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Como lutaremos contra o próximo vírus mortífero

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Quando o Ébola irrompeu em março de 2014, Pardis Sabeti e a sua equipa deitaram-se ao trabalho de sequenciar o genoma do vírus, aprendendo c...

Quando o Ébola irrompeu em março de 2014, Pardis Sabeti e a sua equipa deitaram-se ao trabalho de sequenciar o genoma do vírus, aprendendo como ele sofria mutações e se espalhava, Sabeti divulgou imediatamente online a sua investigação, para que os investigadores de vírus e os cientistas de todo o mundo pudessem juntar-se àquela batalha urgente. Nesta palestra, mostra como a cooperação aberta foi fundamental para deter o vírus... e para atacar o próximo que se aproxima. "Tivemos que trabalhar abertamente, tivemos que partilhar e tivemos que trabalhar em conjunto", diz Saeti. "Não deixemos que o mundo seja definido pela destruição provocada por um só vírus, mas iluminado por milhares de milhões de corações e espíritos a trabalhar em uníssono".

Podem nunca ter ouvido falar de Kenema, na Serra Leoa ou de Arua, na Nigéria. Mas eu conheço-as como dois dos locais mais extraordinários do mundo.



Ali, nos hospitais, há uma comunidade de enfermeiros, médicos e cientistas que têm vindo a lutar, silenciosamente, há anos, com uma das ameaças mais mortíferas da humanidade, o vírus Lassa. O vírus Lassa é muito parecido com o Ébola. Pode causar uma febre alta e, muitas vezes, é fatal. Estes indivíduos arriscam a vida todos os dias, para proteger os indivíduos das suas comunidades e, ao fazerem isso, protegem-nos a todos.

Uma das coisas mais extraordinárias que eu aprendi com eles, numa das minhas primeiras visitas há muitos anos, foi que eles começam todas as manhãs — esses extraordinários dias de luta, na linha da frente — a cantar. Reúnem-se todos e exibem a sua alegria. Exibem o seu espírito. Ao longo dos anos, ano após ano, sempre que os visito e eles me visitam, reúno-me com eles e canto, escrevemos e adoramos isso, porque nos lembra que não estamos ali apenas para fazermos ciência juntos, estamos ligados através duma humanidade partilhada.

Claro que, como podem imaginar, isso torna-se muito importante, essencial mesmo, à medida que as coisas começam a mudar. E mudaram muito em março de 2014, quando foi declarado o surto do Ébola na Guiné. Esse foi o primeiro surto na África Ocidental, perto da fronteira da Serra Leoa com a Libéria. Foi assustador para todos nós. Já suspeitávamos há algum tempo que o Lassa e o Ébola estavam mais espalhados do que se pensava e pensávamos que um dia podia chegar a Kenema.

Por isso, membros da minha equipa partiram imediatamente e foram ter com o Dr. Humarr Khan e com a sua equipa. Instituímos diagnósticos para podermos ter exames moleculares sensíveis a detetar o Ébola, se ele atravessasse a fronteira para a Serra Leoa. Já tínhamos feito a mesma coisa para o vírus Lassa, sabíamos como fazê-lo, a equipa é excecional. Só tínhamos que lhes dar os instrumentos e o local para vigiarem o Ébola.

Infelizmente, esse dia chegou. A 23 de maio, uma mulher foi fazer análises na maternidade do hospital, e a equipa fez essas análises moleculares importantes. Identificaram o primeiro caso confirmado de Ébola na Serra Leoa. Foi um trabalho excecional. Puderam diagnosticar o caso imediatamente, para tratarem a doente, com segurança, e começarem a detetar os contactos para acompanhar o que se passava. Isso podia ter impedido qualquer coisa. Mas quando esse dia chegou, o surto já estava em evolução há meses. Com centenas de casos, já tinha eclipsado todos os surtos anteriores. E chegou à Serra Leoa, não como um único caso, mas como uma onda gigantesca.

Tivemos que trabalhar com a comunidade internacional, com o ministro da Saúde, com Kenema, para começar a tratar dos casos, quando a semana seguinte trouxe 31, depois 92, depois 147 casos — todos a chegar a Kenema, um dos únicos locais na Serra Leoa que podia tratar disso.

Trabalhámos dia e noite, tentando fazer tudo o que podíamos, tentando ajudar os indivíduos, tentando chamar a atenção, mas também fizemos uma coisa muito simples. Quanto ao sangue que colhemos duma paciente, para detetar o Ébola — claro, podemos deitá-lo fora — mas podemos usar um produto químico e desativá-lo, metê-lo numa caixa e enviá-lo por mar. Foi o que fizemos. Enviámo-lo para Boston, onde trabalha a minha equipa. Também trabalhámos dia e noite, fazendo turnos, dia após dia. Rapidamente gerámos 99 genomas do vírus Ébola. Este é o diagrama — o genoma de um vírus é o diagrama. Todos temos um. Diz tudo o que nos constitui e dá-nos imensas informações.

Os resultados deste tipo de trabalho são simples e poderosos. Pudemos agarrar nestes 99 vírus diferentes, observá-los e compará-los. Pudemos ver, em comparação com três genomas que tinham sido publicados na Guiné, pudemos ver que o surto surgido na Guiné, meses antes, na população humana, tinha-se transmitido de pessoa para pessoa. Isto é extremamente importante quando estamos a tentar perceber como intervir, mas o importante é detetar os contactos. Também pudemos ver que, à medida que o vírus passa entre as pessoas, vai sofrendo mutações. Cada uma dessas mutações é muito importante, porque os diagnósticos, as vacinas, as terapias que usamos baseiam-se todas, fundamentalmente, na sequência do genoma, — são de acordo com ele. Os especialistas mundiais de saúde precisavam de responder, precisavam de desenvolver, para recalibrar tudo o que estavam a fazer .

Segundo a forma como a ciência funciona, naquela altura, eu tinha os dados e podia ter trabalhado num silo durante muitos meses, analisando os dados cuidadosa e vagarosamente, apresentava o artigo para publicação, andava para a frente e para trás e só depois de o documento sair, podíamos divulgar esses dados. É assim que funciona o status quo.

Mas, naquela altura, isso não podia funcionar. Tínhamos amigos nas linhas da frente, para nós era óbvio que precisávamos de ajuda, muita ajuda. Portanto, a primeira coisa que fizemos. logo que as sequências saíram das máquinas, foi publicá-las na Internet. Divulgámo-las por todo o mundo e dissemos: "Ajudem-nos". E a ajuda chegou.

Antes de darmos por isso, estávamos a ser contactados por gente de todo o lado, surpreendidos por ver os dados publicados. Alguns dos maiores pesquisadores de vírus do mundo subitamente faziam parte da nossa comunidade. Estávamos a trabalhar em conjunto de modo virtual, partilhando, com telefonemas e comunicações regulares, tentando seguir o vírus, de minuto em minuto, para conseguir formas de o podermos deter.

Há tantas maneiras de podermos formar comunidades como esta. Toda a gente, em especial quando o surto começou a espalhar-se a nível mundial, estava a querer aprender, a participar, a empenhar-se. Toda a gente quer desempenhar um papel. A quantidade de capacidade humana que existe é espantosa e a Internet liga-nos a todos. Podem calcular que, em vez de termos medo uns dos outros, dizíamos: "Vamos fazer isto. "Vamos trabalhar juntos e conseguir resolver isto".

O problema é que os dados que todos estamos a usar, através do Google, são demasiado limitados para fazer o que é preciso fazer. Perdem-se muitas oportunidades quando isso acontece. Na primeira parte da epidemia em Kenema, tínhamos 106 registos clínicos de pacientes e, de novo, publicámos isso. No nosso laboratório, mostrámos que podíamos agarrar nesses 106 registos, podíamos ensinar os computadores a prever o prognóstico para doentes do Ébola com um rigor de quase 100%. Fizemos uma aplicação que produzisse isso para ser usada pelos técnicos de saúde no terreno.

Só que 106 casos não são suficientes para ter força, para ser validada. Portanto, estamos à espera de mais dados para a divulgar e esses dados ainda não chegaram. Continuamos à espera, para a melhorar, em silos, em vez de trabalharmos em conjunto. Não podemos aceitar isto. Não acham? Ninguém pode aceitar isto. É a nossa vida que está em jogo. Na verdade, perderam-se muitas vidas, de muitos técnicos de saúde, incluindo queridos colegas meus, cinco colegas, Mbalu Fonnie, Alex Moigboi, Dr. Humarr Khan, Alice Kovoma e Mohamed Fullah. São apenas cinco de muitos técnicos de saúde em Kerena e não só que morreram enquanto o mundo esperava e enquanto nós trabalhávamos, silenciosa e isoladamente.

O Ébola, como todas as ameaças para a humanidade, é alimentado pela desconfiança, pelo desinteresse e pela divisão. Quando construímos barreiras entre nós, e lutamos entre nós, o vírus prospera. Mas, ao contrário de todas as ameaças para a humanidade, o Ébola é uma ameaça em que todos somos iguais. Estamos todos juntos nesta luta. O Ébola espreita atrás da porta, que em breve poderá ser a nossa. Por isso, neste local, com a mesma vulnerabilidade, as mesmas forças, os mesmos medos, a mesma esperança, eu espero que trabalhemos juntos, com alegria.

Uma aluna minha estava a ler um livro sobre a Serra Leoa e descobriu que a palavra "Kenema", o hospital onde trabalhamos e a cidade onde trabalhamos na Serra Leoa vem da palavra do povo mende para "clara como um rio, translúcida "e aberta à contemplação do público". Isso, para nós, foi muito profundo, porque, sem o sabermos, sempre sentimos que, para honra dos indivíduos de Kenema, onde trabalhávamos, tínhamos que trabalhar abertamente, tínhamos que partilhar e tínhamos que trabalhar juntos. Temos que fazer assim. Temos que exigir de nós e dos outros sermos abertos uns com os outros, quando ocorre um surto, para travarmos juntos esta luta. Porque este não foi o primeiro surto do Ébola e não será o último. Há muitos outros micróbios que estão à espera, como o vírus Lassa e outros. Da próxima vez que acontecer pode ocorrer numa cidade de milhões, pode começar aqui. Pode ser uma coisa transmitida pelo ar. Pode até ser espalhado intencionalmente. Sei que é assustador, percebo-o, mas também sei — e esta experiência demonstra-o — que temos a tecnologia, temos a capacidade para ganhar esta coisa, para ganhá-la e dominar os vírus. Mas só o podemos fazer, se o fizermos em conjunto e o fizermos com alegria.

Pelo Dr. Khan e por todos os que sacrificaram a sua vida na linha da frente, nesta luta sempre connosco, vamos lutar sempre com eles. E não deixemos que o mundo seja definido pela destruição provocada por um só vírus, mas iluminado por milhares de milhões de corações e espíritos a trabalhar em uníssono.

Obrigada.

(Aplausos)

Fonte: TED
[Visto no Brasil Acadêmico]

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