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Uma desprezada tecnologia da Era Espacial pode mudar como cultivamos alimento

Estamos nos dirigindo a uma população mundial de 10 bilhões de pessoas, mas o que todos nós comeremos? Lisa Dyson redescobriu uma ideia dese...

Estamos nos dirigindo a uma população mundial de 10 bilhões de pessoas, mas o que todos nós comeremos? Lisa Dyson redescobriu uma ideia desenvolvida pela NASA nos anos 60 para as viagens no espaço sideral e que poderia ser a chave de como cultivamos o alimento.
Imaginem que façam parte de uma tripulação de astronautas viajando a Marte ou a um planeta distante. O tempo de viagem poderia levar um ano ou até mais. O espaço a bordo e os recursos seriam limitados. Então você e a tripulação teriam que descobrir como produzir alimento com o mínimo de insumos.



E se pudessem levar apenas alguns pacotes de sementes, e cultivar em questão de horas? E se esses cultivos produzissem mais sementes, possibilitando a alimentação de toda tripulação com apenas alguns pacotes de sementes para a duração da viagem?

Bem, os cientistas da NASA descobriram um modo de fazer isso. Na verdade, propuseram algo muito interessante. Envolve micro-organismos, que são organismos unicelulares. Também usaram hidrogênio da água. Os tipos de micróbios que usaram foram chamados de hidrogenotróficos, e com eles, criaríamos um ciclo de carbono virtuoso que sustentaria a vida a bordo de uma espaçonave. Astronautas expirariam dióxido de carbono, que seria capturado pelos micróbios e convertidos em um cultivo rico em carbono e nutrientes. Então, os astronautas comeriam do cultivo rico em carbono e expirariam o carbono na forma de dióxido de carbono, que seria capturado pelos micróbios, para criar um cultivo nutritivo, que então seria expirado na forma de dióxido de carbono pelos astronautas. Dessa forma, um círculo de carbono fechado é criado.

Então por que isso é importante? Os humanos precisam de carbono para sobreviver, e obtemos o carbono do alimento. Em uma longa viagem, não poderíamos obter nenhum carbono ao longo do caminho, então precisamos descobrir como reciclá-lo a bordo.

É uma solução inteligente, não é mesmo? Mas a questão é que a pesquisa não deu em nada. Ainda não fomos a Marte; não fomos ainda a outro planeta. Na verdade, isso foi feito nos anos 60 e 70. Então um colega meu, Dr. John Reed, e eu, ficamos interessados na reciclagem do carbono aqui na Terra. Queríamos propor soluções técnicas para tratar da mudança climática. E descobrimos essa pesquisa ao ler alguns estudos publicados nos anos 60, 1967 e anos posteriores, artigos sobre esse trabalho. E achamos isso uma ideia muito boa. Então dissemos, bem, a Terra é como uma espaçonave. Temos espaço e recursos limitados, e na Terra, precisamos muito descobrir como reciclar melhor o nosso carbono.

Então tivemos essa ideia: podemos adotar algumas dessas ideias da NASA e aplicá-las ao nosso problema de carbono aqui na Terra? Podemos cultivar esses micróbios da NASA para elaborar produtos valiosos aqui na Terra? Iniciamos uma empresa para fazer isso. E na empresa, descobrimos que esses hidrogenotróficos, que, na verdade, chamo de recicladores naturais de carbono supercarregados, são uma classe poderosa de micróbios que havia sido ignorada e pouco estudada e que podiam criar alguns produtos muito valiosos.

Então começamos a cultivar esses produtos, esses micróbios, no laboratório. Descobrimos que podemos produzir aminoácidos essenciais do dióxido de carbono usando esses micróbios. Até mesmo fizemos uma refeição rica em proteína que tem um perfil de aminoácido parecido, que pode ser encontrado em algumas proteínas animais. Começamos a cultivá-los ainda mais, e descobrimos que podemos produzir óleo. Óleos são usados para fabricar muitos produtos. Produzimos um óleo similiar ao óleo cítrico, que pode ser usado para aromas e fragrâncias, mas também pode ser usado como detergente biodegradável ou combustível de aeronave. E fizemos um óleo parecido com o azeite de dendê. Azeite de dendê é usado para fabricar uma ampla gama de produtos de consumo e industriais.

Começamos a trabalhar com fabricantes para aumentar a escala dessa tecnologia, e atualmente trabalhamos com eles para levar alguns desses produtos ao mercado. Achamos que esse tipo de tecnologia pode realmente nos ajudar provavelmente reciclar dióxido de carbono em produtos valiosos, algo que seja benéfico para o planeta, mas também para os negócios. É o que estamos fazendo hoje. Mas amanhã, esta tecnologia e o uso desses tipos de micróbios na verdade, poderiam nos ajudar a fazer algo ainda maior se o levamos ao próximo nível. Acreditamos que esta tecnologia pode nos ajudar a enfrentar o problema da agricultura e nos propicie criar uma agricultura mais sustentável, que nos permita ter uma escala que atenda as demandas do futuro.

E por que talvez precisemos de uma agricultura sustentável? Bem, na verdade, estima-se que a população chegue a 10 bilhões em 2050, e projetamos a necessidade de aumentar a produção de alimento em 70%. Além disso, precisaremos muito mais recursos e insumos para fabricar produtos de consumo e industriais. Então como dimensionamos essa demanda?

Bem, a agricultura moderna não consegue atender a demanda de modo sustentável. Há muitas razões para isso. Uma delas é que a agricultura moderna é uma das maiores emissoras de gases de efeito estufa. Na prática, emite mais gases de efeito estufa que automóveis, caminhões, aviões e trens juntos. Outra razão é que a agricultura moderna ocupa muitas áreas de terra. Dedicamos 50,25 milhões Km2 para plantação e pecuária. O que se parece? Bem, é quase o tamanho da América do Sul e África juntas.

Vou dar um exemplo específico. Na Indonésia, uma boa parte da floresta virgem foi derrubada, quase do tamanho da Irlanda, entre 2000 e 2012. Pensem em todas as espécies, na diversidade, que foram retirados no processo, vida vegetal, insetos ou vida animal. E um sumidouro natural de carbono foi também removido.

Vejamos o que aconteceu concretamente. O desmatamento aconteceu principalmente para dar lugar às plantações de palma. Como mencionei anteriormente, o azeite de dendê é usado para fabricar muitos produtos. De fato, estima-se que mais de 50% dos produtos de consumo são fabricados usando azeite de dendê. E isso inclui sorvete, bolachas... Inclui óleos para cozinhar. Também inclui, detergentes, loções, sabões. Eu e você talvez tenhamos inúmeros itens nas nossas cozinhas e banheiros que são fabricados com azeite de dendê. Então eu e você somos beneficiários diretos das florestas desmatadas.

Agricultura moderna tem alguns problemas, e precisamos de soluções se quisermos ter uma escala sustentável. Acredito que os micróbios possam ser parte da solução, especificamente, os recicladores de carbono supercarregados. Esses recicladores de carbono supercarregados, como plantas, servem de recicladores naturais nos ecossistemas onde florescem. E eles vicejam em locais exóticos na Terra, como fontes hidrotermais e águas termais. Nesses ecossistemas, o carbono é absorvido e reciclado em nutrientes necessários a esses ecossistemas. E são ricos em nutrientes, como óleos e proteínas, minerais e carboidratos.

Na verdade, os micróbios já estão integrados na nossa vida diária. Se gostam de uma taça de Pinot Noir sexta à noite depois de uma longa e cansativa semana, então estão saborando um produto dos micróbios. Se gostam de cerveja artesanal, um produto dos micróbios. Ou pão, queijo, iogurte. São todos produtos dos micróbios. Mas a beleza e o poder dos recicladores de carbono supercarregados residem no fato que podem produzir em questão de horas em vez de meses. Isso significa que podemos ter cultivos com mais rapidez que hoje. Eles crescem no escuro, para que possam crescer em qualquer estação em qualquer local. Podem crescer em contêiners que requerem espaço mínimo. E podemos ter uma agricultura vertical, em vez da tradicional agricultura horizontal que requer tanta terra, podemos fazê-la verticalmente, o que resulta gerar mais produto por área.

Se implementamos esse método e usamos os recicladores de carbono, então não precisaríamos ter mais nenhum desmatamento florestal para a produção de alimento e produtos para consumo. Porque, em grande escala, podemos gerar 10 mil vezes mais produtos por área que obteria, por exemplo, se usássemos soja, plantando soja na mesma área pelo período de um ano. Dez mil vezes mais que a produção de um ano. Então isso que quero dizer com uma nova agricultura. E isso que quero dizer com desenvolver um sistema que nos permita uma escala sustentável que atenda a demanda de 10 bilhões.

E como seriam os produtos dessa nova agricultura? Bem, já produzimos uma refeição proteica, então podem imaginar algo parecido com uma refeição de soja, milho ou trigo. Já fizemos óleos, então podem imaginar algo parecido com óleo de côco, azeite de oliva ou óleo de soja. Então esse cultivo pode produzir os nutrientes que nos daria massa e pão, bolos, itens nutricionais de muitos tipos. Além disso, como o óleo é usado para fabricar outros produtos, produtos industriais e de consumo, podem imaginar sendo capazes de fazer detergentes, sabões, loções, etc., usando esses cultivos.

Não estamos apenas ficando sem espaço, mas se continuarmos a operar como estamos fazendo com a agricultura moderna, corremos o risco de roubar de nossos descendentes um lindo planeta. Mas não precisa ser dessa maneira. Podemos imaginar um futuro de abundância. Vamos criar sistemas que não apenas protejam o planeta Terra, nossa espaçonave, de um colapso, mas nos permitam desenvolver sistemas e modos de vida que sejam benéficos para nossas vidas e de 10 bilhões neste planeta em 2050.

Muito obrigada.

(Aplausos)

Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

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