A separação do Brasil

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E não teve jeito. Com o clima de Fla-Flu que imperou na campanha... O jeito foi separar. Serra: "Consenso de Serranos? Gostei!"...

E não teve jeito. Com o clima de Fla-Flu que imperou na campanha... O jeito foi separar.

Serra: "Consenso de Serranos? Gostei!"
Apesar da união nacional mantida a duras penas por D. João VI e mais recentemente por Getúlio Vargas, o que pode ter acelerado o fim de sua vida, dessa vez não teve como evitar a bissecção brasileira.

Depois de truculentas batalhas no Facebook, ácidas trocas de acusações no "Zapzap" e tuítes envenenados durante meses. Os dois lados chegaram a um acordo e resolveram separar as escovas. Anti-petistas e pró-bolsas sentaram-se à mesa de negociação para chegarem a um acordo e dividir os bens.

A divisão política apartou os brasileiros de tal monta que nem na mesma família houve acordo: O homem votou no homem e a mulher na mulher. O negro votou na búlgara e o branco no playboy. O rico votou no rico, e o pobre votou na esquerda. O norte votou em um e o sul no outro. E parece que quanto mais o povo conhecia profundamente o candidato, mais tendia a votar no outro.

Em quem votaria a mulher negra rica que mora no sul? São tantas as combinações que o eleitor tinha tudo para ficar indeciso. Talvez o mais fácil seria não votar em ninguém e deixar a eleição nas mãos dos convictos. Pois ninguém parecia bom o bastante e por mais que os marqueteiros os maquiassem, a real escolha recaia em selecionar o menos ruim.

Contudo o ódio de ambos os lados crescia em medida inversamente proporcional ao nível do debate e diretamente proporcional ao número de ataques pessoais.

Pois foi após muita troca de mensagem via SMS pré-pago, insultos pelo Skype e até usando o Tinder, que as partes envolvidas resolveram que não poderiam negociar em um município onde um dos lados prevalecesse. Uma vez que a cizânia estava muito acirrada (uma das poucas coisas que ambas concordavam). Ficou decidido então que o local para a discussão da partilha seria no município de Serranos, ao sul de Minas Gerais, palco para o que será conhecido no futuro como o Consenso de Serranos (conforme acertado pela mídia panfletária). Município onde Aécio teve apenas dois votos a mais que Dilma, no estado que Aécio foi governador bem avaliado, e mesmo assim perdeu para presidente da república, todavia cercado por municípios Dilmenses, exceto no Norte e Nordeste de seus limites, o que representa o oposto do ocorrido em Minas em relação ao Brasil como um todo. Entendeu? Não? Nem eu. Mas não se preocupe. Mas foi tudo meticulosamente estudado por cientistas políticos e analistas de marketing de ambos os lados.

Não. Não foi fácil acolher todos esses simbolismos. Principalmente porque simbolismos são muito mais favoráveis a Aécio, por ser de ordem maçônica, fraternidade a qual nem sequer aceita mulheres em suas tradicionais fileiras (o que impossibilitaria que a adversária tivesse a oportunidade de também tomar parte). Em contrapartida a Igreja Católica tradicional, que ainda tem certa apreensão contra certas fraternidades deísticas, e uma maior tolerância com neo-marxistas nessa era pós-Bento XVI, é muito forte no município. E essa nova fase progressista foi decisiva para houvesse acordo na escolha do local.

Quem dera fosse esse o maior dos problemas. Quem dera. Pois foi após muito debate e negociação - processo acusado de ser assembleista pelo tucanato, o que, em tese, favoreceria os trabalhistas - que também decidiu-se que o melhor seria dividir a pátria mãe de acordo com o resultado presidencial das unidades federativas como um todo ao final do segundo turno. Cogitou-se até uma divisão pela votação município a município. Mas diante da complexidade de separar as grandes áreas onde penetraram os partidários de Aécio no Pará, Mato Grosso e Rondônia (estados majoritariamente pró-Dilma) e das grandes áreas municipais votantes no PT nos estados do sul - em especial, do Rio Grande do Sul - unidades federativas onde o PSDB ganhou, ficou resolvido que a única forma minimamente viável seria acolher as unidades da federação como um todo.



Dessa forma, parecia que a divisão ficaria mais fácil. Ledo engano. Onde enfiar o tucano estado do Espírito Santo? Caprichosa e capixabamente isolado pelos petistas Rio e Minas? E Roraima? E o Acre? Bem. No caso do Acre cogitou-se até a devolvê-lo para os bolivianos (o que também colocaria fim a uma reclamação diplomaticamente chata de seu presidente, Evo Morales, segundo o qual o antigo Brasil imperialista e unido forçara trocá-lo por um cavalo) mas logo a hipótese da devolução foi descartada pelos brasileiros (e também pelos bolivianos).

Houve longas trocas de acusações onde se teve de tudo: Desde acusações de ingratidão dos povos do norte (especialmente os indígenas, o que acabou gerando outras acusações de discriminação entre os nortenses) e denúncias de discriminação por parte dos habitantes do sul, até ameaça de aumento nas tarifas do uso dos mineriodutos que partem de Belo Horizonte e vão até Vitória/ES. Aí as mineradoras fizeram valer seu lobby e ficou combinado de termos um referendo em 2115 para ver em qual metade cada um desses estados irão pertencer em definitivo.

Mesmo com toda essa desarmonia, nada foi mais indigesto do que a escolha dos nomes. Isso por que os PSDBistas quiseram colocar o nome da parte sul de Brasil Real. Aí houve resistência interna por parte de alguns correligionários de outros partidos que, apesar de serem anti-petistas, não quiseram ter o nome do novo país associado ao plano econômico cuja a imagem ficou associada ao PSDB. O PSDB se defendeu dizendo que foi pura coincidência. O que eles pretendiam era manter o sufixo da web. O ".br". Aí os pró-Dilma chiaram pois iriam gastar muito até promoverem todos os sites do novo país. Mas também tiveram problemas quando sugeriram "Brasil do Bolsa" (com sufixo ".bb" e um bebê como símbolo oficial) ou "Brasil dos Trabalhadores". Mas um nome que quase emplacou foi "Brasil do B". Porém, uma crítica do FHC, dizendo que esse nome era a maior prova de que o PT era sectário, fez com que o título fosse descartado. Dizem que por preguiça dos dirigentes do partido em olhar o que significava "sectário", logo desmentido por ninguém menos que Chico Buarque de Holanda (cujo nome já lembra um dicionário) um pouco antes de fundar o PMPB, junto com o velho baiano, Caetano.

Usar como critério para a escolha do nome do novo país a sua eventual sigla sufixal se mostrou um enorme desafio. Barbados já lembrou que o ."bb" é deles. Ninguém toma o ".bt" do Butão. Podem esquecer Brasil do Norte e Brasil do Sul, se depender do Brunei Darussalam (".bn") e das Bahamas (".bs"). Bermudas também assinalou que .bm não estaria disponível para um eventual Brasil Meridional. O PCB e PCdoB lembraram que o ".bc" estava disponível. Mas a sugestão foi logo descartada mostrando a tradição da desunião das esquerdas.

A CUT sugeriu ".bu", mas os outros dilmistas disseram que a sigla lembraria vaias, que remeteriam a incômodas reações em certos estádios. Até o Eike Batista, que andava meio sumido, resolveu sugerir a adoção do ".bx". Sua proposta nem sequer foi analisada. Uma consulta popular pela internet, liderada pelos mineiros, acabou chegando ao nome Brasil do
Queijo. Tal resultado parece ter enfurecido o candidato Aécio e levou um dos Bolsonaros a ironizar: "Democracia demais resulta nessa 'beleza'."

Teste da bailarina: Se você vê a bailarina (centro) girando para direita,
você deve morar no Aecistão. Caso contrário, você deve habitar o Dilmistão.
(Dizem que os PMDBistas vêem a bailarina parada. Mas os Mythbusters
já descobriram que na verdade tais pessoas tem o dom
de vê-la girando para os dois lados. SIMULTANEAMENTE!
 [Imagem retirada de escrina.blogspot.com]
Foi nesse momento que o PMDB, surpreendentemente unido e coeso, fez uma declaração oficial: "Estão mexendo no meu queijo! Não deviam mexer em time que está ganhando." E resignado mas como sempre, resiliente, propôs se dividir em dois sub-partidos: O "PM", aderente ao sul, e o "DB", que iria participar de um governo de coalisão ligado ao norte.

As coisas não estavam muito melhores para os sulistas e sudestinos (assim chamados apesar de Minas e Rio estarem com Dilma). Sem muitas letras disponíveis, o alto tucanato contratou um especialista em marketing que após um Brainstorm entre as socialites paulistanas (sem participação de populares e com a cobertura especial de Amaury Jr.) O primeiro nome a surgir foi South Brazil, descartado por ".sb" já pertencer às Ilhas Salomão. A cúpula tucana, acabou fechando um entendimento que iria pegar o sufixo ".bp", sugerido pelos gaúchos (que tentavam emplacar o nome "Brasil dos Pampas") e decretou "Brasil Paulista" o nome oficial do novo país. Um senador partidário do Brasil Paulista ainda declarou: "Lembra também British Petroleum, o que pode angariar simpatia de investidores externos na hora de privatizar a exploração da costa capixaba."

Logo, Lula afinetou: "Falta de assembleias, dá nisso!"

Curiosamente, os mais unidos nesse momento histórico difícil e de angustiantes mudanças foram alguns dos fundadores dos partidos envolvidos que debandaram para o outro lado por acharem que as legendas traíram as plataformas originais. Todos eram unânimes em declarar que ambos os lados estavam cada vez mais parecidos.

Após a divisão, o New York Times levou 6 meses para perceber e noticiar com uma nota de rodapé na seção de classificados.

São problemas bobos transformados em tempestades que mal ocupariam um pires d´água? Sim. Talvez. Mas, o que se pode esperar de uma revolução feita às pressas nas mídias sociais? Montagens e memes infestando as redes a ponto de deixar a própria web mais lenta entre curtidas sem muita reflexão e Kkkkk´s. O ideal seria acordar e pensar que tudo isso não passou de um pesadelo motivado pelo efeito colateral do excesso de pururuca regada a energético misturado com álcool na balada da noite anterior. Que nosso país continua grande, forte e com uma enorme diversidade cultural e ambiental. Onde o pantaneiro escuta sertanejo universitário e o manauara ouve hip-hop. Ambos em português. Onde o potiguar vê apresentações de catira e o catarinense aprende a jogar capoeira. Onde o candango assiste o Flamengo enfrentar o Santos em pleno Estádio Nacional. Tudo sem precisar mostrar passaportes ou embaraços alfandegários.

Que todos possam se desenvolver nas cercanias onde nasceu e, se migrarem, que seja por motivos mais próximos aos fatores do topo da pirâmide de Maslow. E que jamais percamos nossa principal característica: a imensa capacidade de se miscigenar e a tolerância entre os desiguais. Um dos maiores desafios do século até mesmo das nações ditas mais civilizadas.

Alexandre Gomes

Fonte: Brasil Acadêmico  [Via BBA]

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Brasil Acadêmico: A separação do Brasil
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