A mulher como problema: o papel de Jennifer Parker

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De volta para o futuro II: Enquanto a maioria das discussões trata apenas das diferenças tecnológicas entre o que apareceu no cinema e o que temos agora, objetivo chamar a atenção para as relações humanas, especificamente, para a questão da condição feminina.



por Leonardo de Lucas da Silva Domingues

Para fugir dos mesmos assuntos que rondam o tema do De volta para o futuro II em 2015, ano retratado no filme, pergunto-lhe uma coisa: você se lembra de Jennifer Parker? Ou melhor, da namorada do Marty McFly? Agora sim, pode ser que algo venha à sua mente. Ela é aquela loirinha em trajes típicos de uma adolescente americana dos anos oitenta, pelo menos no modo hollywoodiano unidimensional de ver as coisas.



Pois é, apesar de todo o cenário futurista, de todo o aparato tecnológico exagerado, a despeito de todas as aventuras nas mais distintas épocas retratadas, não há espaço para Jennifer Parker. E por quê? Porque ela é um problema, um obstáculo para o andamento da narrativa. Atrapalha o fluxo, o bom andamento da história e está lá onde não deveria estar: no carro.

Quem diz isso é o próprio diretor do filme, Robert Zemeckis, no vídeo A criação da trilogia: capítulo 2 (de 2002), uma espécie de making of:

Obviamente, eu não criei o filme para ter continuações. Se tivesse, jamais colocaria a namorada no carro, pois foi um problema gigantesco na hora de criar a continuação. Teria apenas o Doc e Marty no carro.

Numa primeira análise, o raciocínio do diretor aparenta ser plausível. Afinal, a história do filme é a de Marty McFly com o Dr. Brown. Essa é a dupla protagonista. O papel de Jennifer, personagem mais simples e pouco desenvolvida, é o de namorada de Marty. Tanto é assim que o próprio diretor a chama de namorada e não de Jennifer. Ela é uma garota qualquer, comum, sem personalidade marcante, sem características próprias, e que representa a imagem coletiva que se faz da noção de namorada.

No entanto, ao dizer que a personagem Jennifer é um problema para a continuação da trilogia, Zemeckis reafirma um único conceito central em tudo isso: o fato de ela ser mulher. Essa é a questão maior. É por isso que se ele tivesse pensado numa continuação desde o primeiro filme, não a teria colocado dentro do carro.

O carro, o Delorean, a máquina do tempo, não é lugar para mulheres, é lugar das aventuras, onde homens inconsequentes fazem o que lhes é socialmente permitido, ou seja, tudo.

O problema referido pelo diretor tem um ponto de partida, que é o fim do primeiro filme. Na última cena, Dr. Brown aparece de repente com seu Delorean, surpreendendo Marty e Jennifer. Ele conta a Marty que é preciso voltar ao futuro porque algo ruim vai acontecer.

No início do segundo filme, o diretor precisou refilmar essa cena porque a atriz que interpretava Jennifer, Claudia Wells, por motivos pessoais, não pôde atuar na sequência. As partes dois e três foram gravadas, então, por Elizabeth Shue (o que a maioria das pessoas sequer chegou a reparar, dada a “insignificância” da personagem). Talvez tenha começado já aí, na necessidade de recriar o que já estava pronto, a representação de Jennifer, agora na pele de outra atriz, como problema.

Voltando à história, Jennifer embarca com os dois amigos para a aventura no futuro. O que poderia enriquecer o roteiro e dinamizar a trama narrativa, com a sua inclusão em um papel mais atuante, torna-se a fonte de todos os males. Ao invés de dar voz à personagem, o diretor a joga no pleno esquecimento. Em toda a película a participação de Jennifer passa despercebida, com poucas falas e nenhuma cena significativa.

Já no futuro, quando os três chegam ao ano de 2015, diante de carros voadores e de todo aquele universo futurista, a primeira imagem que vem à mente de Jennifer é o casamento com Marty. Então ela pergunta ao Dr. Brown se foi uma festa bonita e se volta a Marty e destaca que eles poderiam ver como tudo aconteceu, como era o vestido de noiva, onde moravam, se tinham crianças. Nesse momento, Dr. Brown utiliza um aparelho indutor de sono que faz Jennifer apagar instantaneamente.

Fica subentendido que Dr. Brown fez aquilo porque ela não era bem-vinda ali, fazia perguntas demais, fúteis, ou seja, estava “agindo como uma mulher” e isso atrapalharia a missão. Mas já que ela estava no carro e tinha viajado para o futuro, o que fazer? Bom, Jennifer já estava em sono profundo. A melhor opção encontrada, logo que chegam à cidade, foi deixá-la junto ao lixo dos prédios. Isso mesmo. E, quando se livram do impedimento feminino, os dois partem para salvar o dia.

No momento em que tudo parece resolvido, Marty e Dr. Brown voltam para resgatá-la. Só que já é tarde. Duas policiais a encontram dormindo, identificam a impressão digital (estranham a sua aparência jovial) e a levam para casa (seu lar no futuro). Jennifer desperta no interior do imóvel e logo percebe que continua em 2015. Nesse instante ela vê porta-retratos de seu casamento e fica indignada com o fato de ela e Marty terem contraído matrimônio na simples Capela do Amor. Na tentativa de sair da habitação, ela se encontra com a Jennifer do futuro, de 2015. As duas, então, proferem frases uma a outra. Uma diz “estou velha” e a outra “estou nova”. Ambas, após demonstrar interesse apenas em suas aparências, desmaiam com o choque.

Juntos novamente, Marty, Dr. Brown e Jennifer, ainda desmaiada, regressam para 1985. A primeira coisa que os dois protagonistas fazem é deixá-la na varanda de sua casa, sozinha, no meio da noite, dormindo num banco. Marty pergunta: “Nós vamos simplesmente deixá-la aqui na varanda?”. E Dr. Brown responde, com a firmeza de quem tem o respaldo científico por trás de suas decisões: “A desorientação ajudará a convencê-la de que foi tudo um sonho”. E é isso.

Nada justificaria, entretanto, deixar uma mulher ou qualquer outro ser humano largado no lixo ou na varanda. Só que é isso que acontece. Para piorar, trazendo mais perigo para a situação, eles não estão na verdadeira 1985, mas numa realidade paralela, uma versão sombria daquela. Nem mesmo isso faz Marty ou Dr. Brown se preocuparem em voltar para resgatá-la daquela varanda. Nesse ponto, outra linha narrativa é constituída, outras tramas são montadas e a resolução dessas questões se estenderá pelo terceiro filme.

Ao mesmo tempo, nada mais foi previsto para Jennifer, sua participação termina como começou, abruptamente, sem muito sentido, deixando sua ausência passar despercebida na uma hora e meia de filme que resta. A personagem retorna somente no fim do De volta para o futuro III, nas últimas cenas. Ela acorda no banco da varanda para dar um beijo em seu herói. A normalidade torna a presidir a ordem das coisas de 1985 e Jennifer volta a ser a namoradinha que não cria problemas no roteiro. Tudo resolvido. Fim da trilogia.

Mas e se a história fosse diferente, e se Jennifer fosse uma protagonista e participasse de fato das aventuras, e se tivesse liberdade para fazer o que lhe viesse na cabeça, e se saísse com o carro por aí, arrumando confusões e viajando pelo tempo? Ah, certamente lhe perguntariam se ela não teria mais o que fazer, como cuidar da casa ou do marido e dos filhos. Provavelmente atribuiriam todos os seus erros à sua condição de mulher, como quem diz no trânsito: “só podia ser mulher”. E os homens ficariam enfurecidos de ver seu espaço másculo ser invadido por alguém que usa saia.

Uma mulher como protagonista do “testosterônico” Mad Max causou furor entre os seres que se orgulham de sua virilidade a ponto de fazerem passeatas em favor dos direitos dos homens e do respeito de Hollywood aos valores tradicionais masculinos. Chegaram a organizar boicotes ao filme. O tiro saiu pela culatra. Tal atitude promoveu ainda mais a película e reacendeu debates sobre a condição da mulher na sociedade machista do século XXI.

Estamos em 2015, no futuro que foi representado no filme de Zemeckis. Enquanto a maioria das discussões trata apenas das diferenças tecnológicas entre o que apareceu no cinema e o que temos agora, objetivo chamar a atenção para as relações humanas, especificamente, para a questão da condição feminina. Jennifer Parker é a ilustração de como a imaginação desses cineastas hollywoodianos não ultrapassa as fronteiras do status quo viril.

E nós, por estarmos tão inseridos nessa lógica de produção e reprodução de valores machistas, escamoteados na inércia da natural ordem das coisas, nem nos damos conta do quão absurdo é boicotar um filme em decorrência de um protagonismo feminino. Ou, no caso do De volta para o futuro II, não perceber como a personagem Jennifer, pelo único fato de ser mulher, é colocada de modo tão insignificante na história, como é tratada com desprezo, como um objeto (sendo levada de lá para cá, inconsciente) e vista como um problema para o desenrolar da aventura inconsequente de dois homens livres.

Jennifer não fala por ela, indivíduo que pensa, age e deseja, mas sim por um grupo preconcebido. Está prisioneira em um papel que foi representado por sua mãe, por sua avó e pelas gerações que a antecederam. É refém de uma condição intransponível e cerceada, a de ser mulher numa sociedade machista. Antes de ser ela mesma, ela é mulher, é a namorada de Marty, é a futura esposa e mãe. Ela carrega consigo denominações que a estigmatizam e estereótipos que a conceituam e a petrificam no ponto máximo e mais relevante de sua existência: o matrimônio.

Uma das poucas curiosidades de Jennifer sobre o futuro é saber como foi sua festa de casamento. A personagem que quase não fala e quase não aparece, quando abre a boca, só conversa sobre isso ou sobre filhos, sua casa e sua aparência. No momento em que surge em cena, desmaia, demonstra fraqueza e dorme. Repare, ela desmaia porque viu a sua versão do futuro, mas Dr. Brown, Marty e mesmo o vilão Biff passam por situações parecidas e nenhum deles desfalece ou fica em choque. Além de ser frágil, Jennifer, por ser mulher, também é descartável: pode ser deixada em qualquer lugar ou ser induzida a dormir sem qualquer outra explicação a não ser a importunação feminina em assuntos de homem.

Por isso tudo, nós, como fãs da trilogia De volta para o futuro, precisamos nos lembrar de Jennifer, da personagem que, por ser mulher, tirou o sono dos criativos cineastas que inventaram carros voadores, máquinas fantásticas de todos os tipos, mas que não tiveram imaginação suficiente para construir um roteiro em que ela participasse da aventura junto com Dr. Brown e Marty e também fosse heroína. E tal relação contraditória e imperceptível aos nossos olhos machistas é a base do nosso pensamento sobre o futuro. Tudo se transforma ao nosso redor, menos as relações sociais, como a de gênero e a da noção conservadora e patriarcal de família.

Leonardo de Lucas da Silva Domingues

Leonardo de Lucas da Silva Domingues é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
[Visto no Brasil Acadêmico]

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