar o contexto. Imaginem que têm de planejar café, almoço e jantar para 500 mil pessoas, e possuem um determinado orçamento para tanto, digamos US$ 6,5 milhões por mês. Bem, o que vocês fariam? Qual a melhor forma de resolver isso? O que comprar: arroz, trigo, grão-de-bico, óleo? E quanto? Parece simples, mas não é. Vocês têm 30 alimentos possíveis, mas têm de escolher 5. Isso dá mais de 140 mil combinações diferentes. E, para cada alimento escolhido, é preciso decidir que quantidade comprar, de quem comprá-lo, onde estocá-lo, quanto tempo vai levar para chegar, checando todas as diferentes rotas de transporte também. E isso dá mais de 900 milhões de opções. Se considerarmos cada opção por um único segundo, isso levaria mais de 28 anos para checar todos os 900 milhões de opções!

Assim, criamos uma ferramenta para permitir aos administradores selecionar entre os 900 milhões de opções em apenas questão de dias. E acabou sendo um enorme sucesso. Numa operação no Iraque, economizamos 17% dos custos, e isso significou a possibilidade de alimentar 80 mil pessoas a mais. Tudo isso graças ao uso de dados e à modelagem de sistemas complexos.

Mas não fizemos isso sozinhos. As pessoas da unidade em que trabalhei em Roma eram especiais. Elas acreditavam em colaboração. Elas trouxeram o mundo acadêmico, trouxeram empresas. E, para fazer a diferença em grandes problemas, como a fome no mundo, precisamos de todos à mesa. Precisamos do pessoal dos dados de organizações humanitárias abrindo o caminho, e orquestrando os tipos certos de comprometimento com os acadêmicos e com os governos. E há um grupo que não está sendo engajado da forma como deveria. Conseguem adivinhar? As empresas.

Elas têm um enorme papel na solução dos grandes problemas de nosso mundo. Já faz dois anos que trabalho no setor privado. Vi o que as empresas podem fazer, e vi o que elas não estão fazendo, e penso que há três maneiras de preenchermos essas lacunas: doando dados, doando cientistas de dados e doando tecnologia para acessar novas fontes de dados. Isso é filantropia de dados. E é o futuro da responsabilidade social das empresas. Voluntariado também faz sentido nos bons negócios.

As empresas hoje coletam montanhas de dados, então, a primeira coisa que podem fazer é começar a doar esses dados. Algumas empresas já estão fazendo isso. Vamos pegar uma grande companhia de telecomunicação. Ela abriu seus dados no Senegal e na Costa do Marfim, e os pesquisadores descobriram que, com os padrões dos sinais das torres de telefone celular, podemos ver para onde as pessoas estão viajando. E isso pode nos mostrar coisas como onde a malária pode se espalhar, e podemos fazer previsões com isso. Ou pegar por exemplo uma empresa de satélite de ponta. Eles abriram seus dados e nos doaram. E com esses dados podemos rastrear o impacto das secas na produção de alimentos. Isso torna possível ativar fundos de ajuda financeira antes de uma crise acontecer.

Já é um grande começo. Há insights importantes nos dados das empresas. E, sim, precisamos ser cuidadosos. É preciso respeitar a privacidade, por exemplo, tornando os dados anônimos.

Mas, mesmo adotando por completo todas as novas ideias, e mesmo se todas as empresas doarem seus dados às universidade, às ONGs, às organizações humanitárias, isso não seria suficiente para causar todo esse impacto de dados para objetivos humanitários. Por quê? Para obter insights dos dados, precisamos de cientistas de dados. Cientistas de dados são pessoas como eu. Eles pegam os dados, selecionam, os transformam e os colocam num algoritmo útil que seja a melhor maneira de atender a necessidade do negócio. No mundo da ajuda humanitária, há pouquíssimos cientistas de dados. A maioria deles trabalha para empresas. Essa é a segunda coisa que as empresas precisam fazer: além de doar seus dados, precisam doar seus cientistas de dados.

As empresas vão dizer: "Aaaah, não tire nossos cientistas de dados de nós. Precisamos de todos os segundos do tempo deles". (Risos) Mas tem um jeito. Se a empresa for doar uma parcela de tempo de um cientista de dados, na verdade faria mais sentido dividir aquela parcela por um período mais longo, digamos, por exemplo, cinco anos. Isso deve dar apenas algumas horas por mês, o que dificilmente vai fazer falta a uma empresa, mas o que isso permite é realmente importante: parcerias de longo prazo. Parcerias de longo prazo nos permitem construir relacionamentos, conhecer os dados, entendê-los de verdade e começar a entender as necessidades e os desafios que a organização humanitária está enfrentando. Em Roma, no World Food Program, levamos cinco anos para fazer isso, cinco anos. Aqueles três primeiros anos, tá, foi o que não conseguimos resolver. Depois, mais dois anos para refinar e implementar a ferramenta, como nas operações no Iraque e em outros países. Não acho que seja um cronograma irreal quando se trata de usar dados para fazer mudanças operacionais. É um investimento; requer paciência. Mas os tipos de resultados que podem ser produzidos são inegáveis. Em nosso caso, a capacidade de alimentar milhares de pessoas a mais.

Assim, tivemos dados doados, cientistas de dados doados, e há na verdade uma terceira forma de as empresas ajudarem: doando tecnologia para capturar novas fontes de dados. Vejam, há montes de coisas cujos dados não temos. Neste momento, refugiados sírios estão inundando a Grécia, e a agência para refugiados da ONU já tem muito o que fazer. O sistema atual para rastrear pessoas é de papel e lápis, o que significa que, quando uma mãe e cinco filhos chegam ao campo, a agência está praticamente alheia a esse momento. Tudo vai mudar nas próximas semanas, graças à colaboração do setor privado. teremos um novo sistema baseado num pacote de tecnologia de rastreamento doado pela empresa de logística na qual trabalho. Com esse sistema, vai haver rastreamento de dados, e vamos saber exatamente quando essa mãe e seus filhos entrarem no campo. E, mais do que isso, saberemos se ela vai ter suprimentos neste mês e no próximo. A visibilidade da informação leva à eficiência. Para as empresas, usar a tecnologia para coletar dados importantes é seu arroz com feijão. Elas têm feito isso por anos, o que tem levado a grandes melhorias na eficiência operacional. Tentem imaginar sua empresa de bebidas preferida tentando planejar seu estoque e não sabendo quantas garrafas há nas prateleiras. É absurdo. Os dados levam a melhores decisões.

Bem, se você representa uma empresa, e é pragmático, não apenas idealista, deve estar dizendo a si mesmo: "Tá, tudo isso é ótimo, Mallory, mas por que eu deveria me envolver?" Um dos motivos, além de boa política de relações públicas, é que a ajuda humanitária é um setor de US$ 24 bilhões, e há mais de 5 bilhões de pessoas, talvez seus próximos clientes, vivendo em países em desenvolvimento. Além do mais, as empresas envolvidas com filantropia de dados estão tendo novos insights com seus dados. Por exemplo, uma empresa de cartão de crédito que abriu um centro que funciona como uma base para estudiosos, ONGs e governos, todos trabalhando juntos. Eles estão vendo informações no uso do cartão de crédito e usando-as para ter insights sobre como as famílias na Índia vivem, trabalham e gastam seu dinheiro. Para o mundo humanitário, isso fornece informação sobre como tirar as pessoas da pobreza. Mas, para as empresas, fornece insights sobre seus consumidores e potenciais consumidores na Índia. É bom para todo mundo. Bem, para mim, o que me empolga na filantropia de dados, doação de dados, doação de cientistas de dados e doação de tecnologia, é o significado disso para jovens profissionais como eu, que estão escolhendo trabalhar em empresas. Estudos mostram que a próxima geração da mão de obra se importa em ter um trabalho que cause um impacto maior. Queremos fazer a diferença e, através da filantropia de dados, empresas podem ajudar a envolver e segurar seus cientistas de dados. E é muita coisa para uma profissão que está com alta demanda.

Filantropia de dados faz todo sentido nos negócios e também pode ajudar a revolucionar o mundo humanitário. Se coordenássemos o planejamento e a logística ao longo das principais fases de uma operação humanitária, poderíamos alimentar, vestir e abrigar milhares de pessoas a mais, e as empresas precisam se posicionar e assumir o papel que sei que podem de fazer essa revolução.

Provavelmente já ouviram a expressão "alimentar a mente". Bem, aqui é literalmente usar a mente para alimentar. Finalmente é a ideia certa no momento certo.

(Risos)

Très magnifique.

Obrigada.

(Aplausos)

Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

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