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Millôr por Millôr

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Avesso à popularidade mas afeito à notoriedade, Millôr, cujo nome ficou esse por um erro na hora de registrar o nome Milton, era um intelect...

Avesso à popularidade mas afeito à notoriedade, Millôr, cujo nome ficou esse por um erro na hora de registrar o nome Milton, era um intelectual nada fácil de classificar: era cartunista, escritor, dramaturgo e atleta. E reivindicava para si a invenção do frescobol. Nem bem nos despedimos de Chico Anysio e vem essa nova perda do humor inteligente. Nessa entrevista de 1989 podemos ver um pouco de Millôr por Millôr. Ao final, biografia dele por ele mesmo. Curta nossa homenagem.

Ex-colunista da revista Veja: "Eu saí da Veja porque eu sou mais antigo do que a Veja, eu sou mais importante do que a Veja." 


Augusto Nunes: Boa noite. Começa aqui mais uma Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Millôr Fernandes é conhecido como um dos grandes humoristas que o Brasil já conheceu. Mas ele também tem várias outras atividades. Millôr Fernandes é jornalista há muito tempo né, Millôr?

Entrevista ao Roda Viva - Parte 1


Millôr Fernandes: Mais do que eu gostaria.

Augusto Nunes: Mais do que gostaria! [risos]

Millôr Fernandes: Eu tenho na carteira de identidade, porque as pessoas dizem que são isso ou aquilo e não apresentam os fatos. Eu mato a cobra e - com licença da expressão - mostro o pau. Mas na minha carteira está anotado o dia 18 de março de 1938. Eu era um menino de treze anos e, quando anotaram na carteira, seis meses depois, eu voltei e fiz com que anotassem no dia que eu entrei. Começavam aí as minhas reivindicações trabalhistas que felizmente não pararam até agora.



Augusto Nunes: Das quais vamos falar durante este programa. Millôr Fernandes é também autor de peças de teatro, tradutor, é artista plástico, é escritor e tudo somado, embora talvez o Millôr não goste dessa definição, porque tem o saudável hábito de se olhar com ironia, Millôr é um pensador e um dos mais notáveis pensadores deste país. Para conhecer um pouco mais de perto Millôr Fernandes que tem uma coluna, um quadrado diário no Jornal do Brasil e colabora semanalmente com a revista Isto É, nós convidamos os seguintes entrevistadores: Ivan Ângelo, escritor e editor-chefe do Jornal da Tarde; Marta Góes, subeditora do Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo; Léo Gilson Ribeiro, crítico literário e jornalista do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde; Ethevaldo Dias, editor regional da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília; o jornalista Ruy Castro; Casemiro Xavier de Mendonça Xavier de Mendonça, crítico de arte e curador da exposição Jogo de Memória - falaremos da exposição também ao longo do programa; Cora Rónai, jornalista do Caderno B do Jornal do Brasil no Rio de Janeiro e Maurício Kubrusly, jornalista da TV Globo. Também estará conosco registrando algumas cenas, alguns momentos deste programa, o cartunista Paulo Caruso. Agradecemos também a presença entre nós dos convidados da produção do Roda Viva. Millôr, você, no dia 06 de abril de 85, portanto há quase quatro anos, publicou a seguinte frase no seu quadrado do Jornal do Brasil: “Governo Sarney: já se começa a ver a escuridão no fim do túnel”. Frase sua. Já lhe atribuem muitas frases, como você diz, que não são exatamente da sua autoria, essa é?

Millôr Fernandes: Acredito que sim.

Fonte: G1

Augusto Nunes: Pois é. [risos] Você agora, com uma campanha presidencial em curso e com os candidatos que estão por aí, você está vendo algum sinal de luz no fim do túnel ou a escuridão continua?

Millôr Fernandes: Olha, tem menos escuridão do que havia, mas na verdade, quando a claridade se fez um pouco, você viu que não só do outro lado havia uma bruta esculhambação, como havia uma decadência precoce no país e uma quase impossibilidade de se reerguer daquele local em que estava, porque nós descobrimos que, ao se levantar a escuridão, nós estávamos num pantanal, não o de Mato Grosso, [...] para empregar uma palavra mais solene, se me permite meu amigo Léo Gilson. Agora, eu acho que nós tivemos uma oportunidade que foi a oportunidade das Diretas Já. Essa oportunidade desapareceu por uma questão da qual nós somos muito vítimas no Brasil, são questões metafísicas, de como uma pessoa abúlica [indiferente, sem vontade] sem nenhum valor, sem nenhum sentido ético, sem nenhum critério intelectual, sem sequer nenhuma educação, não-alfabetizado - eu considero não-alfabetizado apenas aquela pessoa que não aprendeu a linguagem do seu grupo - como o Sarney, que eu chamo usurpador metafísico, chegou a esse posto, e como ele é abúlico, ele é patologicamente abúlico, um homem doente, um homem que não consegue formular uma frase, ele não consegue juntar sujeito, verbo e predicado. E isso não é uma brincadeira, quando você fala isso...

Augusto Nunes: Você analisou inclusive um livro dele, fez uma crítica bastante profunda de uma das obras do presidente Sarney, não foi?

Millôr Fernandes: Eu fiz isso?

Augusto Nunes : Você não escreveu sobre o livro do Sarney?

Millôr Fernandes: Não, isso é maldade dos meus inimigos, eu apenas escrevi uns 30 artigos, analisando umas três ou quatro páginas do livro dele e me cansei. Porque eu tenho a impressão de que aquilo daria umas 800 páginas de críticas que realmente seriam consideradas - mais uma vez com licença do meu amigo Léo Gilson - as maiores páginas da crítica brasileira, pelo riso, não pela profundidade. [risos] Mas eu acho que o Sarney, veja bem, eu vou concluir. Quem não consegue fazer uma frase com sentido, não consegue que essa frase combine com a segunda frase, e evidentemente não consegue formar um período. Como é que você, sem nenhuma brincadeira, espera que uma pessoa, com essa absoluta incapacidade, seja coerente com o dia seguinte? Ele não tem a menor noção do que está acontecendo. Ele se agarra a um fisiologismo muito peculiar, não estou fazendo pouco do Nordeste não, mas muito peculiar ao Nordeste, embora seja natural de todo o Brasil, é um tipo de fisiologismo... Até há pouco tempo no Jornal do Brasil uma moça levantou essa questão de um ponto de vista social mais bem estudado do que eu, mas é um tipo de fisiologia que significa o seguinte: por parte do povo, quem ganha tem todo o direito, quem ganha conquistou a chácara, quem ganha pode nomear quem quiser. E no Maranhão, quando eu fiz a crítica do livro, consultei inúmeros antropólogos para a questão indígena, eu não faço aquela coisa gratuitamente, e comecei telefonar para muitos antropólogos do Brasil, uma porção deles falou comigo e me esclareceram, e uma das tônicas do fisiologismo maranhense é a seguinte: “Ele é um homem admirável porque conquistou o poder”, e portanto se ele não fizer dos filhos, da mãe, e da mulher, todos os parentes e todos os apaniguados, ele é um fracassado.

Augusto Nunes: Ruy Castro.

Ruy Castro: Millôr, você teria coragem de repetir, este ano, o voto naquele candidato que você deu em 60, o Jânio Quadros?

Millôr Fernandes: Eu vou esperar porque eu estou entre o Jânio Quadros e [Ronaldo] Caiado [político ostensivamente de direita, ligado aos movimentos dos grandes latifundiários brasileiros], eu ainda não decidi em qual dos dois eu vou votar, pode ser que o Caiado se apresente realmente como um candidato mais à esquerda do que o Jânio, entendeu? Então, eu votarei nele. Dificilmente eu votarei no Brizola, já digo de cara.

Ivan Ângelo: Millôr, aqui. Para o humorista, quem é o melhor prato, Sarney ou [João Batista de Oliveira] Figueiredo [(1918-1999), foi presidente durante o regime militar, e cunhou uma frase famosa sobre preferências por cavalos em relação a pessoas]?

Millôr Fernandes: Não há comparação, não há comparação. A coisa é muito ocasional. Nós, eu acredito que todos os humoristas ou todos os escritores e todos os jornalistas, sejam movidos por um fator momentâneo. O livro do Sarney, por exemplo, eu era dos poucos que tinha lido o livro entre os intelectuais, e até notei uma porção de anomalias no livro. Um dia a Cora chegou do Jornal do Brasil e disse assim: “Olha aqui - eu vou até revelar essa intimidade aqui - o Augusto Nunes disse que se você não vai escrever aquilo, ele vai escrever”. Eu disse: “não, eu vou escrever”, e aí eu comecei a analisar... [risos] Mas é um fator ocasional. Eu não sabia, quando eu li o livro, eu percebi que é uma idiotice. Agora, depois que eu analisei o livro, eu vi que realmente não tinha o menor sentido.

Léo Gilson Ribeiro: Você dá licença.

Augusto Nunes: Léo Gilson.

Léo Gilson Ribeiro: Há uma dissidência, digamos assim. Existe, o Millôr [confundindo os nomes Sarney e Millôr] que é o [...], o trapalhão da política, ele se imagina um grande estadista, abençoado pelo crucifixo da dona Kiola [Ferreira de Araújo Costa, mãe de José Sarney], certo? Agora, o Millôr do norte, das águas, ele, como muito primário ainda, muito primata, mas ele tinha uma possibilidade, à parte da política, ele tinha uma possibilidade, creio eu, de criar uma...

Augusto Nunes: Está falando do Sarney, né?

Léo Gilson Ribeiro: Sarney escritor.

Augusto Nunes: Pois é, mas você disse Millôr. [risos]

Léo Gilson Ribeiro: A presença! É a presença.

Millôr Fernandes: Ele disse duas vezes, eu percebi na superposição de imagens que ele estava certo. [risos].

Léo Gilson Ribeiro: Desculpe Millôr, eu sou um grande admirador de você, eu acho você um Woody Allen [(1935-), comediante, ator, roteirista, diretor de cinema e músico americano, é reconhecido como um dos maiores cineastas contemporâneos] do Brasil! Então...

Millôr Fernandes: Fisicamente, você quer dizer? [risos]

Léo Gilson Ribeiro: Não, intelectualmente. Na sua visão do Rio de Janeiro, da praça General Osório que eu conheço, é a Manhattam do Woody Allen. E também, digamos assim, o aparente caos da vida, no entanto visto sob um ponto humorístico. Agora, o Sarney, há três Sarneys, ou quatro ou cinco. O Sarney literato era um homem que, se ele se dedicasse, talvez pudesse escrever uma literatura regionalista, não sei se menor ou maior, mas de uma certa validez. Ele não seria um Guimarães Rosa nem um Ariano Suassuna, mas diante dos nordestinos, inclusive alguns que têm maravilhosos apartamentos em Roma, né, como Josué Montello [(1917-2006), historiador, escritor, e teatrólogo maranhense, cuja obra mais conhecida é Tambores de São Luís] que ganha uma fortuna, porque são nordestinos, eu achava que por exemplo - vamos ser, tento eu, sincero - o Millôr Fernandes tentou ser um estadista.

Augusto Nunes: O José Sarney, Léo Gilson! Qual é a pergunta? [risos]

Léo Gilson Ribeiro: Perdão. O Sarney tentou ser um estadista unindo os países e fazendo um turismo que permitiu ao [Antonio] Paes de Andrade [(1927-), político cearense eleito presidente da Câmara dos Deputados em 1989 quando, aproveitando-se do cargo, usou o avião do governo para ir a sua cidade natal] ir até Mombaça [cidade do estado do Ceará] com aquele horror que nós todos vivemos, né.

Millôr Fernandes: Mombaceiros e mombacistas...

Léo Gilson: Agora, por outro lado, ele é muito preso pela dona Kiola, que a dona Kiola abençoa tanto o Dom Eugênio [de Araújo] Sales [(1920-), arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro], que é a "inquisição brasileira", que quer os homossexuais todos na fogueira, como ele também abençoa o arcebispo [faz o sinal da cruz] daqui de São Paulo, o Dom [Paulo] Evaristo Arns [(1921-), arcebispo emérito de São Paulo], que é a bondosa...

Augusto Nunes: Léo, desculpe lhe apressar, mas queria que fizesse a pergunta.

Léo Gilson Ribeiro: Ele abençoa também. O Sarney errou de profissão, porque ele podia ficar só na literatura e talvez saísse alguma coisa. Agora, este "Hamlet com o acordeon" que é o PMDB, que tem Miguel Arraes [(1916-2005), político cearense, ligado originalmente a movimentos socialistas rurais, foi deputado e governador de Pernambuco], que tem o Waldir Pires, que tem [Orestes] Quércia [(1938-), governou o estado de São Paulo de 1987 a 1991], que tem tudo mais, ele se aproveitou de um maquiavelismo político, e graças a Deus, eu não vi o Maribondos de fogo [livro de poemas de José Sarney, publicado em 1978], porque eu poderia ser atacado por ele. Agora, eu não tive nenhuma intenção de adulá-lo, entende? Eu achei que ele, como meramente escritor, poderia ser - desculpe a palavra - entre aspas, promissor. Agora, como estadista e como... como é que se diz? Governante, ele é um absoluto fracasso. Ele é o fisiologismo nordestino do interior do Crato e de Cajazeiras [cidades do Ceará].

Millôr Fernandes: E Calhal.

Léo Gilson Ribeiro: E nós estamos na República de Curupuco.

Augusto Nunes: Léo, a pergunta?

Léo Gilson Ribeiro: Tá bom.

Augusto Nunes: Só queria fazer essa observação?

Léo Gilson Ribeiro: Só isso.

Augusto Nunes: Millôr, quer comentar? Seguimos com a Roda.

Millôr Fernandes: Eu quero comentar essa digressão. Quanto tempo eu devo falar cada vez? Eu posso falar o que você quiser, meio minuto, uma frase...

Augusto Nunes: A gente vai te cortando. As respostas tão curtas tanto possível.

Millôr Fernandes: Essa digressão do Sarney que ele... [risos] a respeito da obra do Guimarães Rosa, se deve ao seguinte... Eu sou velho amigo do Léo Gilson, que é um homem finíssimo, que tem o defeito de ter sido educado em [Universidade de] Heidelberg [Alemanha], estudado nos Estados Unidos, feito onze anos de cúria em Roma, tendo vivido em todas as partes do mundo. E acontece que o Léo Gilson, como outros grandes escritores dessa praça - mas ele é o maior crítico - [“Muito obrigado”, responde Léo Gilson] fez uma pequena insinuação, bem pequena, elogiosa ao livro, e acredito que tenha lido apressadamente, jamais, eu tenho em mim a suposição de que você estivesse laudando...

Léo Gilson Ribeiro: Não, nenhum interesse político.

Millôr Fernandes: E foi de passagem, eu disse apenas: “estão me enganando”. E botei este nome: “estão querendo me enganar”. E foi isso que eu falei. Agora não concordo com você a respeito do livro porque eu analisei mesmo o livro, e ele é tautológico. E, curiosamente, eu vou fazer aqui uma revelação. Meu Deus do céu, eu não queria fazer isso! Queria que a vida me evitasse fazer essa revelação, mas Maribondos de fogo é melhor, curiosamente Maribondos de fogo é legível.

Augusto Nunes: Legível?

Millôr Fernandes: Legível.

Augusto Nunes: Ethevaldo Dias.

Ethevaldo Dias: Primeiro, observação para o Léo. O presidente Sarney sempre disse que depois da sua crítica se animou e escreveu mais... [risos] A culpa é do Léo! Agora, Millôr, é o seguinte, você é bem cáustico em relação ao presidente Sarney, bastante crítico em relação ao poder em geral, mas trata muito bem ao Zé Aparecido [José Aparecido de Oliveira (1929-2007), foi ministro da Cultura (1988-1990) durante o governo Sarney, deputado federal e governador (1985-1988) do Distrito Federal], por quê? É porque você acha que ele é bom ministro ou é teu amigo?

Millôr Fernandes: Onde eu tratei bem o Zé Aparecido?

Ethevaldo Dias: Você não trata mal. Porque você se lembra do que fez com Aloísio Pimenta [(1923-), ministro da Cultura (1985-1988), no governo Sarney], por exemplo.

Millôr Fernandes: Você sabe da minha relação com Brasília, eu não vou à Brasília porque a relação pessoal é um ato de conivência imediata, imediata! Uma vez, há pouco tempo, eu estava conversando com um amigo meu, da minha geração, que é, sem dúvida nenhuma, um dos piores caracteres que eu conheço, em todos os sentidos, no sentido pessoal e no sentido social. E eu disse para ele: “que coisa curiosa o compromisso generacional”. É preciso que você faça uma coisa publicamente muito violenta para que eu te ataque. E você conhece Brasília melhor do que eu. Por que Brasília é o maior erro que se cometeu no Brasil? Por causa disso, porque Brasília é o centro da política, e não é Washington não, não vamos falar de política de Washington, não existe nada semelhante como “bunker social” igual a Brasília. As três vezes que eu fui à Brasília, a pessoa mais inferior a que eu fui apresentado foi um assessor. Eu nunca vi um contínuo, nunca vi um varredor, eu nunca vi um crioulo. A não ser a crioula que você citou, mas não parece que haja crioulo na [...] em Brasília.

Léo Gilson Ribeiro: Você não conversou com a Roseana [Sarney, filha do ex-presidente José Sarney, é conhecida como “A dama de ferro do Nordeste”, foi governadora do Maranhão de 1995 a 2002 pelo PFL]?

Millôr Fernandes: É o que eu gostaria muito, mas infelizmente essas coisas não acontecem comigo, me deram o [Jorge] Murad [marido de Roseana].

Léo Gilson Ribeiro: Ele é o novo Sarney [referindo-se à Murad].

Millôr Fernandes: Deixa eu concluir, então, meu caso. Veja bem, eu não sou amigo de políticos, mas não sou um calvinista, eu não vou abandonar os meus amigos que já estavam na política antes que assumissem o poder. No caso do Zé Aparecido, eu já dei três ou quatro recados a ele que você não reparou, recados. Evidentemente é preciso que ele esteja na minha alça de mira para que eu, de repente, o ataque. Mas você não me vê, você pode me condenar por uma ocasional omissão, mas você não vai me condenar por elogiá-lo.

Augusto Nunes: Marta Góes, e a gente completa a Roda.

Marta Góes: Eu queria mudar um pouquinho aqui de assunto. Eu queria saber qual sua política para sua secretária eletrônica. Eu queria saber que tipos de recados você certamente não devolve, e quem é que tem alguma esperança ali quando liga?

Millôr Fernandes: Eu sou do tempo do answering service, que tinha aquele canadense que controlava. E era muito curioso porque era atendido por criaturas humanas e as criaturas humanas são falhas no outro sentido do computador, da máquina, da máquina da secretária. As mocinhas ficavam logo íntimas, privilégio da mulher, e se fossem mocinhos, não poderiam ficar íntimos das estrelas, mas as mocinhas ficavam: “Ô, Millôr, Millôr para cá”. E de repente telefonava à Marta [Góes] e telefonava à Cora [Rónai], e telefonava à Marta, e telefonava à Cora, e daqui a pouco telefonava à Cora, eu dizia: “Oi, dona Marta, como vai a senhora?” [risos] Então, eu preferia a secretária eletrônica assim que apareceu. No início, usava recado normal, dizia “isto é uma gravação”, porque as pessoas não sabiam o que era gravação. Eu acabei um dia eliminando tudo porque ou as pessoas sabem o que é isso, da minha roda, ou não sabem. O cara que não sabe o que é secretária eletrônica não me telefone. E então dizia assim: “deixe recado”. Mas aí achei que não dava nem tempo da pessoa responder. Hoje está mais breve do que possível que são onze segundos para uma fita de trinta segundos, sobram dezenove segundos para a pessoa dar o recado. Olha aqui: eu leio para vocês os dez mandamentos em onze segundos.

Augusto Nunes: Qual a percentagem de respostas?

Marta Góes: É, eu queria saber quais as que você responde.

Augusto Nunes: Você responde quantos, em dez recados, quantos são respondidos?

Millôr Fernandes: Das pessoas desconhecidas, nenhum. Olha, quando eu apoiei o Brizola em 82, por instância das pessoas - não por ele, que ele jamais telefonaria para ninguém - ele telefonou umas três vezes, eu não atendi. Não há possibilidade de enturmar, eu não quero enturmar, não tenho nada para falar com ele. Eu sou livre atirador. Então, essas pessoas eu não atendo, ninguém, a não ser que você me telefone, você algum instante: “Millôr, atende aí”. Aí eu atendo. Os neutros eu não atendo nunca, e os muito íntimos, às vezes, eu não atendo. Minha dileta amiga Fernanda Montenegro [atriz brasileira], se ela telefona, nós vamos falar meia hora, então, às vezes, eu não atendo e depois eu ligo e falamos meia hora.

Augusto Nunes: Cora.

Cora Rónai: Vou voltar para uma outra máquina porque eu acho que a coisa excepcional aqui é a gente estar com Millôr na televisão, que é uma coisa que acontece pouquíssimo. Então, eu queria que o Millôr falasse pra gente da postura dele em relação à televisão porque o Millôr não dá entrevistas, e isso é uma coisa excepcional num intelectual. Eu gostaria que ele explicasse por que ele não costuma dar entrevistas, e depois gostaria que ele nos dissesse o que ele acha da televisão brasileira como um todo.

Millôr Fernandes: Eu acho a televisão um meio de divulgação desagradável para mim porque eu quero ser conhecido pelas pessoas que eu conheço, e não quero [ser conhecido] pelas pessoas que eu não conheço. Eu não quero o crioulo do Flamengo cutucando a minha barriga: “Cara, eu te vi lá”. Aí eu sou elitista, eu quero ser conhecido pelo Augusto Nunes e pelo Ruy Castro. Olha, eu fui com o Walmor Chagas [(1931-), ator e diretor de cinema e televisão]...

Cora Rónai: E Wolf Maya [(1951-), ator e diretor de cinema e televisão], também.

Millôr Fernandes: Fui com o Walmor Chagas para ver lá a festa em Pernambuco lá, a festa do Senhor..., como é que se chama a festa?

Cora Rónai: Nova Jerusalém.

Millôr Fernandes: Nova Jerusalém. É um terror, porque você passa em todo o Brasil, e o homem não pode andar, para quê isso? Eu acho a popularidade uma coisa extremamente vulgar - outra coisa elitista - mas extremamente vulgar, eu não quero ser conhecido na rua. É uma coisa terrível. Uma hora nós deixamos a Feira de Caruaru, ele dentro do carro, porque ele não podia sair, e fomos percorrer a Feira de Caruaru. Quando voltamos, tinha uma multidão de moscas em cima dele olhando pro Walmor dentro do carro. Quando nós chegamos àquelas casinhas que eles alugam para gente ficar de noite, em Nova Jerusalém, vieram três pessoas falar comigo, isso me deixa profundamente satisfeito: era um advogado local, um médico local e jornalista local. Eu falava com essas pessoas porque eles me conheciam, queriam falar com Millôr Fernandes e não com uma entidade vaga que o cara viu e achou bonitinho. Essa coisa não me interessa em absoluto, por isso não me interessa ir à televisão. Segundo, eu sou um profissional, por que todo mundo que trabalha na televisão ganha e eu não hei de ganhar? Por que a televisão quando convida um cantor de terceira ordem sugere imediatamente um cachê? E quando convida um intelectual, porque o intelectual é idiota no Brasil, todo intelectual no Brasil é idiota! [risos] Porque senão estaríamos ganhando muito mais dinheiro; você estaria ganhando dez vezes mais do que eu ganho e o salário mínimo seria o que eu ganho. Mas muito bem, então eu estabeleci, de repente, eu descobri uma fórmula de não ir mais à televisão. Telefona e eu converso... E num outro dia foi com o Osmar Cruz que tem um programa aí, telefonei para ele e disse: “mas tem cachê” [Marta Góes ratifica “Osmar Santos”]. E ele: “Mas você cobra”? Eu disse: “você não cobra pelo seu trabalho, por que eu não cobro pelo meu”? Ele disse: “Quanto é”? Respondi: “dez mil dólares”. Ele disse: “Você está brincando”! “Como está brincando, é o meu preço”! “Mas não podemos pagar”. “Problema seu”. Ele disse: “Tá bom, até logo”. “Quando quiser estou aqui, qualquer hora, esteja aqui!” [risos] Agora, no momento em que eu recebesse dinheiro para ir à televisão, o que significa? Ninguém pode me acusar mais de ser vaidoso, não estou indo pela minha vaidade, não estou indo para me mostrar, estou indo porque é meu trabalho, as pessoas querem saber minhas idéias, querem saber minhas gracinhas ou querem conhecer minha cara!

Augusto Nunes: O cachê aqui chegou a dez mil dólares? Estamos todos de olho.

Millôr Fernandes: Aqui, isso se deve basicamente à influência do doutor Casemiro Xavier de Mendonça, que está aqui presente neste momento, à dona Cora influenciada pelo Casemiro Xavier de Mendonça, e à figura extraordinariamente simpática e respeitável do ponto de vista intelectual que controla os trabalhos. [risos] Agora, quanto à televisão brasileira, ela ainda é muito ruim. Porque você pega a TV Educativa, por exemplo, eu espero que esta seja melhor, que eu não conheço, mas a TV Educativa já tem um ranço de educativa, a palavra educativa já acabou com qualquer charme que uma TV possa ter, ou cultural, acaba com qualquer charme. Agora, elas são em geral culturais no pior sentido que você possa querer. É uma coisa didática melhor [fala denotando desprezo, desdém], é uma coisa melhor... E se a gente fala de nepotismo no Brasil, não existe maior nepotismo do que nesses lugares, porque aí a prima do tio que fica ali, e de repente você vê aquela mulher que começou há vinte anos, mocinha, já está uma velhusca... Olha, tem programas que eu vejo - uma coisa é você ser descontraído na televisão, em que as pessoas estão tão descontraídas - que eu só vejo o interrogador coçar o saco daqui a pouco. [risos] É um descontraimento absurdo, e não vão nem com a idéia de coisa nenhuma, sem falar no mercantilismo que invade a televisão. Quando querem dizer pra gente que a novela é uma coisa que engrandece ou que acresce alguma coisa a qualquer coisa espiritual, estão brincando comigo. Porque se você pegar, por exemplo, o cinema, mesmo sendo cinema industrial, o cinema que joga milhões de dólares feito o cinema de um [Francis Ford] Coppola [(1939-), famoso cineasta americano], feito o cinema, sei lá, de [Steven] Spielberg [(1946-), aclamado diretor e produtor americano], o cara quando vai fazer aquele cinema, ele quer fazer melhor, ele vai fazer o melhor mesmo. Na televisão é mentira, os caras vão vender aquela coisa e todos se corrompem, o escritor se corrompe, o câmera se corrompe. Eu vi um escritor dizer, na minha frente: “Olha, agora nós já conseguimos, quando telefonam para mim dizendo que vai entrar a Coca-Cola, eu já sei que eu vou ganhar 10%”. Esse é um tipo de corrupção que a televisão tem, a partir, evidentemente, da TV Globo. E hoje a televisão está melhorando um pouco no jornalismo, estão começando a aparecer jornalistas na televisão. Você é um deles, a Marília Gabriela [(1948-) jornalista, atriz, cantora e apresentadora de televisão] é outra, muito embora nem saiba se ela começou como jornalista, mas é uma pessoa que está fazendo uma função jornalística. O Bóris Casoy [(1941-), jornalista paulistano, foi editor-responsável da Folha de S. Paulo de 1974 a 76, e de 1977 a 84, e na televisão, foi âncora do TJ Brasil (SBT) e do Jornal da Record (Rede Record)] está começando a se sair muito bem; tem o Paulo Francis [(1930-1997), jornalista carioca conhecido pelo tom irônico de seus comentários, sobretudo sobre política]. Então, temos que acabar com aqueles bonecos que estão na televisão, na TV Globo, aquelas pessoas devem anunciar o Disco de Ouro e ponto. Não quero me estender, porque isso levaria a noite toda.

Ivan Ângelo: Millôr, eu queria fazer uma pergunta embutida aí. Eu tive o privilégio de, mais ou menos nos anos 60, 59, 61 por aí, ver um programa na TV Tupi de Belo Horizonte, em que você tinha meia hora para apresentar humor. E esse programa era patrocinado originalmente pela Água...

Millôr Fernandes: Não existe programa mais puro.

Ivan Ângelo: Ele falava “Beba água: H2O”. [risos] Eu me lembro, ele falava: “Ela toma forma no vaso em que acontece”.

Millôr Fernandes: Cada noite tinha um slogan novo: “Desde o dilúvio universal, a água...”

Ivan Ângelo: Mas por que você desistiu da televisão? Naquele você tinha meia hora, eu me lembro...

Millôr Fernandes: Eu desisti porque eu vou desistir das muitas coisas se eu não sou solicitado; eu estou aqui porque fui muito solicitado. Eu fiz aquele programa, eram treze programas, eu fui aprender em Belo Horizonte, ainda que pareça incrível, eu fui a Belo Horizonte porque era um mercado menor. Lembro que já naquela época, para minha honra, o Paulo Francis escreveu um artigo me elogiando, eu já era uma pessoa bastante conhecida.

Ivan Ângelo: Foi a única vez que você apareceu na TV?

Millôr Fernandes: Não, eu fiz muitas coisas depois. Mas o Paulo Francis disse: “O Millôr foi aprender em Belo Horizonte”. E eu fui aprender em Belo Horizonte. Depois, aquele mesmo programa que chamava Treze lições de um ignorante, eu fiz na TV Tupi do Rio, e esse programa foi cortado pelo grande liberal do Brasil que se chama Juscelino Kubitscheck. Eu fui censurado em todos os governos, com exceção do [Marechal Eurico Gaspar] Dutra [(1883-1974), presidente do Brasil de 1946 a 1951], e o programa foi cortado, deve ter saído por circunstâncias muito especiais, nunca me importou esse programa; deve ter saído uns cem artigos sobre o programa na época, porque era um programa humorístico, tinha muita coisa humorística, então as pessoas aproveitavam para citar. E o Juscelino tomou todo o conhecimento e eu entrei naqueles três malditos que era o Hélio Fernandes [(1920-), jornalista carioca, irmão de Millôr, era diretor da Tribuna da Imprensa quando, em 1981, o jornal sofreu um atentado terrorista e foi incendiado] que nunca falou, Carlos Larcerda [(1914-1977), jornalista, foi ferrenho opositor do segundo governo de Getúlio Vargas, e fundou, em 1949, o jornal Tribuna da Imprensa] que nunca falou, e eu que deixei de falar. Mas veja: eu não tinha porquê ser cerceado. Eu era pura e simplesmente um jornalista.

Augusto Nunes: Casemiro Xavier de Mendonça, depois Maurício, para completar a Roda.

Millôr Fernandes: Quer que eu fale mais curto?

Augusto Nunes: Não, está ótimo. Casemiro Xavier de Mendonça.

Casemiro Xavier de Mendonça: Millôr, há mais de vinte anos que o Brasil vê seu desenho em revista, jornal, mas só vê reproduções. Agora, você não mostra esses originais? E outra coisa que eu queria saber também, você depende do fato, da realidade, para desenhar? Você depende sempre do estímulo, do fato do dia-a-dia para ser desenhista?

Millôr Fernandes: Eu não exponho, Casemiro Xavier de Mendonça, por quê? Por umas dessas circunstâncias da vida, eu não fiz mercado, então eu não posso expor um desenho se o mercado vai atingir X, quando eu tenho industrialmente, através do jornal ou através de qualquer processo vendável, eu tenho um preço muito maior e eu vivo disso. Eu fiz, tenho a impressão de que na minha vida inteira, devo ter feito cinco exposições. A primeira foi até no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, curiosamente. Mas é só por isso que eu não exponho, não tenho nenhum preconceito. Agora, tenho um certo tédio - confesso a você - de concorrer. Eu sou muito presidido por esse tédio; vejo a coisa, fico entediado, por quê? Hoje eu vejo qualquer livro, qualquer coisa, autor premiado, aquilo me dá um tédio. Eu digo: “meu Deus do céu, que coisa mais juvenil, um premiozinho, assim bobagenzinha”. Eu só gostaria de ganhar o Prêmio Nobel para recusar, isso sim me daria uma grande satisfação, poder recusar o Prêmio Nobel, como fez o [Jean-Paul] Sartre [(1905-1980), reconhecido filósofo existencialista francês], mas só que faria com mais estardalhaço. Agora, a segunda parte.

Casemiro Xavier de Mendonça: Queria saber se é o fato do dia-a-dia, que te amola, para você desenhar?

Millôr Fernandes: Não, pelo contrário, e é muito curioso. Eu sou muito motivado por coisas extra dia-a-dia, por coisas metafísicas, por coisas de dentro de mim, por coisas que falam e ficam em mim inconscientemente. No jornal, evidentemente, pela força dos acontecimentos, sou obrigado, inúmeras vezes, a cair no dia-a-dia. Mas se você pegar todo o humor que eu fiz através dos tempos, ele é muito pouco biográfico, é raríssimo, tanto que quando eu faço uma coisa minha, biográfica, pequena, em geral faz um extraordinário sucesso porque eu falo muito pouco de mim nesses diários. Mesmo quando eu ataco, eu me revelo, mas não estou falando de mim.

Casemiro Xavier de Mendonça: E falando em biografia, Millôr é pseudônimo?

Millôr Fernandes: Não, Millôr é um... Eu acho que isso já é mais ou menos conhecido. Eu fui Milton até os 18 anos de idade e quando eu cheguei aos 18 anos de idade, precisei tirar uma certidão, e fui no cartório, e vi o livro de registro, depois eu fui lá outras vezes também. E era um homem de uma caligrafia extraordinária que tinha naquela época - aliás eu sou um calígrafo, estudei caligrafia também - ele tinha aquela caligrafia formidável, e escrevia aquele M aberto, com aquelas penas alemãs, que a gente encontrava na época, o L, o T era aberto, aquele O. E quando ele chegou no N final, traçou nervosamente, e ficou um R perfeito; traçou também nervosamente fora do T. Então o Millôr é perfeito. E aí eu disse: “por que eu vou ficar Milton Fernandes”? E mudei de nome, e, no mesmo instante, todos os meus colegas de colégio, todos os meus amigos, meus parentes, nunca mais me chamaram de Milton.

Augusto Nunes: Para fechar a Roda, Maurício Kubrusly.

Maurício Kubrusly: Millôr, há algum tempo atrás, numa outra roda em que estavam psicanalistas, psicólogos, os terapeutas da cabeça, eu participava de um debate, saiu de repente - não me lembro qual era o tema, devia ser certamente alguma coisa relativa a sexo - saiu alguma coisa sobre morte. E como era uma coisa de uma série, eu disse: “Ah, legal, morte, por que não faz uma sobre morte”? Teve um dos terapeutas que bateu na mesa, ele disse: “Ah, que é isso”? Mudaram de assunto correndo, “morte não”. No entanto tem um humorista no Brasil que há muito tempo fala seguidamente de morte, é um humorista, mas fala seguidamente de morte. Desenha a tampa da sepultura dele, faz o epitáfio e tal, faz o monumento fúnebre, assim como seria no cemitério. Como é que o humorista tem essa consciência e coloca sempre essa coisa de morte? Ninguém gosta de falar de morte.

Millôr Fernandes: Por que não gosta?

Maurício Kubrusly: Ninguém gosta.

Millôr Fernandes: Primeiro, meu negócio é puramente estética, é uma repetição mais ou menos estética. É preciso levar Freud com muito cuidado: de humor ele não entende nada. Se ele é famoso, o Id do Freud, eu quero que um psicanalista discuta comigo aqui, de homem para homem, eu tenho muito mais cancha de humor do que ele... Aliás, falando em Freud, eu estava acabando de ler um livrinho aí da Françoise Giraud [jornalista e escritora francesa] sobre a Alma Mahler [livro publicado em 1988], e tem um momento no livro que o Mahler, que era um pirado, um doido, resolveu procurar o Freud que já era famosinho. Então os amigos procuram o Freud e o acabam encontrando. O Freud estava naquelas férias, ela estava sempre de férias; sempre que eu vejo o Freud, ele está de férias. Aí o Freud vem e se encontra com o Mahler num daqueles parques de Viena e fica andando com ele, conversando umas três ou quatro horas com o Mahler, e chega à conclusão que é repressão materna, aquele negócio que nós sabemos - já tinha essa mania naquela época – e aí ele vai embora. Daí em diante, a Alma Mahler só trata o Freud de “aquele idiota”, “aquele idiota”, sabe por quê? Porque no dia seguinte o Freud mandou a conta. Acabou.

Augusto Nunes: Millôr, muitos telespectadores estão ligando. A Lúcia Morais, por exemplo, se limita a fazer uma observação. Ela disse que a pulseira do seu relógio está quebrada mesmo e não adianta tentar arrumar. [risos]

Millôr Fernandes: Olha [retira o relógio do braço e fala olhando para ele], esta pulseira é o seguinte. Eu caio na água todo dia com este tipo de pulseira, é uma pulseira que vem aí do contrabando da vida, leva três ou quatro anos. Uma semana atrás quebrou, comprei na esquina uma nacional, arrebentou em menos de uma semana. Desculpe, não quero ser antinacionalista não, mas olha aí.

Augusto Nunes: Alessandro Peixoto, de Ribeirão Preto quer saber se você é autodidata, e Luiz Augusto do Morumbi pergunta se você é já hoje um homem rico?

Millôr Fernandes: Que eu sou um autodidata eu sou, agora não tente confundir autoditada com ignorante, porque as pessoas pensam que autodidata é o cara que não fez nada da vida e entrou por uma escola de habilitação de motorista, não é? É autodidata, aprendeu a dirigir automóvel sozinho. Não, nada disso, eu sou autoditada mesmo. Você pega um precedente meu, o Bernard Shaw, por exemplo, também nunca esteve em uma escola. Ele ficava no British Museum estudando dez horas por dia; leu a Enciclopédia Britânica toda. Eu não li tudo, mas a esta altura, devo ter lido um terço da Enciclopédia Britânica. Eu li permanentemente, a minha vida inteira, até por uma questão de destino, foi ligada à vida intelectual. Então eu estudei, e olha, o diabo. Claro que não li tanto quanto ele. Do que eu tenho inveja da formação acadêmica, por exemplo, do Léo Gilson, é que a formação acadêmica dá um quadro perfeito de estrutura. Por outro lado, a formação não-acadêmica dá uma liberdade que a estrutura de vez em quando tolhe. E eu sou capaz de pensar audaciosamente sobre o Freud; se o cara estudou Freud, ele já perdeu essa audácia no meio do caminho. Mas sou autodidata mesmo.

Augusto Nunes: Você é rico? Segunda pergunta.

Millôr Fernandes: Olha aqui, eu não sei o que é rico, se eu somar todos meus bens hoje, eu não tenho 50 milhões de dólares. [risos]

Augusto Nunes: Léo.

Léo Gilson Ribeiro: Millôr, você se lembra que uma vez nós conversamos e você evidentemente pode evitar o assunto...

Millôr Fernandes: Só vou pedir a você que não me chame mais de Sarney! [risos]


Léo Gilson Ribeiro: Nós estávamos conversando sobre a modificação que houve no [jornal] Lampião, [confundindo com o nome do Pasquim] e se você me permite a menção, não quero bancar o dedo duro, mas o Ziraldo [(1932-), pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor mineiro, foi também um dos fundadores do Pasquim] deu uma feição diferente ao Lampião, então você, se não me engano, se afastou.

Cora Rónai: Não, ao Pasquim.

Léo Gilson Ribeiro: Pasquim, perdão. Você poderia, então, explicar, desculpe Cora...

Cora Rónai: Tudo bem.

Léo Gilson Ribeiro: Você podia me explicar, se quiser, como é que foi essa cisão, esse desentendimento?

Millôr Fernandes: Olha, Léo, a história do Pasquim, muitas pessoas querem saber, vieram falar do Pasquim, o Pasquim foi uma coisa visivelmente importante na imprensa brasileira. Não é como na história escrita pelo Augusto Nunes em que o Samuel Wainer tenta transformar a diretriz numa coisa importante, diretriz foi uma coisa setorial. As coisas importantes dessa época... importante por um lado, pois em questão de venda foi O Cruzeiro [revista semanal ilustrada, de linha editorial totalmente inovadora em relação a outras publicações da época, começou a ser publicada em 10 de novembro de 1928 pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Trazia os mais diversos assuntos, desde fatos sobre a vida dos astros de Hollywood, até informações sobre saúde, cinema, culinária, moda e política], que ninguém pode ignorar, chegou a 750 mil exemplares, numa época em que o país tinha 40 milhões de... E do ponto de vista de realmente mexer com a mentalidade de jornalista, de quem informava no Brasil, foi o Pasquim. Houve outros movimentos, mas estou dizendo estes dois são visíveis. Agora, aquilo foi uma coisa inteiramente ocasional. De tudo o que eu passei na vida, fico impressionado com a programação não estar por trás disso. São coisas ocasionais, como a história é muito ocasional, está aí o Sarney que não me deixa mentir. O Pasquim seria uma longa história, mas vamos encurtar, foi feito por um saco de gatos. O Pasquim foi ídolo da juventude. A média de idade do Pasquim era 35 anos, a média de idade, você entende, 35 anos. Eu devia ter 42, 43 naquela época. Aquele negócio saiu com uma força extraordinária, cada um pensando o que a sua cabeça lhe ditava, e conseguiu uma homogeneidade de fisionomia que é extraordinária. Agora, ele tinha realmente talentos que você talvez não consiga reunir se você chamar para trabalhar por dinheiro. E aí nós estamos diante de uma coisa em que o ideal vence; de repente você precisou e todo mundo começou a trabalhar de graça. Agora, você tinha pessoas escrevendo extraordinariamente e desenhistas extraordinários. Dificilmente você vai reunir em um outro órgão tantos desenhistas bons e tantos escritores ou jornalistas bons. Aí, como sempre, começaram a chegar os urubus, alguns que já tinham entrado, uma roubalheira desenfreada, e o Pasquim sucumbiu a isso. Houve uma segunda fase, na qual eu entrei, como sempre também empurrado - desculpe Ethevaldo - quem salvou, quem ajudou a salvar Pasquim, surpreendentemente, quem teve a maior força, foi o José Aparecido e o Fernando Gasparetto [trabalhou como radialista, por vários anos, na Tupi FM de São Paulo], que nunca pediram nada, e nem teriam coragem de pedir a mim, evidentemente, nunca pediram nada. Deram o dinheiro que foi necessário naquele momento, foram os que mais me empurraram para entrar em 72, no Pasquim, para salvar aquele negócio que estava no fundo do buraco. E depois, eu também, por questão de ética, peguei todo o dinheiro que eles tinham dado, transformei em ações e devolvi para eles. Mas neste período de 72 a 75, que eu fiquei, nós conseguimos reorganizar o jornal, e reorganizado o jornal, foi aquela luta inacreditável, com prisão, aquela coisa toda... Quando chegou no número 300, que é um número histórico, 300, veio a suspensão da censura do nosso querido, dileto amigo Jaguar [Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (1932-), cartunista carioca e um dos fundadores do Pasquim]. Eu escrevi um artigo violento dizendo que o jornal seria apreendido. O jornal foi aprendido e não houve a volta da censura. O que é que qualquer jornalista faz diante disso? E eu pergunto ao doutor Augusto Nunes aqui. Você escreve um artigo muito mais violento, se não vem polícia para a máquina, você escreve um artigo muito mais violento. A dissensão entre nós foi isso. E eu saí porque o jornal estava salvo, tinha sede própria e tudo isso. Eu acho o Jaguar uma figura 50% idiota e 50% gênio, é uma figura que é encantadora, você não pode resistir. Eu resisto a tudo o que é defeito do Ziraldo. É um irmão meu que pode bater a minha carteira, ele pode me roubar, pode me dar porrada, mas três meses depois eu não agüento! Há um lado de amizade entre nós assim que superou as nossas próprias deficiências.

Augusto Nunes : Teremos agora um pequeno intervalo. O Roda Viva com Millôr Fernandes volta já, já.

[intervalo]

Entrevista ao Roda Viva - Parte 2


Augusto Nunes: Millôr, alguns telespectadores, pelo visto, não entenderam direito, não compreenderam bem o sentido da sua primeira resposta, que foi sobre, ou a segunda pergunta, a resposta da segunda pergunta sobre as suas preferências da sucessão presidencial. Você vai notar por algumas perguntas que nos chegaram, por exemplo: Néri Rolo, de Erechim, Rio Grande do Sul: “O Millôr afirmou que votaria no Jânio ou Caiado para presidente mas não votaria no Brizola, poderia dizer por que não o Brizola?” Maria Nunes, de Santa Maria, Rio Grande do Sul, pergunta simplesmente qual é o seu candidato preferido entre os que disputam a presidência. “Rosemeire Turquezi, Americana, interior de São Paulo, pergunta se você acha que existe algum brasileiro capaz de governar o país”. Jaime de Souza Matos, aqui da capital, Jardim Bonfigliori, diz: “O senhor, que é um conhecido brizolista, acredita que no segundo turno o Brizola possa disputar com Jânio Quadros?” E Cecília Rosário, de Bauru diz assim: “O senhor disse que ainda não sabe se votará no Ronaldo Caiado para presidente. Como pode um humorista ser de extrema-direita?” Seus esclarecimentos, por favor.

Millôr Fernandes: De quem é leitor aqui para me dirigir?

Augusto Nunes: Aqui você conversa comigo.

Millôr Fernandes: Olha aqui, eu sempre digo que no Brasil, você quando fala uma coisa sutil, você tem que dizer: “olha, estou sendo sutil, hein!” Outra vez, se você estiver fazendo uma ironia, você diz: “olha, é ironia, hein!” E quando eu falei de Caiado e falei de Jânio, evidentemente eu estava falando uma ironia, não há possibilidade de ninguém, em mente sã, votar nessas duas pessoas. Naturalmente se eu tivesse que escolher entre as duas, eu votaria em Jânio porque é um pouco mais jovem que Caiado, mas só por isso. [risos] Agora, quanto a eu ser brizolista, essa é uma confusão que, aliás, eu compreendo perfeitamente bem. Quando eu apoiei o Brizola em 82 - eu não era brizolista nem naquela época e nem nunca - mas o Brizola teve uma fase brilhante politicamente no Rio Grande do Sul, depois na defesa dos direitos do Jânio, e terminou aí. Daí em diante ele pensou que estava com o [...] na mão, tudo isso, e é um dos grandes responsáveis pela vitória da direita. Quando você tem um revolvér na mão e acha que é o herói, é o mocinho, e vai combater os canhões, você está dando margem para que os canhões tomem conta do poder. Então, não sou brizolista, nem nunca fui e muito menos agora. A pergunta é que se havia alguém que salvasse o Brasil, eu não sei quem salva o Brasil. Agora no momento, de todos esses políticos que estão aí, para que não digam que eu sou absolutamente cético, porque eu acho que não existe um homem, eu vou citar um que não é salvador da pátria - meu Deus do céu! - mas ele tem qualidade. Primeiro, é um homem extremamente aberto de idéias. Segundo, é um socialista moderno. Terceiro, tem muito bom humor, coisa que é a falha fundamental do ministro Celso Furtado [(1920-2004), economista brasileiro de renome internacional, foi ministro da Cultura (1985-1990) durante o governo de José Sarney]. O dia que o ministro Celso Furtado der uma gargalhada, eu o considero inteligente. [risos] Até hoje ele não deu, eu continuo considerando-o um paraibano burro até hoje, não tenho dúvida nenhuma. Mas esse homem tem uma posição política boa, uma política moderna, ele é íntegro até onde a gente pode julgar a integridade das pessoas, e se ele conseguisse - que é muito difícil - ser um candidato do PMDB, eu acredito que ele agregaria as forças de esquerda do PMDB, e talvez roubasse muitas forças de esquerda do Brizola e muitas forças do centro, e teria grandes possibilidades de ser presidente. Chama-se Waldir Pires.

Augusto Nunes: Quem?

Millôr Fernandes: Waldir Pires.

Augusto Nunes: Você aceitaria ser presidente como missão, como dizem os militares, convocado para uma missão?

Millôr Fernandes: Nem amarrada. [risos]

Augusto Nunes: Paulo Caruso.

Paulo Caruso: Vou aproveitar e fazer uma pergunta metalingüística. Eu tenho ouvido você sempre defender muito a preponderância da palavra sobre a imagem, que é fundamental, você defendeu sua idéia através da expressão da palavra, da fala. E eu me lembro de um desenho, que é um desenho de que mais gosto de todos os desenhos que eu conheci seus...

Millôr Fernandes: Que você fez ou que eu fiz?

Paulo Caruso: Aquele desenho da árvore que você fez. É uma árvore gigantesca que levou anos para ser construída, foi feito folhinha por folhinha, milimétrica, e que até, essa árvore, como ela é feita em vários momentos, com várias penas diferentes, você tem impressão de que ela está se mexendo, está ondulando. E aí você usou embaixo uma locução, acho que era um poema do Fernando Pessoa, porque tinha um personagem recostado a essa árvore, e embaixo da sombra dessa frondosa árvore, tinha uma tela que só tinha uma folhinha pintada, e o título do desenho era: “O esforço do autor e a indolência do personagem”. Como é que você dá uma explicação assim? Esse desenho, posso falar sobre ele horas, mas o desenho - é até uma bobagem eu ficar falando sobre ele - porque só o desenho é que pode nos transmitir aquela imagem.

Millôr Fernandes: Quando você diz “a preponderância da palavra” não quer dizer que eu não veja a famosa mulher, a famosa garota de Ipanema, aquela que fez com que eu dissesse que o mais belo movimento feminino ainda é dos quadris, e as pessoas interpretaram mal essa frase, chamaram a frase de machista - burrice brasileira - é uma frase linda, poética. Eu não estou negando o movimento em si mesmo, não estou negando a beleza de uma tela. São cinco bilhões de pessoas neste mundo falando, cinco pessoas de bilhões, neste mundo, criando na palavra. Só na palavra, tem cinco bilhões de pessoas criando permanentemente. Por mais pintores que existam, por mais músicos, por mais que a música tenha atingido a classe média, não tem tanta gente desenvolvendo um produto como a palavra. Se você estuda a palavra, se você se empolga pela palavra, você fica assustado com a coisa gigantesca que é a palavra. Então, você vê, quando nós atingirmos este último estágio da arte abstrata, arte abstrata foi chamada abstrata, muito antes de ser abstrata. Depois não tinham mais palavra, chamaram de [...], gestual e o escambau a quatro. Mas quando a arte se chamou abstrata, nunca se usou tantas palavras para definir uma arte que não precisava de palavras. Quando a arte era figurativa, ou sobretudo quando era clássica ou acadêmica, o cara sem nenhuma explicação anterior, chegava e dizia: “Aquele braço está muito mais comprido do que o outro”. Então estava errado. Agora, para ver um [...] ou para ver um [Jackson] Pollock [(1912-1956), pintor norte-americano, expoente máximo do expressionismo abstrato], o cara precisa ler muito antes, porque senão ele chega lá e passa por aquela borralheira toda. Mas eu te dou um exemplo mais clássico de todos. Os chineses têm uma frase que se repete aí cansativamente: “Uma imagem vale mil palavras”. E eu sempre digo: “diz isso sem palavras!” [risos]

Paulo Caruso: Através do desenho, né. [risos]

Maurício Kubrusly: Millôr, você disse que gostaria de ganhar o Prêmio Nobel ou qualquer outro para ter o prazer de recusar.

Millôr Fernandes: Mas eu não tenho grandes esperanças não, pode ser! [risos]

Maurício Kubrusly: Deve ter um pouquinho, vamos lá! Quem sabe trocando o nome para Sarney já ajuda... E no entanto você se importa com crítica, coisa com a qual sempre fiquei surpreso. Até nos seus trabalhos de teatro, não é? Te incomoda, incomoda. Às vezes, até no prefácio de uma peça sua, você se refere a uma crítica da época em que a peça foi encenada. Você não acha que sua obra é maior do que isso? Por que você se importa com a crítica?

Millôr Fernandes: Vou te fazer contra crítica igual.

Augusto Nunes: Por favor, Millôr, deixa eu só aproveitar para embarcar na carona da pergunta do Maurício, incorporando uma pergunta da Maria Tereza Assunção, daqui da capital [de São Paulo], que diz o seguinte: “O humorista Jaguar declarou há pouco tempo em uma entrevista que Millôr Fernandes não suporta a idéia de que exista alguém melhor que ele”. Pergunta a Maria Tereza se é verdade que você também nega qualquer qualidade no trabalho do Barão de Itararé, saber se é verdade ou não, e se você é tão vaidoso como imagina o Jaguar?

Millôr Fernandes: Eu vou fazer a anticrítica que eu fiz dele, que é o seguinte. É muito difícil que você me apresente exemplos disso que você está me dizendo. Primeiro, se você pegar uma peça minha de 1960 que fez um extraordinário sucesso, que chama Um elefante no caos, você pega, até hoje, as outras edições, na contracapa, e é uma peça que foi bastante elogiada. Agora, eu peguei, publiquei, mesmo de crítica elogiosa, só de sacanagem, eu peguei os trechos ruins. Você só tem trechos ruins. Já nos anos 60 tinha este tipo de atitude. Lembro até uma frase do Paulo Francis que dizia assim: “Millôr é um pré-marxista preso ao sistema ético familiar”. Eu disse: “Não vou perder esta frase”. [risos] Mas veja bem, quando eu falo de crítica, é que eu acho a crítica brasileira teatral - aí sim, entra minha vaidade - tão estulta, e o Fábio Sabag [ator] não, o...

Cora Rónai: Sábato Magaldi [(1927-), professor, escritor e crítico de teatro e um dos mais expressivos pensadores do teatro brasileiro].

Millôr Fernandes: O Magaldi ficou zangado comigo, eu falei de modo genérico, não posso falar de modo genérico? “Mas não, o Sabag, mas não, o Léo Gilson em literatura”. Você não pode falar. Ele ficou indignado comigo, eu disse: “ela é tão estulta que realmente me dá um desagrado". Sequer a pretensão - e aí é mais pretensão minha - sequer a pretensão de criticar. Olha aqui, o que eu fiz no negócio de tradução, por acaso tradução é um setor em que eu sou muito pouco contestado, mas a tradução de teatro no Brasil é ridícula. Eu traduzi quatro peças de Shakespeare, portanto eu posso falar de quatro peças de Shakespeare, não estou falando das obras de Shakespeare. Essas quatro peças de Shakespeare eu devo ter feito com vinte traduções do lado, em cima, palavra por palavra. Por exemplo, de Hamlet, eu fiz uma tradução famosíssima do [André] Gide, está cheio de erros, está cheio de bobagem. Olha aqui, nenhuma tradução - as italianas são excepcionais - das quatro que eu fiz, nenhuma sequer percebe os trocadilhos. Você pega o Shakespeare, duvido que você encontre um trocadilho no Shakespeare que eu não tenha feito. Agora, quando eu escrevo, ponho em português. Essa semana ainda tem uma crítica favorável em algum lugar e diz assim: “O Millôr acentuou - em preço - acentuou a parte...”. Acentuei nada, eu faço com um rigor absoluto, a não ser quando eu digo que é adaptação. Você pega o Hamlet que eu publiquei, você vai ler como se estivesse escrita em português. Agora não tem gíria não, não tem a linguagem seiscentista que você não poderia ler, mas tem uma linguagem que soa antiga, você não vai fazer a besteira de estudar a linguagem de Camões para repetir em português o Hamlet. Agora, depois que você faz um negócio desse, eu ponho todas as aliterações que tem no texto original, eu faço todos os trocadilhos, eu faço a frase de maneira que o ator dramaticamente possa fazer, repetir, e o analfabeto da platéia possa entender. Aí chega um mequetrefizinho e começa a fazer uma crítica, mas me dá um tédio de viver nesse país, porque aí começa...

Maurício Kubrusly: Você não consegue passar por cima disso?

Millôr Fernandes: Não, não pelo seguinte, porque elogio todas as outras. Tem um idiota aí, um embaixador chamado Geraldo Silos, que traduziu o Hamlet, veja bem, não estou com inveja não, mas nenhuma, nenhuma, nenhuma. É o problema dos valores, a imprensa brasileira, que me perdoe o Augusto Nunes, eu espero que no Estado de S. Paulo não seja assim, a imprensa brasileira é um grande press release. Eu faço livros e não sai nenhuma nota, as pessoas não sabem. A primeira edição da Nova República, o Jornal do Brasil não publicou uma linha. Do Brito, que era do outro lado, e porque faz press release, que é natural, saíram quilômetros de artigos. É press release, a imprensa brasileira toda.

Maurício Kubrusly: O que me surpreende é que você presta atenção nisso!

Millôr Fernandes: É fundamental para a imprensa, não é para mim não.

Maurício Kubrusly: Pois é, você saiba que a Veja não falou, que o Jornal do Brasil não falou, por que você não esquece isso tudo?

Millôr Fernandes: Não, não, não, eu falo porque o meu trabalho é importante, eu estava fazendo um trabalho que era em contraposição absoluta ao trabalho do Brito. Agora ninguém pega sequer para comparar? Eu estava fazendo o dia-a-dia naquela época, a morte do Tancredo, ele estava lá dizendo aqueles negócios todos a favor do sistema e publico um livro. Poxa, não há um repórter que pegue isso e diga “que contraste, que coisa impressionante”! Não, porque é um press release, não estou me queixando pessoalmente, não. Eu estou falando da imprensa, agora eu tenho que falar de mim porque é assunto que eu conheço pessoalmente. [risos]

Maurício Kubrusly: Você é íntimo.

Augusto Nunes: Você acha que, de modo geral, a imprensa dá pouco destaque a isso, pouca atenção ao seu trabalho?

Millôr Fernandes: Não, não estou falando de mim. A imprensa no ponto de vista cultural... Augusto Nunes, você é editor-chefe de um jornal, você não tem direito, não sei se você fez isso, se fez isso, lamento. Você não tem direito de fazer um livro e dar cobertura especial a seu livro. Agora mesmo um amigo meu veio lá da Suécia e tem um jornal lá, que o editor-chefe é um - ele me deu até o nome - é um judeu de sessenta e poucos anos, respeitadíssimo dentro da redação. E chegou um amigo dele, também judeu, fez um livro muito bom, por uma questão de corporativismo, ele botou meio página da primeira página. Foi chamado no grupo do jornal e censurado porque o jornal não merecia aquilo. Quando é que vamos chegar a isso? Você pega os jornais dos cariocas, que eu conheço muito bem, aquilo é um rebuçário de mocinhas, de velhinhas, de poesiazinha de merda. É disso que eu estou falando, estou citando o meu nome, mas você pega o Geraldo Silos, o embaixador, o que ele fez é absolutamente ridículo, mas é ridículo, de você morrer de rir. O Jornal do Brasil deve ter publicado uns vinte quartos de página de propaganda e mais discussões eruditas de três ou quatro páginas inteiras, de uma coisa que é de débil mental. O Sarney perto dele é um grande intelectual. [risos]

Maurício Kubrusly: Tem chances, Léo!

Léo Gilson: Não, não tem nada a ver comigo não.

Augusto Nunes: A sua observação do Jaguar?

Millôr Fernandes: O Jaguar é uma flor de pessoa e é um tonto. O que acontece é o seguinte, eu levantei essa questão, veja bem, imagina se eu ia ficar contra o Barão de Itararé, enquanto o Barão de Itararé, ao nível do Barão de Itararé, jamais ficaria. O que acontece é o seguinte. Há uma mistificação intelectual no Brasil absurda, em todos os países há, em todos os países há uma luta intelectual, basta ler a história, Léo sabe disso muito melhor do que eu. A super valorização que se fez da literatura no Nordeste é inacreditável, o que tem de besteira nesses gênios todos que estão lá na Academia [Brasileira de Letras], uma bobagem. Você não tem nenhum que, a não ser o de direita que é o Gilberto Freyre, com Casa grande e senzala, você não tem nenhum, também do cara que não é de esquerda, que se compara à Guimarães Rosa. Não tem nenhum. Agora, dizem que são maravilhosos, geniais, inacreditáveis. Então, o caso do Barão de Itararé, depois que eu comecei, ao contrário do que parece, surgiram uma porção de escritores sensacionais. Você pega o Sérgio Porto que era interessantíssimo, você pega Antonio Maria, você pega Fortuna, de vez em quando, Fortuna deve ter escrito 50 textos, escreve dez linhas assim e leva uma semana... É primoroso. Tem é um julgamento. Agora, querer fazer com que eu engula o Barão de Itararé, porque está engolido há 50 anos, é um idiota. A moça quer saber, é um idiota. Faz uns trocadilhos bons, meia dúzia de trocadilhos imbecis, e eu pedi, e o Fortuna por acaso era admirador deles, eu disse: “Fortuna, pelo amor de Deus, levanta a obra do Barão de Itararé”. Pedi aos meus amigos da LPM, “levanta a obra de Itararé”. Afinal de contas, a MPM Editora fez, há um ano atrás, um álbum luxuoso do Barão de Itararé, em que prova, mas prova que é um idiota. [risos] Então por que eu vou ficando pensando que as pessoas vão achar que eu sou vaidoso? Pode pensar o que quiser. Esse é um idiota. Agora se você me disser, o Fortuna, nossos colegas aí, agora presentes, são meus rivais, Fernando Veríssimo é excelente, você pega Ivan Lessa [jornalista e escritor, foi editor e um dos principais colaboradores de O Pasquim] é excelente. Agora, por que eu estaria querendo destruir o Barão de Itararé? [risos]

Marta Góes: Millôr, e a TV Pirata [programa humorístico da TV Globo, transmitido entre 1988 e 1990, um dos maiores sucessos do gênero no Brasil e que agregou nomes como o diretor Guel Arraes, o roteirista Cláudio Paiva, os atores Débora Bloch e Luiz Fernando Guimarães, roteiristas como Luís F.Veríssimo, os quadrinistas Laerte e Glauco, integrantes do Planeta Diário e do Casseta Popular, entre outros representativos do humor nacional] você assiste, gosta?

Millôr Fernandes: Quem?

Marta Góes: TV Pirata, o humor que se faz lá.

Millôr Fernandes: Olha, assisti muito pouco e não posso julgar, dos que eu conheço que fazem coisas fora da TV Pirata, o único que eu conheço o talento é o Reinaldo.

Maurício Kubrusly: Casseta Popular [jornal de humor]?

Millôr Fernandes: Vejo muito pouco.

Maurício Kubrusly: Este está na banca.

Millôr Fernandes: Mas eu vejo muito pouco.

Maurício Kubrusly: Planeta Diário [jornal de humor].

Millôr Fernandes: Eu vejo muito pouco.

Maurício Kubrusly: Também?

Millôr Fernandes: Estou dizendo a TV Pirata...

Maurício Kubrusly: Com essa turma toda.

Millôr Fernandes: Eu acho que quem tem talento ali é o Reinaldo, o Reinaldo tem talento real porque tenho a oportunidade de vê-lo sempre em outros lugares; na Tribuna de Imprensa que ele faz uma charge um dia sim, um dia não, e acerta sempre e tem um desenho inteiramente pessoal e da melhor qualidade.

Marta Góes: Mas há um desinteresse seu assim nessa produção?

Millôr Fernandes: Há desinteresse, há desinteresse se você quiser, porque também é uma super valorização daquelas coisas, o que estão repetindo no jornal são coisas que, meu Deus do céu, já foram feitas à exaustão e são tidas como novas. Aquela coisa de pegar fotografia antiga, e botar legenda embaixo, nem sempre, nem sempre não, as que saem no jornal, nunca são engraçadas. Outro dia, no domingo passado, por exemplo, saiu um artigo no Globo, sai sempre um artigo que eu leio sem nenhum interesse, e tenho absoluta isenção. Meu Deus do céu! Quando eu leio uma coisa boa, eu fico bem: “quem é esse cara? Eu quero saber, o que ele está fazendo? Onde é que surgiu?” Esse artigo, por exemplo, era muito ruim, só tinha um título muito bom, que se chamava “pé em Deus e fé na tábua”! A frase é minha. [risos]

Augusto Nunes: Millôr, todos esses telespectadores aqui, Juca, José Borges, do Cambucí, João Armênio Filho, de Curitiba, Carlos Lima, de Pinheiros, Cláudio Sérgio das Silva, de Pinheiros, Luís Martins, de Campinas e Caio Rodrigues Vinicius, do Butantã, querem saber por que você brigou com Chico Buarque, quais foram as razões dessa briga?

Millôr Fernandes: Eu não briguei com o Chico Buarque, jamais briguei com Chico Buarque. O que acontece é o seguinte, eu não gosto de falar disso porque essas coisas se refletem em fofoca, você fala uma coisa aqui e essas coisas vão reverberando. Eu não briguei, os defeitos do Chico Buarque se chocaram comigo, defeitos que eu não tenho. Se você quiser uma frase minha e quem quiser que se sinta ferido com ele:
Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.

Augusto Nunes: Perfeito. Vamos continuar. Léo Gilson.

Léo Gilson Ribeiro: Millôr, você agora, a sua ilustração de algumas coisas que eu vi, é magnífica, do Lory Lambi [referência ao livro O caderno rosa de Lory Lambi que faz parte de uma trilogia erótica da escritora Hilda Hilst], da Hilda Hilst, e isso se baseia numa sua admiração pela grandiosa obra dela anterior à pornografia que ela escreveu, que está no nível do Brasil, dos políticos brasileiros, ou você achou que era um atalho novo para sair da literatura?

Millôr Fernandes: Não, eu conheço a Hilda há muito tempo, há muito tempo. Essas coisas são... estou respondendo de novo ao Ethevaldo...

Léo Gilson Ribeiro: Desculpe.

Millôr Fernandes: Não, não, pois é, eu a conheço há muito tempo, e essas coisas vão ficando no coração da gente, e ela sumiu da minha vida, porque ela veio para São Paulo e não apareceu mais no Rio, e ficou aí, e umas duas vezes me telefonou pedindo isso. E eu não vi muita coisa da Hilda, mas as coisas que eu vi eram muito boas. E não tenho porque não acreditar, pelas referências de outra pessoa, que o resto também não seja bom. Ela me parece uma pessoa exigente e com isso, mesmo fechada em caramujo, me dá aquela impressão da pessoa que começa a fazer um tipo de literatura para não ser aceita e porque não é aceita fica com raiva, e então ela telefonou pedindo para fazer aquele negócio, eu não tive nem tempo e nem sei mais o que é que eu fiz.

Léo Gilson Ribeiro: Ela se despediu da literatura, é uma coisa meio...

Millôr Fernandes: Se despediu? Eu não sabia, quando ela falou comigo, não tinha se despedido não.

Léo Gilson Ribeiro: É uma coisa dolorosa para o Brasil, né?

Ethevaldo Dias: Millôr, você é um crítico de pormenores, você lê as coisas, descobre, Itararé é símbolo nacional do humor, e toda essa agucidade que você tem na crítica. Você consegue ser feliz assim, olhando tudo assim nas minúcias, o que é bom para você, Millôr?

Millôr Fernandes: Tudo. Inclusive isso, inclusive isso. [risos] Como eu disse no início aqui, eu disse a data em que eu comecei, a minha vida inteira eu tive muita gente querendo que eu fosse guru por isso, por aquilo; volta e meia tem gente querendo que eu seja guru, e a minha resposta é sempre esta: “este caminho só dá para um, não venha atrás de mim não que vai quebrar a cara”. É realmente preciso você ter uma solidez de compensações, que não dependem de você, extraordinária para você ver o mundo como eu vejo, o mundo que eu vejo é realmente um caos. Mas veja bem, Ethevaldo, no momento em que você vê o caos, você vê também a luz, e não estou querendo bancar Dom Elder não. Nós estamos no ano 1989, assim como o mundo progrediu em tecnologia, e hoje temos uma tecnologia admirável, de ponta em vários setores, informática, química e tudo mais, você pode estar certo de que o ser humano também progrediu. Existe hoje um ser humano de ponta, existe hoje um ser humano melhor. Um em mil, um em um milhão. A humanidade vai acompanhar esse sujeito por quanto tempo? Daqui a dez mil anos, talvez, se isso não explodir, dois fatores podem acabar com esse mundo, e o ser humano não fará nenhuma falta à economia do cosmo, pode ficar tranquilo. Mas se isso não acabar, nós teremos realmente um mundo maravilhoso dentro de mil, dois mil, três mil anos que eu tenho a impressão que você não estará mais aí. Eu devo estar. [risos]

Ethevaldo Dias: Nessas pessoas que você disse, um, das personalidades no mundo todo, tem algum que você admire, vivo, alguém vivo que, no mundo, você deposite uma esperança?

Augusto Nunes: Vivo ou morto?

Ethevaldo Dias: Só vivo.

Augusto Nunes: Morto tem vários.

Millôr Fernandes: Você tem, em cada setor, e não necessariamente da luz da ribalta - possivelmente quando nós chegamos à luz da ribalta, nós já estamos piorados, nós adquirimos o gosto da fama, nós já estamos piorados. Eu não estou fazendo apologia do primitivo não, o primitivo é um idiota, em geral, grosso. O bom selvagem para mim não existe. Você dá um facão para ele e ele já briga com outro para ficar com o facão. Não é isso, não. Mas surgem pessoas, não são pessoas universais nelas mesmas. Um é bom como o Jaguar é um cara boníssimo, agora você não pode confiar nele para nada, e é uma flor de pessoa, é um encanto de pessoa. [risos]

Casemiro Xavier de Mendonça: E no caso do desenhista [Saul] Steinberg [(1914-1999), cartunista nascido na Romênia, naturalizado americano] que tem um momento que tem tanta afinidade com seu trabalho?

Millôr Fernandes: Veja, do ponto de vista de talento, vamos pegar só no talento, quantas pessoas de talento real nós conhecemos? Você está falando do Steinberg? É realmente um talento... Quantos talentos existiram iguais a esse no mundo?

Ivan Ângelo: Millôr, vamos voltar um pouco à biografia. Como você se descobriu humorista, como se torna um humorista? Começou quando, desde quando?

Millôr Fernandes: Eu não descobri, eu estou até hoje ganhando a minha vida. Como eu, até hoje, como já confessei aqui porque me perguntaram, estou apenas na casa dos 50 milhões, quando eu conseguir sobreviver naturalmente, eu aí vou deixar minha profissão, mas por enquanto não está dando. O que acontece é o seguinte, eu acho que nós todos somos definitivamente glândulas, nós somos glândulas, não adianta. Você nasce uma pessoa abúlica, feito o Sarney, você jamais vai transformá-lo em Fidel Castro. Não há possibilidade nenhuma. A ambição de poder que você sente num Fidel Castro, por exemplo, só pode ser comparável à de Madre Tereza de Calcutá. [risos]

Augusto Nunes: Ruy Castro está querendo fazer a pergunta.

Millôr Fernandes: Mas o humor vem de uma coisa grandular. Eu, quando criança, era assim com o Hélio, meu irmão, nós costumávamos brigar, brigávamos, brigávamos, de repente, nós dizíamos assim – nós tínhamos descoberto a dialética - “agora você fica no meu lugar, eu fico no teu”, depois de a gente ter feito uma briga quase mortal. E meus parentes espanhóis, meu pai era espanhol, eram todos muito engraçados, e eu costumo repetir: eu sou primo-irmão do Fred Carequinha, era toda uma família de gente de circo.

Augusto Nunes: Aliás, Millôr, eu peço licença ao Ruy Castro para fazer uma pergunta da Estela Vasques, do Ibirapuera, ela diz assim: “Como você pode ter um irmão, o Hélio Fernandes, tão mal-humorado se você é humorista”? Ela pergunta se na infância, quando ocorria divisão de brinquedos, ficava o revolvinho - na expressão dela - para o Hélio, e você com a caixa de lápis de cor?” [risos]

Millôr Fernandes: Meu pai morreu, eu tinha um ano, e minha mãe morreu, eu tinha dez, entre mim e o Hélio tinha uma diferença de um ano de idade.

Augusto Mendes: Vocês conviveram muito pouco?

Millôr Fernandes: Não houve brinquedo, não houve caixinha, houve uma luta duríssima da qual eu não tenho a menor lamentação. Eu acho que toda dureza da minha vida foi compensada pela extraordinária relação que eu tive com as mulheres, pelo extraordinário carinho - e isso é confissão de machista - pelo extraordinário carinho e apoio que eu recebi de todas as mulheres da minha vida, a começar por dona Concheta de Nápoles, que quando eu tinha cinco anos, ela tinha setenta e oito, tinha quarenta e dois netos e bisnetos, e era apaixonada por mim.

Ruy Castro: Era isso é isso que eu queria perguntar ao Millôr. A sua frase que você já citou, “o melhor movimento feminino é o dos quadris”, que é uma das suas frases mais conhecidas, se tornou também odiada pelas feministas brasileiras. Agora, todos os seus amigos sabem que você quando conquista uma mulher, você a conquista para sempre. Ou seja, você é odiado pelas feministas no atacado e amado pelas mulheres no varejo. Qual a diferença das feministas e as mulheres?

Millôr Fernandes: Eu não sei, mas pode ser até uma coincidência. As mulheres todas que eu conheci eram todas mulheres com maior capacidade de sobrevivência do que eu. Se amanhã soprar uma bomba atômica, ou uma miséria, ou uma crise, qualquer coisa que realmente você volte a uma realidade fundamental, todas as mulheres que estavam a meu redor eram superiores a mim, mas definitivamente. E não estou fazendo nenhum elogio às presentes não. Veja bem, mulheres intelectualmente poderosas, mulheres do ponto de vista de sobrevivência poderosas, mulheres com capacidade de personalidade própria, e não me lembro de nenhuma que fosse feminista.

Augusto Nunes: Millôr, o Eduardo Souza Campos, da Penha, e a Marlene Gomes, da Consolação querem saber por que você saiu da revista Veja. E o Eduardo Souza Campos observa que diretores da Editora Abril já declararam que consideram uma ingratidão o processo que você moveu contra a Editora Abril? Por que você saiu da Veja?



Millôr Fernandes: Eu saí da Veja porque eu sou mais antigo do que a Veja, eu sou mais importante do que a Veja, [risos] eu sou anterior à Veja. É curiosa aquela conversa do Roberto Civita [(1936-), economista, jornalista e empresário italiano, presidente do maior grupo editorial e gráfico da América Latina, a Editora Abril, que publica a revista Veja] comigo, é um dos orgulhos que eu tenho, que há muitos, muitos, muitos anos, apesar de eu ser uma pessoa sozinha, eu trato com as pessoas com quem trabalho, dos big-shots, de potência para potência. Sempre! Desde [Francisco de Assis] Chateaubriand, que me descobriu três ou quatro vezes, nunca me aproximei do poder. O Roberto Civita mesmo é testemunha, se está me ouvindo. Ele me telefonou uns oito ou dez anos depois de eu trabalhar na revista: “Poxa, eu não te conheço, eu vou aí no Rio, será que nós podemos jantar juntos?” Eu nunca tive o gosto pelo poder. Um dos orgulhos meus, por exemplo, é que eu tenho um poder que ninguém tem. Eu me lembro quando eu comecei a esculhambar o Hélio Garcia [(1931-), prefeito de Belo Horizonte e governador do estado de Minas Gerais por dois mandatos], ele procurava o José Aparecido e perguntava: “O que esse cara quer?” Pensam que você quer alguma coisa. Mas eu não quero nada, eu não sou dominável por coisa nenhuma, não há possibilidade, você me oferecer dinheiro, bajulação... Eu acho mulher uma coisa bonita, agradável, não há possibilidade de eu sucumbir a nenhuma coisa nesse sentido, não há possibilidade. Eu sou invulnerável. Esse poder me dá um grande prazer. Agora da Veja... eu apoiei o Brizola por razões razoáveis, não por uma admiração, já não tinha idade para ter admirações, e havia algum grande interesse que não sei qual seja, da Veja, em que isso não continuasse. Devia ter um interesse fundamental, porque eu tive uma conversa de horas - espero que o Roberto Civita não me desminta - cavalheiresca, em que o Roberto Civita me fez as maiores declarações de amor, que eu era um cara importante, que era isso, zum-zum-zum, me pedindo para não sair, mas não abriu mão do ponto de vista dele que durante aquelas seis ou sete semanas só, que faltavam para as eleições, eu não escrevesse mais. E aí eu fui embora. Depois disso eu fiz apenas uma ação trabalhista, eu fui cerceado nos meus direitos dentro da empresa e ganhei os salários referentes a 13° salário e férias, porque como eu era um trabalhador, hoje eu sou uma empresa, como eu era um trabalhador, naquela época, autônomo, nem 13° salário eu recebia.

Augusto Nunes: Millôr, eu devo registrar, até porque na época eu trabalhava na Veja, um dos argumentos que eu ouvi na época, se dizia o seguinte: não fazia sentido você utilizar uma coluna de humor para apoiar alguém. Fazer um apoio sério, político. Você acha que você tendo um espaço num jornal, você pode utilizar como você quiser?

Millôr Fernandes: Eu tenho direito ao espaço, eu entro com essa premissa.

Augusto Nunes: É teu o espaço?

Millôr Fernandes: É meu espaço. Não tenho nenhuma dúvida. Não há nenhuma possibilidade... E eu sou perfeitamente cordato. Se amanhã o Jornal do Brasil telefonar para mim e disser “Millôr, o jornal vai fechar se escrever isso” ou “Pelo amor de Deus, vamos perder um negócio que é importante”, eu posso deixar de escrever. Agora, como já aconteceu uma vez no Cruzeiro, cortaram a palavra “amante”, aí eu não admito, porque aí se você cortar a palavra “amante” vai cortar tudo. Há pouco tempo, raríssimas vezes, devem ter telefonado para mim duas ou três vezes nesses quatro anos, que eu trabalho no Jornal do Brasil, e há pouquíssimo tempo o Marcos de Sá Correia [jornalista] telefonou para mim, e quando ele telefonou para mim, eu disse: “Eu já sei, Marcos, pode cortar”. Tinha o negócio sobre o Daniel Filho [(1937-), ator e diretor de cinema e televisão ligado à Rede Globo], estou sempre fazendo a antimoral, sempre estou fazendo a antimoral! E eu esculhambei com ele porque era um prepotente e exibicionista, e botei assim: “Nem veado é”! [risos] Porque evidentemente é um direito que você tem, se você é homossexual, você tem todo direito de chegar, beijar homem na boca, mas no caso dele, ele é um prepotente, quer exibir. E quando eu botei, aí ele telefonou e disse: “Millôr, você pode cortar a palavra veado? Pelo seguinte: está tudo indo pelo computador agora, e você é respeitado aqui, aí a garotada vai começar botar veado em tudo”! [risos]

Léo Gilson Ribeiro: Millôr, sem querer - ao contrário do Maurício Kubrusly - me ater a rótulos talvez errôneos ou obsoletos, eu queria saber se, por exemplo, você de um [“Até caiu a caneta”, diz Maurício Kubrusly] pré-marxista não passou a um anarquista ou você já era um anarquista?

Millôr Fernandes: A definição mais próxima que você pode dar de mim é de anarquista, mas não aquele anarquista pejorativo que pode botar a bomba, não. No anarquista não há nada de ser partido, de um indivíduo para a sociedade, não de um poder que dita... Agora, você vê, hoje mesmo deve ter saído, hoje ou amanhã deve estar saindo um artigo do Jornal do Brasil, a maior violência, eu chamo burocracia, hoje, de canalha, é canalha, é canalha, e se o cidadão não reagir, eles vão fazer tudo o que querem. Mas eu digo tem que reagir contra o burocrata que está lá em cima ditando a lei, e contra a velhinha do guichê. Hoje eu cheguei lá, minha não passagem estava marcada, eu falei com a moça, comecei a falar, falei e gritei com ela: “você tem que me atender aqui”! Porque se você não falar, a pessoa que está no balcão: “Ah, estou ganhando pouco”. Não interessa que está ganhando pouco, tem que te atender, a função é te atender. Se você não reage, essas pessoas vão feito carneiro, colam aquele selinho, agora põe aquele cinto. Se o cinto é tão bom e faz tanta segurança, faz propaganda e quem quiser que use, 90% das pessoas usam. Eu não estou prejudicando ninguém, se eu vou sentado lá atrás, então, eu quero morrer, não é verdade? [risos] Isso significa o quê? Significa um lobby gigantesco da indústria e um lobby desses sacanas todos que querem tomar dinheiro da gente. Agora, por que não fazem isso com os ônibus? Por que não obrigam os caras que vão nos ônibus a usar cinto? Devia usar primeiro, não é? [risos]

Maurício Kubrusly: Millôr, nessas sólidas compensações que você falou que tem na vida - mas esse é o trabalho todo? Você às vezes - tomando você como exemplo - fala que o trabalho intelectual no Brasil, pela mídia em geral, não é valorizado. Será que é porque você escreve em português? Você acha que se escrevesse em inglês, se estivesse num país que tivesse um volume maior de circulação, em vez de você publicar um livro com três mil exemplares, publicasse com vinte mil exemplares, etc e etc., um país que talvez vivesse em uma outra... seria diferente? Ou você acha que lá os bons intelectuais também são menosprezados ou não efetivamente valorizados pela mídia?


Millôr Fernandes: Não, é o sistema lá que já melhorou muito. O que acontece no Brasil é que o intelectual brasileiro é um pouco intelectual demais para meu gosto, é um beletrista, de modo geral. Você pega socialista no Brasil, eu acho impressionante que o socialista no Brasil... Folha de S. Paulo, quem está aqui da Folha de S. Paulo? Você pega A Folha de S. Paulo, todos aqueles caras que estão escrevendo aqueles artiguinhos são todos socialistas ou socializantes. Eu quero saber se fizeram uma associação dizendo para o jornal, para o seu Frias [dono da Folha]: “Em nosso negócio, o mínimo que nós vamos receber por artigo é 200 pratas ou 500 pratas e vai dar para [...]”! Então, Fernando Henrique Cardoso [sociólogo e político brasileiro, foi presidente da República por dois mandatos, que na época desta entrevista, durante o governo Sarney, ocupava o cargo de líder do governo no Congresso Nacional], Severo [Fagundes] Gomes [(1924-1992), político e empresário brasileiro, ex-ministro da Agricultura e da Indústria e Comércio, na época desta entrevista era senador por São Paulo], todos os nossos socialistazinhos aí. Não, eles fazem uma concorrência desleal com o trabalhador que está lá, e são socialistas. E chega na hora do dinheiro: “Ah, mas nós precisamos”. O jornal também precisa da voz deles, são vozes importantes, mas eles têm que fazer uma reunião para não entrar em concorrência desleal. E todos os intelectuais do Brasil são assim, aceitam o trabalho por menos, fazem concorrência desleal. Eu nunca trabalhei em um lugar, se você me pedir um artigo hoje e eu estou ganhando mil cruzados por um artigo, o próximo vai ser mil e quinhentos. Eu já estou ganhando mil. Se você quiser pagar mil e quinhentos, paga. Aconselha ela o tempo todo. Se eu tenho que fazer uma conferência, por que 50 pratas numa conferência? Por que não 200? Não pagam? Perfeito, não vai. Agora, um intelectual brasileiro não aceita dez mil réis, aceita cinco cruzados e vai a qualquer coisa. No teatro, um dia eu entrei na Sbat [Sociedade Brasileira de Autores Teatrais], eu estava brigando com umas pessoas, por uma série de coisas, e entrou um administrador lá de muitos anos, e ele disse assim: “Faz como Millôr mandou, foi ele quem impôs os 5% aqui”. Quando eu entrei no teatro, eu impus 5% pela tradução e não fiz por menos. E depois como todo mundo queria me dar, para não fazer concorrência aos que estavam entrando e para me valorizar, eu passei a cobrar 6%. Hoje se você entrar no teatro e fizer uma tradução, nenhum produtor reclama, se você conseguir - o mercado é pequeno - numa peça de sucesso você vai ganhar muito bem. O que acontece? Já tem gente fazendo por quatro. [risos]

Augusto Nunes: Millôr, você já disse que se incomoda, respondendo ao Maurício, com algumas críticas, quero saber se você se incomoda com alguns elogios.

Millôr Fernandes: Não disse isso, não.

Augusto Nunes: Algumas críticas te aborrecem.

Millôr Fernandes: Não, eu não disse isso, a filosofia da... A incapacidade do crítico é que me aborrece, o crítico não tem gabarito.

Augusto Nunes: Então, quero ver se alguns elogios te aborrecem, porque vários jornalistas já ouviram do Delfim Netto, deputado hoje e ex-ministro, a seguinte frase:

O Millôr é o melhor escritor brasileiro, ele é melhor que Bernard Shaw, inclusive quando imita o Bernard Shaw.
 O que você diz desse comentário?

Millôr Fernandes: Ele não conhece nem a mim e nem a Bernardo Shaw. [risos] Você sabe e eu vou te falar de crítica, a crítica no sentido mais profundo da palavra, eu falo muito isso com a Cora. Eu recebo carta de manhã, que vem no jornal, e aí é suscetibilidade. Você ver aquelas cartas elogiando, não querem dizer nada. Agora, se vem uma carta te esculhambando, mesmo de um idiota, te faz mal. Isso é engraçado, o ser humano é muito fraco a esse respeito. Essas críticas do profissional ruim me dão irritação, ele não devia estar aí. Agora, do leitor, às vezes, é um idiota, mas ele xinga você, aquilo me dá um desagrado! [risos]

Augusto Nunes: Millôr, o Timóteo Barreiro Filho, de Jaguariúna, lembrando que foi seu foca, jornalista principiante, na época em que ele trabalhou no Rio, disse que você já afirmou que o homem é um macaco que não deu certo, quero saber se você continua com essa opinião?

Millôr Fernandes: Não, com essa expressão não.

Augusto Nunes: Você não disse isso?

Millôr Fernandes: Não, a expressão é pouco elegante para mim. Eu disse que o ser humano não deu certo, mas assim, tranqüilamente. E me desculpe ele, mas Timóteo, meu estilo é melhor: o ser humano não deu certo. É uma experiência que não deu certo.

Léo Gilson Ribeiro: Na sua opinião, por que o Lampião acabou?

Millôr Fernandes: Eu tenho a impressão, Léo, pelo mesmo motivo por que os jornais de esquerda não deram certo. Era muito setorial. Quando você faz um jornal muito setorial, ele acaba não tendo interesse no grupinho, e acaba esse grupinho se desinteressando. Qual o jornal de esquerda propriamente dito no Brasil que abriu uma brecha? Nenhum. Os caras acabam fazendo um boletim, um house organ [nome que se dá ao veículo de comunicação que circula dentro de empresas e entidades, servindo de porta-voz entre funcionário e patrão, por meio do qual são divulgados eventos e fatos internos], muito embora eu sempre diga que o house organ é o pênis do meu pai, [risos] eu conheço mais house organ do que....[risos]. Mas você não pode fazer um negócio setorial. Eu consegui me manter até hoje vivo porque, por felicidade minha, eu me canso antes do leitor. Eu, um dia, mandei fazer um levantamento porque eu precisava fazer um livro de haikai [pequenos poemas, de origem japonesa, com apenas uma estrofe de, no máximo, três versos igualmente curtos], fiz 420 haikais. Uma coisa assombrosa, mas através dos anos. Eu faço um, faço dois, daqui três meses faço mais um, daqui cinco meses, eu faço quatro, e quando você vê, trabalha a vida inteira, já fez uma porção, mas eu me canso, eu faço dois, três e me canso, aí esqueço...

Augusto Nunes: Como nasce o haikai, Millôr?

Millôr Fernandes: Das mais variadas maneiras, eu nem sei te dizer. Eu trabalho tanto realmente que não sei, mas nasce muito da própria palavra.

Joãozinho: Obra de humor negro escrito por Millôr em 1952.
Desenhado por Péricles Maranhão ("O Amigo da Onça")
Augusto Nunes: A elaboração é demorada?

Millôr Fernandes: Eu crio muito pela palavra, peça de teatro eu posso dizer: nasce de nada. Me dá aquele sentimento, eu começo a escrever, o personagem daqui a pouco bate na porta, e enquanto o personagem bate na porta, eu tenho um poder absoluto: ele pode ser negro, branco, alto, uma mulher, pode ser um homem, pode ser uma velha, enquanto ele entra. Quando entra uma velha, tem que se comportar como uma velha. Daqui a pouco ele assume a sua própria fisionomia, sua própria psicologia e me domina. Para eu dar uma volta nesse personagem, eu tenho que inventar um processo muito violento, arrancar uma perna dele...

Ivan Ângelo: Quer dizer que você não faz uma sinopse?

Millôr Fernandes: Não. Tem pessoas que escrevem acabado, que escrevem quando já sabem tudo, e eu não sei absolutamente nada.

Augusto Nunes: Millôr, você é um homem de atividades múltiplas. Na sua rotina você faz várias coisas todos os dias ou quando você está escrevendo uma peça de teatro, por exemplo, você se concentra nisso?

Millôr Fernandes: Não, as coisas episódicas eu faço todos os dias. Eu só consigo manter a minha qualidade, que eu espero ter mantido numa sessão semanal através dos tempos, porque eu faço todo dia meia dúzia de coisas para aquela sessão. Ninguém seria capaz de fazer aquela sessão na última hora, aí faz uma porcaria. Eu faria um desenho grande, você pode fazer uma idéia. Mas eu vou fazendo, quando chega no fim da semana, digamos que eu tenha cinquenta tópicos, eu escolho cinco, escolho três, às vezes escolho um só.

Augusto Nunes: Mas, por exemplo Millôr, quando você recebe, você combina fazer uma tradução. Enquanto você faz essa tradução de uma peça, você deixa de fazer haikais, por exemplo, deixa de desenhar?

Millôr Fernandes: Não, por raríssimas exceções...

Augusto Nunes: Desenhar?

Millôr Fernandes: Não, porque eu sou obrigado a fazer, disso eu vivo, né. Com raríssimas exceções, quando eu fiz o Hamlet - tem pessoas que levam cinco anos traduzindo, outras levam trinta anos, duzentos anos, Carlos Lacerda levou quinze dias, eu fiz em quatro meses, é um tempo bastante hábil para se fazer. Quatro meses são 120 dias para você traduzir, mas quatro meses de trabalho, tinha dias de eu só fazer meia página. Mas se você fizer 120 dias, numa média de uma página por dia, você traduziu o Hamlet. Mas é um trabalho de monge. Eu me lembro que tinha até carnaval, eu estava vendo o carnaval lá fora, comendo, e “poxa, eu estou aqui fazendo isso”. E aí eu pensava: “só eu estou fazendo isso”. Eu estava tendo um prazer extraordinário em fazer aquilo. Você chegava no meu estúdio lá, tinha 500 livros, 500 dicionários marcados com clipe vermelho, amarelo, azul, as edições em espanhol, francês, as edições em italiano, todas as línguas que eu sei lá, e inglês, tinha algumas em inglês, do Shakespeare. [risos]

Maurício Kubrusly: Você que trabalha tanto, fala tanto nesse trabalho, o computador facilita, é bom?

Millôr Fernandes: Para mim o computador é um atraso de vida do ponto de vista de... a não ser no outro processo, quer dizer, o processador de texto realmente é uma maravilha. Mas o processador de textos é uma maravilha no sentido de que ele te dá um acabamento definitivo, e eu sou um mau datilógrafo, então na máquina de escrever, eu já não tinha mais saco, eu escrevia vinte linhas, rabiscava e tinha que bater à máquina. E o computador tem isso de bom, você vai batendo, batendo. E o computador tem uma coisa que as pessoas não percebem, mas que é fundamental, eu aconselho todo mundo que trabalha com trabalho intelectual a entrar no computador. Ele é absolutamente lúdico, você leva muito mais tempo para escrever um artigo, mas ele é lúdico, ele é divertido, você não se chateia nunca. E estamos há três anos, e estamos aí com a maior conhecedora de software [referindo-se a Cora Rónai]. Olha, eu vou me arriscar, se não é agora, daqui a meia hora, do mundo, mesmo nos Estados Unidos, onde a pessoa tem acesso a todos os softwares, acontece o seguinte: você só tem vinte, 24 horas de vida, e só tem uma bunda para sentar na cadeira. Agora, uma pessoa que está disposta a sentar cinco, seis, sete horas por dia e ver todos os softwares, e hoje tem acesso a todos os softwares porque ela telefona para os Estados Unidos e chega, pelo prestígio que ela ganhou, pode perguntar qualquer software que você quiser que ela sabe. Quanto ao Word Processor, o processador de textos para o espectador, é sensacional. É difícil você voltar atrás. E o outro lado meu é o lado do desenho, que é uma tecnologia de ponta, que a gente vai dominando e de repente esbarra porque percebe que não está a fim. Agora, estou mudando tudo, e vou ter um computador magnífico, máquinas magníficas, eu vou fazer coisas magníficas que não serão publicadas em lugar nenhum. [risos]

Augusto Nunes: Cora Rónai vai fazer a última pergunta do programa.

Millôr Fernandes: Espero que seja do programa. [risos]

Cora Rónai: Olha, eu acho que você mais ou menos já respondeu a essa pergunta ao longo do programa, mas eu vou sintetizar: você é feliz?

Millôr Fernandes: [Fica pensativo e demora para responder] Olha, você dizer isso hoje é até uma coisa agressiva para o Millôr. Eu sou extraordinariamente feliz.

Augusto Nunes: Nós agradecemos sinceramente a presença do Millôr Fernandes aqui no Roda Viva, porque eu acho que a presença, a participação do Millôr é um sinal de que pode haver vida inteligente na televisão. Muito obrigado ao Millôr, muito obrigado, aos telespectadores que nos telefonaram, aos entrevistadores, e aos convidados de produção aqui presentes.



Com suas tiradas sensacionais, Millôr parecia perfeito para esses tempos de microblog. Tanto que possuía 368.906 seguidores (e parece que ainda responde a alguns tuítes, lá do além, afinal tem resposta de cerca de duas horas. Isso é que é ghostwriter). Não dá mais para seguí-lo. Mas pelo menos dá para rever a atividade de @millorfernandes e viver um pouco a saudade.

Segue a biografia do escritor Millôr Fernandes, disponível em seu site oficial Millôr, enfim um escritor sem estilo:

1924
Nascido Milton Fernandes, no Meyer, em 16 de agosto. Ou em 27 de maio? Ou em 27 de maio do ano anterior? Há desencontros de opinião na família. Na carteira de identidade: 27-05-1924. Meu amigo, Frederico Chateaubriand, sempre repetia, quando se falava que alguém estava “muito moço”, isto é, aparentava menos que a idade que tinha: “Idade é a da carteira”. Isto é, não adianta ter qualquer esperança contra a cronologia. No meu caso talvez a carteira esteja (um pouquinho) a meu favor.
1925
Morto meu pai. Nessa idade a orfandade passa impressentida. Mas a família – mãe com quatro filhos – cai de nível imediatamente.
1931
Entrada para a Escola Enes de Sousa, no mesmo Meyer, educandário dirigido por Isabel Mendes, mestra extraordinária que mais tarde receberia a homenagem de ter o colégio batizado com o seu nome. Enes de Sousa, só fui saber quem era muitos anos mais tarde, nas memórias de Pedro Navas. Um abolicionista, se é que isso existe.
1934
Morta minha mãe. Sozinho no mundo tive a sensação da injustiça da vida e concluí que Deus em absoluto não existia. Mas o sentimento foi de paz, que durou para sempre, com relação à religião: a paz da descrença.
1934 a 1937
O período dickensiano, vendo o bife ser posto no prato dos primos, sem que o órfão tivesse direito. A família dispersa, os quatro irmãos cada qual pro seu lado, tentando sobreviver.
1938
15 de março: início da profissão de jornalista.
1938 a 1942
Liceu de Artes e Ofícios, onde um dia um professor deteve a massa dos alunos que desciam as enormes escadarias e, no meio de todo mundo, advertiu-me para que eu nunca mais zombasse de um colega. “As pessoas podem perdoar que você bata a sua carteira mas jamais perdoarão isso.” Aprendi.
1941
Descubro, aos 17 anos, que não me chamo Milton, mas Millôr. Acho bom, não mudo, e o nome logo ’pega’.
1943
Começam os anos gloriosos da revista ’O Cruzeiro’, que um grupo de meninos levaria dos estagnados 11.000 exemplares tradicionais a 750.000.
1944
Com tio Viola, chefe da gráfica ’O Cruzeiro’, responsável por minha entrada no jornalismo. Viola, nome da família pelo lado italiano, teve recentemente uma possibilidade de glória. Eu vi o Papa João Paulo I dizer na televisão: “Todos os Violas do Brasil são meus primos.” Mas morreu logo depois.
1946
A vida era bela e não sabíamos. Ou sabíamos? Aqui, Péricles Maranhão, autor da figura mais popular no humor brasileiro de todos os tempos: ’O Amigo da Onça’. Canhestramente faço o ’amigo’ da foto.
1948
Na foto com Walt Disney, no estúdio dele, em Hollywood. Foto cuidadosamente posada. Nessa época eu ainda acreditava que Disney sabia desenhar. Só mais tarde, lendo sua biografia, aprendi que até aquela assinatura bacana com que ele autentica os desenhos é criação da equipe.
1949
Comecei a programar viagens fora do país. Primeiro em países da América do Sul, depois Estados Unidos. Deixei a Europa pro fim. Ainda era um acontecimento, viajar.
1950
O sucesso de ’O Cruzeiro’ faz os jornalistas virarem notícia. Na redação, entrevista para o rádio, uma espécie de televisão da época, muito melhor, porque sem imagem.
1951
Viajo bastante pelo Brasil, coisa que sempre gostei de fazer, mas de carro, única forma de sentir as tremendas distâncias.
1952
Faço questão que o ministro brasileiro me batize nas águas do Rio Jordão, em Israel. Cada um tem o São João Batista que merece.
1953
Vice-campeão mundial de pesca ao atum na Nova Escócia. Nunca tinha pescado em minha vida e nunca peguei um peixe. Uma longa história que não cabe aqui.
1954
Compramos por Cr$ 2.700 um apartamento no Rio, num lugar mais ou menos distante, chamado Vieira Souto. Quando a granfinada soube, correu atrás de mim e o lugar virou ’status’, o metro quadrado mais caro do mundo. Hoje a portaria da minha casa é o centro de prostituição – na sua quase totalidade exercida por travestis – da cidade. E de qualquer maneira a janela do meu apartamento, no quarto andar, é o local ideal para um sociólogo amador.
1955
Cobertura jornalística de campanha eleitoral. Aí conheci um jovem e engraçado político chamado Jânio e um homem esquisitamente ético chamado Milton Campos. Glória das glórias: ganho o primeiro lugar num concurso de desenhos em Buenos Aires, junto com Steinberg.
1956
Festival de Cannes, casamento de Grace Kelly. Este acontecimento até hoje rende mentiras por parte de muitos jornalistas. Guardo as minhas para momentos insípidos de conversação.
1957
Primeira exposição de desenhos no Museu de Arte Moderna, naquela época uma sala em baixo do Ministério da Educação. Melhor cenógrafo do ano. Por quê?
1958
Um ano ou dois antes, não estou certo, nosso grupo implantava o frescobol em Ipanema. Me lembro que antes apareceu uma besteira chamada ’la pelote basque sans fronton’. Eu me auto-proclamei campeão do frescobol do posto 9. Mantive o título por muito tempo: quando alguém jogava melhor do que eu, eu dizia que ele era do posto 8.
1960
Minha peça ’Um elefante no caos’ estréia depois de uma briga enorme com a censura, transformada num excelente espetáculo pela genial direção de João Bittencourt. Uma das poucas vezes que um diretor melhorou um trabalho meu.
1961
Exposição de desenhos na Petite Galerie. Viagem ao Egito. Voltamos correndo com a renúncia de Jânio.
1963
Uma “questão religiosa” me coloca em conflito com a tradicional ’ética’ dos ’Diários Associados’. Num discurso público, declaro: me sinto como um navio abandonando os ratos.
1964
Preparando o lançamento de ’O PIF-PAF’, quinzenal que, em 1979, o serviço de informações do exército consideraria oficialmente como o início da imprensa alternativa no Brasil. Ainda bem, porque fecharam o jornal no oitavo número e eu fiquei devendo 21.000 cruzeiros. Meu valor na praça, então, era mais ou menos 500 cruzeiros mensais.
1965
“Liberdade, Liberdade”, com Flávio Rangel. Um barato no meio do caos. Depois a censura proíbe. Como proíbe também, na íntegra, “Este mundo é meu”, com Sérgio Ricardo.
1966
Cada vez me meto mais, profissionalmente, no teatro. Traduções, adaptações, originais. Representamos, no Largo do Boticário, a versão musical de “Memórias de um Sargento de Milícias”, só com atores negros.
1967
Topo fazer o ator ao lado de Elizeth Cardoso e o Zimbo Trio. Uma experiência inesquecível, que outras ocupações não me deixaram repetir.
1968
O período efervescente do Pasquim. Parecia até que o país existia e que certa socialização, confundida com uma fugida fraternidade, era possível.
1970
Sempre viajando pelo Brasil.
1971
A “parada” com o sistema engrossa. Quase não publicamos nada inteligível e o teatro fica praticamente impossível.
1972
Volto a me interessar por livros. Lanço ao mesmo tempo “A Verdadeira História do Paraíso” e “Trinta anos de mim mesmo”, um resumo de anos de trabalho, numa noite de autógrafos denominada “Noite da Contra-incultura”.
1973
Promovido a cidadão mineiro, afinal, pela Câmara de Conceição-de-Mato-Dentro.
1975
Exposição na Graffiti. Fim da censura no ’Pasquim’.
1976
Escrevo “É…”.
1977
Na foto eu tenho a rara oportunidade de dar alguns esclarecimentos políticos a Mário Lago.
1978
Um trabalho muito mais difícil do que podia parecer: a adaptação de “Deus lhe Pague”.
1979
Aos poucos, venho descobrindo mais o Rio Grande do Sul, onde só tinha estado há muito tempo. Vou me agauchando.
1986
Compro o primeiro computador, um XT a vapor, mesmo assim considerado por muitos uma extraordinária peça de ficção científica.
1988
Comemoração de 50 anos de jornalismo. 25 de março, na casa de Técio Lins e Silva e Regina Pimentel.
1996
Com Monique Duvernoy, Fernando Pedreira e Cora Ronai, em Auvers-sur-oise.
1997
Com Cora Ronai e Ocimar Versolato, jantando na casa de Monique Duvernoy e Fernando Pedreira.
2000
Lançamento do saite “Millôr Online”, com festa no Copacabana Palace, Rio.

Fonte: Memória Roda Viva, Blog do TAS, Revista Veja, G1, Revista IstoÉ
[Via BBA]

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