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Chico Anysio fala ao Roda Viva

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Chico Anysio fala ao Roda Viva em 1993 explicando porque havia parado de fazer os personagens para fazer a Escolinha do Professor Raimundo. ...

Chico Anysio fala ao Roda Viva em 1993 explicando porque havia parado de fazer os personagens para fazer a Escolinha do Professor Raimundo.



Jorge Escosteguy: Boa Noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Nosso assunto de hoje é o humorismo, humor e outros assuntos, política e etc, porque o nosso convidado desta noite é um polivalente. No centro da roda está sentado Chico Anysio, cearense de Maranguape, 62 anos, humorista, comediante, compositor, pintor, diretor de teatro, comentarista esportivo e escritor. Chico Anysio está lançando seu décimo quarto livro: Jesuíno, o profeta. Este programa, pela TV Cultura será transmitido ao vivo também pela TV Pernambuco, TV Cultura do Pará, TV Maíra de Rondônia, TV Minas Cultural e Educativa, TV Vídeo Cabo de Belo Horizonte, TVE da Bahia, TVE do Ceará, TVE do Piauí, TVE do Paraná, TVE de Porto Alegre, TVE do Espírito Santo e TVE do Mato Grosso do Sul. Para entrevistar Chico Anysio, esta noite aqui no Roda Viva, nós convidamos: Alex Solnik, editor da revista Interview, jornalista Edélcio Mostaço, Tato Coutinho, editor de telejornalismo da TV Cultura de São Paulo, o cartunista Paulo Caruso, Regina Echeverria, repórter da revista Ícaro. Lembramos aos telespectadores que, como este programa foi gravado, não haverá perguntas por telefone, ao vivo. Boa Noite Chico.



Chico Anysio: Boa Noite, boa noite para todos.

Jorge Escosteguy: Você parece que depois de todas essas atividades aqui: humorista, comediante, compositor, etc, etc, está pensando em se dedicar a uma outra que é a de político, se candidatar a deputado. Isto é verdade?

Chico Anysio: Não. Pensei só. Foi verdade durante um espaço de tempo, porque eu calculei que o fato de fazer um personagem, não me obrigasse a tirá-lo do ar por quatro meses antes da eleição, porque eu me sinto tão isolado do professor Raimundo, ele é uma coisa tão diferente de mim, que eu pensei que ele pudesse seguir, desde que eu não o fizesse através dele nenhuma...

Jorge Escosteguy: Propaganda política ou algo parecido.

Chico Anysio: Propaganda política. Mas aí, depois, eu fui informado que não, que mesmo a voz teria que sair do ar. E, se o programa saísse do ar por quatro meses, a Globo não o colocaria de novo, então, tirar do ar o programa, eu não vou desempregar...

Jorge Escosteguy: Não valia a pena trocar o personagem do professor Raimundo por outro personagem? Política.

Chico Anysio: Não, não, não.

Jorge Escosteguy: Agora, por que você de repente resolveu aderir...

Chico Anysio: Porque eu sempre fui convidado, muito. Desde que voltaram as eleições eu sempre fui convidado. Já fui convidado até para ser candidato a senador e a deputado estadual, a vereador, deputado federal e tal. Eu nunca aceitei. Aí, neste ano, como eu não estava mais fazendo o Fantástico nem o Jornal da Globo, nada. De cara limpa, eu achei que pelo fato de fazer apenas o professor Raymundo, que isso seria uma coisa viável, e aí admiti essa possibilidade.

Jorge Escosteguy: Mas eu digo... Por que a política? Quer dizer, por que você de repente gostaria de ser um deputado, por exemplo, deputado federal?

Chico Anysio: Por uma razão, porque eu acho que era a maneira de cortar um pouco a grande frustração da minha vida que era não ter sido advogado. Eu acho que eu seria um bom advogado, e o deputado é um advogado do povo, eu não iria para lá do mesmo modo que a maioria está, eu iria para valer, não é? Talvez eu fosse ser o ridículo da Câmara.

Jorge Escosteguy: Um humorista fazendo o político a sério?

Chico Anysio: A sério. Então, talvez eu fosse ser o ridículo da Câmara, não me importava isso.

Regina Echeverria: Você acredita nisso, Chico? Acha que é possível fazer política a sério no Brasil? Hoje com representatividade, indo para Câmara, sendo deputado, senador?

Chico Anysio: Acho difícil, acho difícil, mas não me custava tentar.

Regina Echeverria: Você acha que valia a pena? Você tem 36 anos de televisão, estava falando agora não é? Uma troca dessas?

Chico Anysio: Não, eu não ia trocar. Eu ia fazer também, entendeu? Eu não ia trocar.

Jorge Escosteguy: Quer dizer, a legislação não obrigaria você a uma troca, no caso, se você tivesse que sair do ar?

Chico Anysio: Não, não, eu não trocaria. O que eu queria é continuar com a minha Escolinha... [Escolinha do professor Raimundo]

Regina Echeverria: [interrompendo] Se você tivesse que optar, não escolheria?

Chico Anysio: Ah, não! Se eu, eu já optei, já optei.

Tato Coutinho: Você acha que o fato de ser um humorista, te daria mais legitimidade para circular nesse meio, na Câmara?

Chico Anysio: Não, eu acho o seguinte: Eu acho que...

Tato Coutinho: [interrompendo] No meio de tanta trapalhada.

Chico Anysio: Não eu vou falar uma coisa aqui que vai parecer até um vitupério, mas eu tenho uma grande credibilidade junto ao povo. Eu nunca fiz comercial de nada que não fosse bom. Até já deixei de ganhar dinheiro por isso, eu nunca deixei de ser um advogado do povão. O meu programa durante 35 anos esteve semanalmente no ar e era absolutamente crítica social. Eu sempre defendi o pobre, o preto, o nordestino, o retirante, o mendigo, o preso, o esfarrapado. Então, rico, nos meus programas, sempre fez papéis ridículos, nunca eu fiz um rico que se desse bem no meu programa. Que era uma maneira de dar um sonho, que fosse, para o povão que vê o programa. Então, eu fiz uma pesquisa, eu não estava insso assim, aleatoriamente. Quando me ocorreu que eu poderia me candidatar, eu encomendei ao Ibope [Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística] uma pesquisa, e a pesquisa foi surpreendente, o próprio Ibope ficou surpreso com aquela pesquisa, não é que me davam, 58% votariam em mim para deputado estadual, 53% para deputado federal; 44% votariam em mim para senador, trinta e tantos por cento para prefeito, 28% para governador e 18% votaria em mim para presidente da República.

Regina Echeverria: Isso saindo por onde? Por que estado?

Chico Anysio: Isso por São Paulo.

Regina Echeverria: São Paulo?

Chico Anysio: É

Jorge Escosteguy: Partido? Partido, você tinha algum?

Chico Anysio: Não, eu tinha quatro partidos em vista, possíveis. Três com certeza.

Jorge Escosteguy: Da sua preferência, qual seria?

Chico Anysio: O PMDB.

Alex Solnik: Você sairia praticamente eleito, não é? No cargo de deputado, até senador, tranqüilamente, não é?

Chico Anysio: Eu acho que sim. Acho que para deputado com certeza.

Alex Solnik: E prefeito e governador, bem possível, até.

Chico Anysio: Acho que até levava mais dois comigo, não é?

Alex Solnik: Agora, Chico, você... Não sei se você viu um vídeo que está passando aqui no Brasil, um vídeo inglês, sobre a Rede Globo?

Chico Anysio: Não, não vi.

Alex Solnik: E aí, nesse vídeo, algumas pessoas, inclusive o Chico Buarque é uma delas, compara Roberto Marinho com cidadão Kane [personagem do filme de mesmo nome, dirigido e estrelado por Orson Welles, que seria o homem mais rico do mundo comandando uma empresa de comunicação].

Chico Anysio: Sei.

Alex Solnik: É um cara tão poderoso que tem o poder político, além das telecomunicações. Você concorda? Você acha que o Roberto Marinho é um cidadão Kane ?

Chico Anysio: Ele pode até ser, mas ele não se fez, fizeram-no, não é? Porque, como eu sou da Globo há 24 anos, eu acompanhei o princípio da Globo, não é? Venho de longe nela. Eu sou da Globo no tempo que a Globo não era líder ainda. Então a Rede Globo, ela se fez uma grande potência, uma grande força, ela é, mas isso aí se deve muito mais à falta de concorrência. O Roberto Marinho, eu não acho que ele tenha pensado algum dia em vir a ser o que ele é hoje. Cidadão Kane, não. Eu acho que cidadão Kane é uma comparação meio pejorativa. Mas eu acho, também, que tem uma coisa a favor dele, talvez seja contra. Nunca houve caso de estação nenhuma manter durante tantos anos a liderança. A Globo é caso ímpar no mundo. Só ela consegue isso. Mas ela não...

Alex Solnik: [interrompendo] Você acha bom? Porque ela tem o monopólio, não é?

Chico Anysio: Não, eu acho péssimo! Falta concorrência, não acho nada bom. Não, não acho, não acho, A Globo parte de uma audiência inicial de 25 pontos. Eu acho que nada no ar, dá 25 na Globo...

Paulo Caruso: [interrompendo] Estou com uma questão no ar, que é aí nesse vídeo principalmente, que é o seguinte: é colocado ali, que o império do Roberto Marinho se fez à sombra do seu crescimento sobre a ditadura militar, quer dizer, o jogo de trocas de favores, quer dizer, não entrar em área de conflito. Armando Falcão [ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel. Ver entrevista com Falcão no Roda Viva] mesmo parece que aparece nesse vídeo dizendo que ele adora o Roberto Marinho, não sabe por que falam tão mal dele, porque ele sempre, enquanto o Armando Falcão era o censor, o Roberto Marinho sempre foi muito bonzinho com ele, não é? Eu tenho uma pergunta que é um pouco dirigida para isso, na tua carreira, quer dizer, depois de 36 anos de profissão...

Chico Anysio: Sei.

Paulo Caruso: Você pegou... Eu me lembro de assistir o seu programa quando eu tinha 11 anos de idade, em 61 por aí, e já era um sucesso.

Chico Anysio: Era.

Paulo Caruso: Já era uma coisa assim que pegava toda a classe média, principalmente. Então você pegou, ao longo desses 36 anos, pegou a renúncia do Jânio, pegou o golpe de 64, pegou 68, pegou 73, que foi o pior período da ditadura...

Chico Anysio: [interrompendo] E peguei o Estado Novo ainda, Getúlio Vargas.

Paulo Caruso: Getúlio Vargas também?

Chico Anysio: Peguei, peguei Dutra.

Paulo Caruso: Como é que é fazer humor na ditadura? O que você teve que mudar no teu...

Chico Anysio: Foi a pior época, na ditadura foi a pior época, porque qualquer censura é ruim, não é? Quer dizer, foi ruim no rádio no tempo que tinha o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, já era ruim, no rádio. Cortaram coisas absurdas, não é? Cortaram... eu me lembro que um dia eu escrevi “Auri-verde, pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança”, o pessoal cortou beija e balança, quer dizer, eu acho...
[risos]

Jorge Escosteguy: Acharam que você estava esculhambando!

Chico Anysio: Tive que ir lá explicar que era do Castro Alves, não era meu, não tinha culpa. Sabe, cortaram coisas, eu botei “Você vai para a Europa, vê se me consegue uns afrescos de Rafael” Aí cortaram afresco, o cara pôs uma puxadinha e pôs assim, diga: "rapazes de maus hábitos". Uma coisa absurda as pessoas que censuram eram tão...

Paulo Caruso: Era ignorância.

Chico Anysio: Porque eu acho que mais medo da censura, tem o próprio censor, o próprio censor. O censor corta muito, muitas coisas que não seriam cortadas, se as pessoas que cortassem tivessem uma autoridade maior do que a dele. Ele tem medo de ser chamado à atenção pelo seu chefe. Então, nessa época da ditadura, foi quando nasceu o Chico City [programa humorístico onde Chico Anysio fazia todos os personagens principais, exibido na TV Globo de 1973 a 1980], então tentei botar uma moeda especial que seria o romão. Um romão valia dois cíceros, e um cícero valia quatro florianos e tal, e fui proibido. Houve o problema dos prefeitos que fizeram a queixa, por causa do Canavieira [o personagem Walfrido Canavieira era prefeito de Chico City] que era ladrão e tal, e eles se defenderam que não havia prefeitos ladrões no Brasil. E eu falei que Chico City não era Brasil, no Brasil, de fato não há prefeitos ladrões, mas fora do Brasil todos os prefeitos roubam. E eu tive que me defender do modo que foi possível. E no meu teatro, por exemplo, o show, eu ia a Brasília, e eu lia, e era a coisa mais desagradável do mundo, porque eu lia o texto do teatro todo para oito censores assim.

Paulo Caruso: Oito censores?

Chico Anysio: Oito! Com o pior humor possível.

Jorge Escosteguy: Com premier absoluto do seu show?

Chico Anysio: Ah, sim. E eu lia tudo aquilo para que eles soubessem como aquilo seria dito, porque uma coisa é um texto para ser lido e outra coisa é um texto para ser visto e ouvido.

Jorge Escosteguy: Eles davam risadas, ao menos?

Chico Anysio: Não, em hora alguma.

Jorge Escosteguy: Não riam? Não achavam graça de nenhuma piada?

Chico Anysio: Não! Nada, nada, nada.

Jorge Escosteguy: Nem se seguravam? Assim, você olhava para um estava se segurando?

Paulo Caruso: Senão não seria censor, não é?

Tato Coutinho: Você está falando da dificuldade de trabalhar com a censura oficial, dentro da Globo, hoje, não tem esse problema?

Chico Anysio: Tem uma censura pior do que essa.

Regina Echeverria: E a censura interna é...

Chico Anysio: Interna.

Tato Coutinho: A censura interna, na Globo é forte?

Chico Anysio: Continua, é forte. É forte e continua, e é desagradável. Paulo, é o seguinte, que essa censura interna da Globo é exercida pela pessoa que quebrava os galhos da censura nos tempos da censura militar, que é o Borjalo. O Borjalo é que é o censor da Globo atualmente, ele se deu um outro nome: avaliador artístico, mas para mim um cara que corta alguma coisa que eu escrevo é censor, não é avaliador artístico, não é? Avaliador artístico...

Alex Solnik: [interrompendo] A Escolinha passa por ele? Pelo Borjalo, os textos.

Chico Anysio: Passa, passa e ele corta muito.

Jorge Escosteguy: E essa censura, ela é política, ou ela é moral como ela é?

Chico Anysio: Ela é política, moral.

Regina Echeverria: Ela é moral no caso de terem tirado um homossexual do ar, os personagens...

Chico Anysio: Não, homossexual fui eu que tirei.

Regina Echeverria: Foi você?

Chico Anysio: Foi.

Jorge Escosteguy: O seu Peru [personagem homossexual vivido pelo comediante Orlando Drummond Cardoso]?

Chico Anysio: Foi, mas já voltou.

Jorge Escosteguy: Eu sei, já voltou.

Regina Echeverria: Você acha que existe alguma... Você concorda comigo que esse tema é um pouco ridicularizado, assim, quer dizer, o personagem é um pouco...

Chico Anysio: O homossexual?

Regina Echeverria: É. Um pouco depreciativo? A figura do...

Chico Anysio: Não tanto como, não tanto, não, acho que não, não especialmente não.

Regina Echeverria: Por que você tirou do ar?

Chico Anysio: Porque estava muito forte. Porque eu não vejo o programa. Eu não vejo, eu até evito ver. Porque a gente grava, o programa sai, as pessoas gostam, e vendo eu vou achar tanto defeito, eu vou botar tanta coisinha, eu vou querer mudar tanta coisa, prefiro não ver. Mas um dia, eu estava em Itapetininga, tinha um show à noite, estava no hotel de tarde, aí passou e aí eu vi, falei: “ah está forte, para esse horário está muito forte.”

Jorge Escosteguy: Mas ele era muito engraçado, não era?

Chico Anysio: Era. Mas era muito forte, porque ele deixou, com licença da palavra...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Forte para quem? Forte contra os homossexuais, forte para as pessoas que estavam vendo?

Chico Anysio: Não, forte no modo de proceder, não é? Porque uma coisa é frescura e outra é viadagem. Ele trocou a “frescura”, que era a coisa, pela “viadagem” que era... Brabo! Então, aí eu tirei, tirei por um tempo para aquilo... Mesmo para ele descer um pouco a chama. Agora, a sua pergunta, a gente faz graça com o homossexual, como faz graça com o nordestino, como faz com o preto.

Regina Echeverria: Mas há uma diferença muito grande, por exemplo, com o Painho, que você fazia para o... Como é o nome dele?

Chico Anysio: Peru. Seu Peru.

Regina Echeverria: Seu Peru. Você não acha?

Chico Anysio: Bom, mas eu fazia o Painho, fazia o Haroldo, fazia vários homossexuais. Os homossexuais adoravam, gostavam muito.

Alex Sounik: Fora aquele. O policial. Aquele era um homossexual...

Chico Anysio: O Marmo Carrara com seus olhos cor de mel [fala isso com a voz do personagem]. [risos] Mas isso aí é o seguinte, é o modo de cada um fazer, não é? Eu sei fazer de um jeito e ele sabe fazer de outro. Eu não posso passar o meu modo de fazer para ele, ele faz o dele.

Jorge Escosteguy: Agora essa censura que você mencionou na Globo, como é que você enfrenta essa censura? Ou seja, você discute com o Borjalo, conversa ou é imposto?

Chico Anysio: Não, não discuto. Obedientemente...

Jorge Escosteguy: Você faz o script ou fazem o script e ele volta já cortado e boa noite, é assim mesmo?

Chico Anysio: Não, o corte vem depois...

Paulo Caruso: [interrompendo] No caso do Borjalo, o fato do Borjalo ser um criador, quer dizer, um desenhista de trinta anos...

Chico Anysio: Ele é melancólico, eu acho terrível, terrível, uma pena que...

Paulo Caruso: ...quarenta anos de profissão e que sempre esteve do lado de quem está querendo fazer erigir e não no caso de quem está querendo cortar. Isso não coloca vocês numa relação diferente? Quer dizer, vocês não têm diálogo com ele...

Chico Anysio: Não, eu tenho pena dele, eu tenho pena dele. Eu acho que isso aí é uma coisa desagradável que ele não deve ter o menor prazer em fazer, foi a coisa que lhe foi dada para fazer. O Borjalo foi uma pessoa que sofreu muito na Globo, porque o Borjalo bebia muito e tal e se internou numa clínica para parar de beber e, no dia que parou de beber, ele foi demitido da função que exercia, quer dizer, isso deve ter dado para ele uma ducha fria.

Paulo Caruso: Vontade de tomar umas. [risos]

Chico Anysio: É. Era o caso de tomar umas, mas ele parou, não bebe mais. Mas o Borjalo foi muito rebaixado na Globo, eu acho que a Globo tinha que pagar o Borjalo pelo tanto de bem que ele fez à Globo, pelo tanto que ele ajudou, e deixar o Borjalo em casa para ele poder criar, para ele desenhar de novo, para ele fazer os trabalhos de criação que ele faz, onde era tão bom. Como censor eu acho ele muito...

Paulo Caruso: Mas enquanto artista, vocês não têm um diálogo, vocês não têm assim...

Chico Anysio: Não, eu não encontro com ele, muito raramente. Ele trabalha no...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Pois é, como é que funciona, ou seja: faz-se o texto, vai para ele, ele corta antes, ou grava e corta depois, como é que é?

Chico Anysio: Não, corta antes. No dia da gravação chega...

Jorge Escosteguy: O script depurado.

Chico Anysio: Chegam uns cortes não é? Na página 8, tal, onde está aquilo está cortado; na página 12 está cortado aquilo e tal. Então ele faz cortes de acordo com o ponto de vista dele, dele Borjalo, não é?

Regina Echeverria: Doutor Roberto Marinho interfere? Não?

Chico Anysio: Nada, doutor Roberto, acho, nem vê.

Regina Echeverria: Nem vê?

Chico Anysio: Acho que nem vê, doutor Roberto tem mais o que fazer do que ficar às cinco e meia da tarde vendo a Escolinha, não é?

Alex Solnik: Assisti uma entrevista tua outro dia, há alguns meses e tal, em que você dizia assim, inclusive foi na época que você pensou na candidatura, mas você dizia assim: “é, parece que o Boni não conta comigo para 94, então eu vou para a política”. O que quer dizer isso? Quer dizer, o Boni não conta comigo para 94...

Chico Anysio: Não, isso foi depois. Ele já deu uma outra entrevista, onde ele falou que eu sou eterno. Então...

Regina Echeverria: Mas vocês se comunicam por entrevistas? Como é?

Alex Solnik: Mas teve na época algum sinal?

Jorge Escosteguy: Ele se inspirou em Vinícius de Moraes e falou: “Eterno enquanto dure”.

Chico Anysio: Enquanto dure, “não seja imortal posto que é chama”. Não, é o seguinte: já tivemos um papo, isso já foi esclarecido, mas havia essa impressão de que ele não contava comigo. Mas isso aí também não teria importância, eu iria para o SBT [Sistema Brasileiro de Televisão, rede de televisão do empresário e apresentador Silvio Santos, formada em 1981 depois da compra de vários canais de televisão em todo Brasil, porém a marca só foi começou a ser divulgada alguns anos mais tarde], eu faria um programa aqui na TV Cultura...

Jorge Escosteguy: Quer dizer que em termos de Ibope você está tranqüilo? O seu Ibope é sempre um nível bastante...

Chico Anysio: Olha, o Ibope é o seguinte: é o maior, isso é uma coisa incrível, não é? A Escolinha é um programa de humor de maior audiência no mundo ocidental! Não é? No mundo ocidental! Isso a gente não inclui a China, porque tem muita gente, a Índia, não sei o quê e tal. Mas no mundo ocidental a Escolinha, porque ela tem uma média de quarenta pontos num universo de trinta milhões de televisores, que são doze milhões de televisores, mas com três pessoas por televisores, da trinta e seis milhões de telespectadores. O segundo lugar do Bill Cosby [comediante, ator e produtor de televisão norte-americano de muito sucesso. No final da década de 1960 atuava sua própria série na TV: The Bill Cosby show, e desde então não parou mais. Também já atuou e fez participações em vários filmes] que tem quinze pontos num universo de noventa milhões de televisores. Mas lá, é um ponto seis. Ele tem 32 milhões de espectadores, mas ele vai uma vez por semana e eu vou seis. Então a Escolinha é o programa mais visto no mundo ocidental, em que pese o tanto que falam mal dela por aí e tal.

Tato Coutinho: É o mais visto, mas pelo que você falou, não por você, que você veria muito defeito. Você estava falando do seu Peru, também que você viu e...

Chico Anysio: Mas eu não sou pago para ver, eu sou pago para fazer.

Tato Coutinho: Claro! Mas...

Chico Anysio: Para ver é mais caro.

Tato Coutinho: Mas é para saber, assim, você freqüenta... Você estava vendo e talvez vendo você veria defeitos nos outros personagens. Você veria em você mesmo? Como é que funciona a autocrítica do humorista? Porque, às vezes, é muito freqüente o humorista deixar de ser engraçado e ficar chato e vice-versa.

Chico Anysio: Sei.

Tato Coutinho: Como é que funciona a autocrítica assim, você sabe quando você está ficando chato? Quando você está ficando mais engraçado?

Chico Anysio: O meu caso é um caso diferente do normal, porque eu pela primeira vez eu sou um só, não é? Durante 35 anos eu fui 188 pessoas diferentes, então ali ficava esquisito eu dizer 126 são bons, 17 são regulares, 49 são mais ou menos e 16 são péssimos. Eu não tinha condição de julgar isso. Isso era uma coisa que eu fazia no fim do ano, uma pesquisa, e o público me dava o resultado. O mais gostado foi o Azambuja, o segundo Painho, terceiro o Aroldo, quarto Popó.

Tato Coutinho: Sempre através de pesquisa?

Chico Anysio: Sempre, não tinha outro jeito, não é? Porque as pessoas diziam para mim: “puxa Chico! Sempre os mesmos? Popó, Painho, Pantaleão, Azambuja, Véio Zuza, Aroldo, precisava onze.

Jorge Escosteguy: Sempre os mesmos 188?

Chico Anysio: O que eu posso fazer? É, os mesmos. Você agora citou onze. Sabe? Houve dia de eu fazer 26 personagens num programa, eu não vou fazer mais isso, isso já acabou, Essa fase é uma fase vencida da minha vida, eu não vou mais fazer nenhum personagem. Se eu fizer, um só por programa e tal. Porque, em primeiro lugar, eu não tenho nada a provar, não estou competindo com ninguém, não quero provar que sou bom, que sei fazer. Ou você já sabe que eu sei fazer ou não saberá nunca, não é? Não há como te convencer de que eu sou um bom compositor de tipos, sabe? Isso aí é uma coisa que foi uma decisão que eu tomei no começo da minha vida, quando eu vi que eu não podia ter a categoria do Walter D'Ávila, a graça do Oscarito e tal, falei "eu tenho que escolher um caminho para mim senão me perco". Então vou ser aquele que faz vários. E eu me determinei isso: "eu vou ser aquele que faz vários". O programa que eu criei, que é o Chico Anysio Show, foi criado por mim e pelo Manga, principalmente pelo Manga até, esse programa, eu fazia todos os personagens. Era a primeira vez no mundo que havia um programa desses.

Regina Echeverria: E a primeira vez que se usou videoteipe, não é? Na televisão brasileira.

Chico Anysio: Primeira vez que se usou, isso cortado com gilete no escuro e tal. Então, isso aí é um trabalho que as pessoas podem até não gostar, mas no mínimo elas têm que respeitar, por que... não é?

Jorge Escosteguy: O Tato perguntava sobre a sua crítica ou autocrítica ao personagem que você faz, no caso o professor Raimundo. Você não se preocupa nem com uma avaliação desse tipo, ou seja, rever o professor e saber...

Chico Anysio: Não, O professor Raimundo é uma pessoa, sabe Tato, o professor Raimundo é independente de mim, Ele... eu faço há 41 anos o professor Raimundo. Ele é uma pessoa separada de mim. E eu acho ele muito bom, eu gosto muito dele, porque eu sou escada de todo mundo ali, eu faço a preparação para que eles façam a graça. E o professor Raimundo lançou Ari Leite, lançou Castrinho, lançou o Mussum [personagem de Antônio Carlos Bernades Gomes, que mais tarde fez parte de Os Trapalhões] . O Mussum foi lançado pela Escolinha do professor Raimundo, Coronel Ludugero [personagem do humorista Luiz Jacinto da Silva], gente à beça que está por aí, foi lançado, gente que já morreu até, Geraldo Alves [humorista que ficou conhecido pela facilidade com que imitava artistas, jogadores de futebol e políticos]...

Alex Solnik: Agora, Chico, esse sucesso todo da Escolinha, esse Ibope imenso, fabuloso e tudo, mas parece que para o ano que vem a Globo está querendo fazer alguns cortes. É verdade isso? Quer dizer, você vai ter que diminuir o número de atores, você tem alguma?

Regina Echeverria: Como é que você consegue manter esse elenco enorme?

Chico Anysio: Isso é o seguinte, isso é o seguinte: isso é um mistério, isso é um grilo na minha vida.

Regina Echeverria: A produção é sua? Como é?

Chico Anysio: Não, é da Globo. O caso é o seguinte: eu tenho... isso eu agradeço muito ao doutor Roberto Marinho em primeira instância e ao Boni, principalmente no fim, porque os dois sabem que eu poderia fazer aquele programa com dezesseis alunos, e me permitem colocar quarenta e oito. Mas é o jeito que eu encontro de arrumar emprego para mais trinta e dois, porque não há onde trabalhar, não é? Ao comediante que sai da Escolinha hoje, só resta para ele: A praça é nossa. E não tem mais onde trabalhar.

Regina Echeverria: Não tem, você está quase sozinho, não é? O que aconteceu com o episódio do Nerso da Capitinga [personagem caipira do humorista Pedro Bismarck]? Foi você que não gostou do personagem?

Chico Anysio: De modo algum! Não.

Regina Echeverria: Não?

Chico Anysio: As portas lá estão abertas para ele, quando ele quiser voltar, ele volta. O dia que ele quiser. Aquilo ali é a casa dele. Ele um dia, um dia ele telefonou dizendo que não ia mais. Aí eu... ele morava em Juiz de Fora, tinha esse problema, não é? E a mulher dele não concordava em morar no Rio, e ele gravava segunda, terça e quarta, nós gravávamos três vezes por semana, ele vinha de Juiz de Fora segunda, gravava, voltava para Juiz de Fora, vinha terça gravava e voltava para Juiz de Fora e vinha quarta e voltava para Juiz de Fora e na quinta-feira ele saía para fazer shows. Fazia shows na quinta, sexta, sábado e domingo fazia shows por...

Jorge Escosteguy: Quer dizer, era uma marcação cerrada ali.

Chico Anysio: Ele não via os filhos, então, sabe? Havia esse problema. Então eu liguei para ele, mas eu liguei para ele num dia, num dia infeliz, o dia em que a sogra dele tinha morrido, e a sogra era a segunda mãe dele, ele não tinha mãe e tinha a sogra como sendo a mãe. E falei para ele: “Pedro, você fica só aos sábados, mas não sai, porque aqui é a vitrine onde você se mostra para o país, não é? Eu não acho bom você sair. Fica só aos sábados, você grava na segunda-feira e terça e quarta você fica em casa e tal”. Ele falou: “não, não, talvez, me liga depois que minha sogra morreu!” Aí que ele falou da sogra, eu vi que eu liguei no dia errado. Falei: “então faz o seguinte, no dia que você resolver, você tem meu telefone, você me liga que aqui está aberto para você a hora que você quiser”. Ele queria fazer um programa sozinho, não é? Primeiro ele queria fazer um filme no esquema do Mazzaropi [(1912-1981) ator, produtor e diretor de cinema, conhecido pelo caipira que representava e que tinha como referência o Jeca Tatu - personagem estereotipado criado por Monteiro Lobato] o que era impossível porque ele, o Nerso da Capitinga é agressivo e o personagem do Mazzaropi era manso, é o oposto do Mazzaropi...

Jorge Escosteguy: É o ingênuo...

Chico Anysio: Não tinha como ele seguir aquele caminho. Mas ele ficou muito encantado com a idéia do cinema, e o empresário dele fez ver a ele que se ele saísse acabava a Escolinha. ”Se sair você acaba com isso aí, é só você” e tal. Então, resolveu sair..., ainda liguei de novo para ele, para ele voltar e tal, mas está lá, ele saiu porque ele quis.

Jorge Escosteguy: Acabou o empresário, de repente?

Chico Anysio: Eu não sei.

Jorge Escosteguy: Eu queria registrar, antes da próxima pergunta, a chegada de mais um convidado, o jornalista Ivan Ângelo, editor de artes do Jornal da Tarde e do Estado de S. Paulo. O Paulo, por favor.

Paulo Caruso: Música é alegria [cantando]. O que é isso?

Chico Anysio: Isso é o seguinte: isso é o Hino ao músico.

Regina Echeverria: Hino ao músico.

Paulo Caruso: Chocolate?

Chico Anysio: Chocolate e eu, não é? Nós fizemos isso aí no terraço da Rádio Nacional. O Chocolate chegou e disse: “bota uma letra aqui numa música que eu fiz e vamos fazer isso o hino do músico”. Então vamos embora! Aí, o Chocolate não tocava nenhum instrumento, ele tocava poió, ele dizia: Popoió, poió, poió, pó poió... [cantando]. E fizemos a letra e eu doei os direitos autorais para a Ordem dos Músicos, não recebo nada por isso, eu recebi uma carteira, eu sou músico honorário e isso aí é meu prefixo, não é? Desde que eu fiz, faz..., foi por volta de 1951, que essa música foi feita, e essa música chegou a ser prefixo de 400 programas, de 408 programas de rádio pelo Brasil.

Paulo Caruso: Agora, ela tem, quer dizer, independente de ser a tua marca registrada, ela ficou bem caracterizada como uma coisa classista, corporativa que é o Hino aos músicos.

Chico Anysio: Hino aos músicos.

Paulo Caruso: E o compositor em geral, quer dizer, imagino que o Chocolate estivesse pensando, não é?

Chico Anysio: Em dinheiro? Não.

Paulo Caruso: Ou dinheiro ou então atingir o maior número de pessoas possível, que acabou acontecendo.

Chico Anysio: Acabou acontecendo. De uma certa forma sim.

Paulo Caruso: E você tem outras parcerias com o Chocolate?

Chico Anysio: Não, só essa.

Paulo Caruso: Só essa?

Chico Anysio: Engraçado. Meu irmão tem. Que, aliás, uma música linda da Elizete [cantando]: "Saudade, torrente de paixão".

Paulo Caruso: Seu irmão Zenito?

Chico Anysio: É do meu irmão, do Elano.

Ivan Ângelo: Já que estão falando em 50... em 1950 você já era humorista?

Chico Anysio: É, eu era desde...

Ivan Ângelo: E por que em 50, você fez um teste para locutor na rádio Guanabara?

Chico Anysio: Não, fiz em 48.

Ivan Ângelo: Aí não era humorista ainda ou já era?

Chico Anysio: Não. Aí eu era locutor, rádio ator e quatro dias depois eu era redator também.

Ivan Ângelo: E consta que o Silvio Santos também ganhou?

Chico Anysio: Silvio Santos [pseudônimo de Senor Abravanel, apresentador de televisão e animador de auditórios que começou a vida como camelô e é hoje um importante empresário dono do Grupo Silvio Santos – fazem parte do grupo, o Baú da Felicidade, o Banco Panamericano e o SBT] ganhou, como perder, não é? Silvio Santos era camelô há anos, ele tinha uma prática enorme. E o Silvio hoje é um locutor deslumbrante, você imagina o Silvio aos 18 anos, toda a potência da voz.

Ivan Ângelo: Quer dizer que ele continua ganhando de você?

Chico Anysio: Não, nunca perdeu de mim.

Ivan Ângelo: Ele ficou muito mais rico do que você? [Risos]

Chico Anysio: Não, ele nunca perdeu de mim. Eu gosto demais do Silvio, eu sou o maior admirador dele. O Silvio é um cara brilhante, quem mais concorre com a Globo é o Silvio, quem mais tenta é o Silvio. Eu sou um admirador do Silvio e do SBT também.

Jorge Escosteguy: Chico, a gente discutia há pouco, a questão do Nerso da Capitinga, e você falou que ele de repente, de certa forma, mosca azul, queria ter um programa só para ele tal. Isso é comum acontecer com os personagens, os humoristas que se sobressaem na Escolinha, por exemplo? De repente, ele acha que "agora sou eu"?

Chico Anysio: Não, não é comum não. Às vezes até nós indicamos, sabe? Nós abrimos mão de alguns para novelas, ir ao ensaio, foi com a Marina da Glória, [personagem da atriz] Tássia Camargo nós abrimos mão, ela foi para novela, não voltou ainda porque ela está grávida, está esperando neném. Mas ela quando tiver o filho, ela volta para a Escolinha até pintar outra novela e tal. A Escolinha, para muitos, é até um momento de espera. A Rosane Gofman está lá, ela é principalmente uma atriz de novela. Quando a novela quiser, vai buscá-la, e ela irá.

Jorge Escosteguy: Esses dias o..., esqueci o nome dele, agora fez um especial?

Chico Anysio: O Rogério Cardoso [ator e humorista (1952-2003), na Escolinha fazia o personagem Rolando Lero - um enrolador que nada sabia. Seu último trabalho me televisão foi Seu Flor, no programa A grande família]?

Jorge Escosteguy: Rogério Cardoso.

Chico Anysio: Muito bem, mambembe; é um bom ator.

Alex Solnik: Agora, Chico, você estava falando aquela hora, não é? Sobre as limitações que a direção da Globo está querendo fazer para o ano que vem. É verdade que você vai ter que retirar alguns atores?

Chico Anysio: Ah sim! É o seguinte, então eles deixaram sempre que eu..., porque o problema é a verba, não é? Eu tenho uma verba e...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Você tem quantos ali mesmo? Ao todo?

Chico Anysio: Alunos têm 45, mas vão entrar mais três, serão 48. Então, ficou combinado o seguinte: não é nem combinado, foi determinado que no ano que vem, para que entrem dez, dez têm que sair. E até entendo, mesmo, porque não cabe na sala, não é? Nós já estamos usando menos, só entram na aula os que vão falar. Antigamente, entravam mesmo os que não iam falar, porque como há liberdade absoluta, o cara não está escalado, mas se ocorrer a ele uma boa piada, ele levanta e “pá” e fala, e aquela piada vai para o ar. E se ele for infeliz, e a piada não sair boa, a gente corta da edição e ele não vai ficar um vexame no ar feito por ele.

Tato Coutinho: Você falou que está entrando mais três, você pode adiantar quem são?

Jorge Escosteguy: Quer dizer, desculpe falar, vocês...

Chico Anysio: Fafy Siqueira... Desculpe.

Jorge Escosteguy: Não, que é isso.

Chico Anysio: O Júlio Levi, Fafy Siqueira, Júlio Levi...

Tato Coutinho: São personagens novos?

Chico Anysio: Fafy Siqueira é uma atriz, não é? Vai fazer a dona Babá, o Julio Levi, são três personagens novos. Três atores.

Jorge Escosteguy: Mas você falou para cada dez que entram, dez têm que sair, mas a partir desse...

Chico Anysio: Não a partir do ano que vem.

Jorge Escosteguy: Desse piso? Não digo desse piso de 48?

Chico Anysio: Eu acho que eu vou conseguir manter o piso de 48.

Jorge Escosteguy: E a partir desses 48, o que aparecer de novo, para entrar tem que sair é isso?

Chico Anysio: É. Eu vou tentar elevar para 50, para poder botar mais dois.

Alex Solnik: Antes do fim do ano?

Chico Anysio: Antes do fim do ano. E aí saem dez, entram dez e tal. Mas eu tenho um plano com o Boni, que eu não sei se vai vingar, que é de supervisionar quatro programas de humor para as sextas-feiras, não é? Então, como tem a Terça nobre tem quatro programas distintos, não é? Na sexta feira também, porque o ano que vem não tendo horário político, parece que isso vai acabar; em caso de acabar, o Globo repórter passa para quinta e ele me dá a sexta, e eu faço quatro programas na sexta e, talvez até participe de um deles.

Jorge Escosteguy: Independente do seu?

Chico Anysio: Independente do meu. Eu vou criar os programas junto com a equipe e tal e encarreirar, e cada um terá o seu diretor e terá o seu elenco, que isso aí é o principal. Então, um programa é o Hospital do doutor Tantam, que só tem loucos, todo mundo é louco e tal, nesse é que eu devo entrar, e aí vão entrar, pelo menos, uns quarenta comediantes aí. Tem o Vapt e vupt que é um programa de jovens comediantes, só jovens comediantes, não é? Lenice, Jean Lucas, Fafy Siqueira, o Júlio Levy, que eu falei, Eduardo Galvão, Eri Johnson, e tal, tal, tal. Vai dar para botar uns trinta, talvez. As noviças rebeldes que é em cima daquela peça americana que vai ser dirigida também pelo Wolf Maia, e a cada mês uma aventura no convento com aquelas noviças, e será escrito pelo Flávio Marinho, e o quarto programa é Lua cheia que irá toda sexta-feira, noite de lua cheia, e uma família de monstros que na noite de lua cheia eles se transformam em monstros, mas monstros engraçados e tal, uma idéia do Luiz Carlos Góes. Então esses quatro programas vão dar uma abertura no leque do humor e uma chance maior a um número grande...

Regina Echeverria: Há um tempo atrás você se envolveu numa polêmica com um pessoal do TV Pirata, não é?

Chico Anysio: Não foi polêmica.

Regina Echeverria: Foi o quê?

Chico Anysio: Foi um conselho.

Regina Echeverria: Um conselho? [risos]

Jorge Escosteguy: De quem para quem?

Chico Anysio: De mim para eles, porque eles estavam chegando, não foi nem para os atores, todos os atores são meus amigos e tal. Foi uma coisa muito, muito levada para o lado contrário pela imprensa, a imprensa teve grande culpa nisso. Eu sou um homem de televisão, não é? E eles eram homens de imprensa, faziam jornal. Então quando o programa foi lido, ele foi lido para o Daniel Filho, para o Carlos Manga e para mim, nós três ouvimos o programa e foi desastroso, na opinião do Manga, na opinião do Daniel também...

Regina Echeverria: Por quê? Você acha que eles fazem humor para gueto, assim?

Chico Anysio: Não, eu acho que era sem graça mesmo, estava ruim. A única pessoa a favor do programa foi eu. Eu falei: não, eu acho que tem jeito, tem remédio, eu acho que tem remédio, eu acho que está mal levado, porque eles não têm a prática do humor na televisão, então o humor tem que ter desfecho, você parte do desfecho para escrever o resto, não é? É feito um cartoon, se ele não souber onde está a graça do cartoon, não adianta ele começar a desenhar, ele tem que saber o final. Muito bem... Só um instantinho porque isso é importante, porque elucida uma coisa muito séria aqui. [dirigindo-se ao cartunista Paulo Caruso]. Então, peguei trezentos e oitenta e cinco esquetes, quase quatrocentos, eu estava com o pé, o tornozelo quebrado, levei para minha casa, eu estava em Petrópolis, o Paulo Ubiratan era diretor do núcleo da TV Pirata, e eu dividi aquilo tudo, com um trabalho enorme sem ganhar um centavo, eu só queria ajudar, só queria ajudar, em esquetes que poderiam dar personagens fixos, esquetes que poderiam ser feitos apenas uma vez por mês, esquetes que só poderiam ser feitos eventualmente e esquetes que não poderiam ser feitos, porque não eram realizáveis na televisão. Juntei aquilo tudo, o melhor material que estava lá era do pessoal da Casseta [referente à revista de humor Casseta Popular cujos integrantes se uniram aos escritores do jornal, também de humor, Planeta Diário e formaram a trupe do Casseta e Planeta - eles eram os idealizadores e redatores da TV Pirata], era o melhor material e estava desprezado, não estava sendo usado o material do pessoal da Casseta. Aí eu juntei tudo aquilo, montei um primeiro programa como exemplo, fiz um trabalho muito bonito, sabe? Com clipezinho, direitinho, e tal. Me lembrei que peguei uma tirinha do Luiz Fernando e botei junto de brincadeira, que era assim: No primeiro quadradinho o cara dizia assim: "o velho sol", aí no segundo quadradinho o outro dizia: "a velha lua", e no outro quadradinho um outro dizia: "é, tem hora que tem que chamar profissional". Essa era a tirinha do Luiz Fernando, eu botei junto, mandei para o Daniel, um trabalho que me foram quarenta e cinco dias para arrumar aquilo tudo. Aí o Cláudio Paiva disse que comigo não trabalhava. Aí falei: “está bom, então eu saio, não tenho porquê. OK! estou fora!” Aí eu saí, eu saí e falei o seguinte.., eles me entrevistaram, por que eu saí. Falei: “não, eu saí porque o Cláudio Paiva pediu para eu sair e o programa é dele, eu não tenho nada a ver com isso”, agora é preciso que ele faça esse programa ser entendido no país todo, porque na hora em que ele, uma coisa é fazer o Teatro Ipanema, o pessoal vai ao teatro para ver, e outra coisa é na Rede Globo que ao mesmo tempo é vista em Altamira, em Arroio do Tigre, em Maranguape, em Fortaleza, em Brasília, em São Paulo, em Itapetininga, em Indaiatuba e tal. Então aí eu falei uma frase que foi uma gozação: “se a minha cozinheira não entender, está errado!”.

Regina Echeverria: Está certo.

Chico Anysio: Aí criaram muitos problemas, eles começaram a fazer gozações comigo e como o pessoal da Casseta faz até hoje sem que eu nunca tenha falado mal da Casseta, eu só falei bem da Casseta até hoje, nunca falei mal deles, eles falam muito mal de mim, o que também não me dá nenhum problema, não me faz a menor mossa.

Jorge Escosteguy: Não lhe tira o sono. Edélcio, por favor.

Edélcio Mostaço: Não sei se tem a ver com isso. Na Escolinha tem tido uma quantidade muito grande de velhos humoristas, inclusive com velhos tipos criados.

Chico Anysio: Sim.

Edélcio Mostaço: São poucos os novos tipos, não é?, que aparecem. Por outro lado também, a quantidade dos novos comediantes que tem surgido é bastante pequena. Esses programas que você se referiu, por exemplo, são programas com poucos integrantes ou poucos personagens. A que você atribui esse tipo de situação criada? Quer dizer, por que a sua preferência pelos tipos mais conhecidos e mais tradicionais? E eu queria aproveitar e te perguntar uma outra coisa: qual é o segredo de fazer humor?

Chico Anysio: Bom, eu não tenho preferência pelos antigos profissionais em detrimento dos novos não. Eu sou quem mais lança novos. Os dois maiores sucessos dos últimos anos foram lançados por mim: O Nerso da Capitinga e o João Canabrava. Então ,eu não estou nesse time aí. Eu sou quem mais lança, quem mais procura, quem mais dá chance. A mim que eles procuram. Eu estou lançando lá no Rio, a Grace Jean Lucas que era conhecida aqui em São Paulo e lancei a Cláudia Jimenez, dei a oportunidade maior dela, Stella Freitas saiu porque ela quis. E se mais atores jovens não há, é porque, vira e mexe... uma dupla de Goiânia, de comediantes de Goiânia também botei no programa, não deu certo, mas não foi culpa minha. Os antigos comediantes eu ponho porque eles são..., eles sabem como dizer, eles são mestres, eles não têm mais a capacidade de decorar um esquete de três páginas, mas três frases eles decoram e ninguém diz melhor do que eles. Os novos agradecem a mim o fato de estar aprendendo com eles. Já ouvi: "é a glória trabalhar com Brandão Filho [(1910-1998) ator e humorista que ficou famoso fazendo o quadro do primo rico e primo pobre com Paulo Gracindo e que fazia o personagem Sandoval Quaresma na Escolinha] e Walter D’Ávila, o que a gente aprende só de ver eles falarem é uma maravilha".

Alex Solnik: Chico, por que hoje tem menos humoristas do que antes?

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Desculpa, Alex, um momentinho, Alex, por favor. Faltou a segunda pergunta do Edélcio.

Edélcio Mostaço: Mais explicitamente, qual é o segredo de fazer humor na televisão?

Chico Anysio: Mais difícil? Não entendi a pergunta.

Edélcio Mostaço: Qual é o segredo de fazer humor na televisão?

Chico Anysio: Ah! É você ser milagroso, não é? Porque não tem mais aonde. [risos] Grande segredo é ser milagroso, é um grande milagre que a gente consegue porque o programa do Jô [ver entrevista com Jô Soares no Roda Viva] acabou, o programa do Jô dava emprego a muita gente. Acabou o programa do Agildo [Ribeiro], não é? Que dava emprego a muita gente. Os trapalhões diminuiu o elenco demais o programa, não é? Ficou muito reduzido. A TV Pirata parou, apesar de dar emprego para sete ou dez só, mas dava. Então foi uma... Parou meu outro programa Estados Anysios de Chico City, onde eu empregava 65 pessoas. Então, fazer humor na televisão hoje é uma grande glória porque significa que somos os remanescentes.

Tato Coutinho: Chico, a briga com o Jô e o fato dele não...

Chico Anysio: [interrompendo] Eu não briguei com o Jô.

Tato Coutinho: Não, a polêmica com o Jô, o fato da imprensa, pelo menos, dizer que ele não fala mais com você. Isso é mais uma das vilanias da imprensa? Foi mais um mal entendido? Por que estava em função, um pouco, dessa história do mercado para jovens atores?

Chico Anysio: É isso ali foi, sabe o que é? É o seguinte: “Papai mande dinheiro”. Porque eu falei uma coisa e a imprensa publicou outra, foi até o Estadão que publicou. Eu falei o seguinte: “o Jô não podia parar o programa dele, um programa de humor, porque muita gente, que ele levou da Globo para lá depende dele, tal, e o Jô podia gravar numa segunda-feira 16 esquetes, na outra segunda-feira 16, e pegava esses 32 espalhava pelo mês, aí o programa ficava no ar, isso é preguiça do Jô”. Aí a manchete era “Chico Anysio chama Jô de preguiçoso”. Não foi isso, eu não falei que o Jô era preguiçoso, não posso chamar de preguiçoso um cara que trabalha o tanto que ele trabalha.

Jorge Escosteguy: Você não chegou a falar com ele depois desse mal entendido.

Chico Anysio: Não, tentei até, mas houve um..., ele não gostou muito de eu falar, então, não me faz a menor falta, posso viver sem o Jô tranqüilamente o resto da minha vida, como ele pode viver sem mim, só chato ele ter parado.

Jorge Escosteguy: Cada um no seu canal [nessa época o Jô saiu da Globo para fazer seu talk show no SBT].

Chico Anysio: Hein?

Jorge Escosteguy: Cada um no seu programa e cada um no seu canal.

Chico Anysio: É.

Jorge Escosteguy: Bom, nós vamos fazer um rápido intervalo, o Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando hoje Chico Anysio. Até Já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que hoje está entrevistando Chico Anysio, que, aliás, está com um show aqui em São Paulo no teatro Procópio Ferreira até julho, além de ter lançado o livro Jesuíno, o profeta. Lembramos aos telespectadores que, como este programa foi gravado, não há perguntas por telefone ao vivo. Chico, no primeiro bloco, nós falamos um pouco da questão da censura, censura moral, censura política etc, eu gostaria que você me contasse uma coisa: você, durante alguns anos, na televisão, foi considerado um humorista de humor de certa forma refinado, ou seja, um humor um pouco mais intelectualizado em relação aos programas tradicionais da época, tipo Praça da alegria, etc. Hoje, o humor em geral, inclusive o seu, está mais, como você falou há pouco, tinha muita sacanagem, então tem que cortar, ou seja, hoje ele é um humor mais malicioso, mas mais malicioso até meio para baixaria, vamos dizer assim, ele é muito nesse tipo, que aparentemente não era uma característica sua, claro que você era beneficiado pelo fato de interpretar vários personagens, etc. Essa mudança é uma coisa, uma imposição comercial, ou seja, é uma coisa que é o que vende em programa de humor, tem que ter sempre uma coisa pegou ou não pegou , deu, não deu, aquelas coisas?

Chico Anysio: As coisas mudam, não é? Muda, muda o tampo, o tamanho do esquete, muda o tipo do esquete, muda o ritmo do esquete e muda o tema do esquete. Você tem que se adaptar ao mundo em que você vive, não é? Eu não tenho o menor prazer em palavrão, em dizer palavrão, eu acho que posso viver a minha vida inteira sem dizer um palavrão, mas no teatro o palavrão é uma arma, uma arma que...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Mas, por exemplo, desculpe, na televisão, por exemplo, quando você vira o...

Chico Anysio: [interrompendo] Eu chego lá.

Jorge Escosteguy: Quando você vira para o... eu esqueço o nome dele, agora de novo me falhou, eu gosto muito do personagem dele, aquele que nunca sabe e pergunta: “mas como? Mataram?” Como é?

Chico Anysio: O Rolando Lero [personagem, e Rogério Cardoso, ator].

Jorge Escosteguy: Isso! O Rolando Lero. E você diz: “seu corno!” Isso é uma coisa...

Chico Anysio: Corno, no Nordeste, o pai fala para o filho: "Quê, que há, seu corno?”

Jorge Escosteguy: Bom, eu sei, mas é uma coisa que...

Regina Echeverria: Mas a impressão que dá é que tem alguma coisa interna entre vocês. Entende? Ali...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] E além de tudo ainda tem alguma coisa interna.

Regina Echeverria: Que vocês dão risada e a gente não sabe o que está acontecendo.

Jorge Escosteguy: É.

Chico Anysio: Mas a gente faz de propósito para dar a impressão que há mesmo, porque tudo é feito para que a impressão que passe seja de que o programa é feito ao vivo. E de fato ele é ao vivo. Porque ele é gravado sem ensaio, e nada se repete, como foi...

Jorge Escosteguy: Não é ao vivo porque é cortado, senão podia ser ao vivo.

Chico Anysio: É, quer dizer, ele como saiu, vai. Aí o programa tem 42 minutos, a gente, às vezes, grava uns com 64, então tem que tirar vinte e dois minutos da gravação. Esses vinte e dois minutos dão uma Escolinha da tarde. Mas no horário da noite, a gente dá uma liberdade maior desse tipo de piada, porque esse tipo de piada passou a ser o tipo de piada da época. Nós estamos vivendo numa época de moral menor, não é? Não fui eu quem mudou a moral do mundo, eu sou um dos habitantes do mundo, apenas isso.

Jorge Escosteguy: Quer dizer, não é, por exemplo, uma questão comercial em relação, por exemplo, ao programa do SBT que sempre foi mais ou menos desse tipo?
Chico Anysio: Não, o SBT até nisso...

Jorge Escosteguy: Como a Globo hoje, o telejornalismo procura fazer um telejornalismo mais parecido com o Aqui, agora [telejornal com forte apelo popular exibido pelo SBT], ainda que pelos padrões da Globo, do que ela fazia antes, ou seja, enfrentar uma concorrência com programas que dão índices razoáveis, podem concorrer.

Chico Anysio: Não sei, não sei, não posso julgar. Não me baseio em nada, mesmo porque os personagens, não sou eu quem faz as piadas, não é? As piadas são feitas pelos outros. Também não sou eu quem escreve as piadas, o máximo que eu posso ser acusado é de permitir que aquelas piadas sejam divulgadas, mas eu não acho nada de terrível no que vai no programa da tarde, o das 5h30. Não, acho que...

Regina Echeverria: Você prefere fazer o quê? Prefere fazer esse tipo de humor ou você prefere fazer humor político como você fazia?

Chico Anysio: Político eu nunca fiz...

Regina Echeverria: Ah! Fez.

Chico Anysio: Eu fiz assim social, não é? Político não.

Regina Echeverria: É, aquela Velhinha de Taubaté [personagem de Luiz Fenando Veríssimo, que acreditava cegamente no presidente da República] que liga para o presidente, conversa com o presidente...

Chico Anysio: A velhinha de Taubaté não, aquela velhinha era de Passo Fundo.

Jorge Escosteguy: Salomé.

Regina Echeverria: De Passo Fundo.

Chico Anysio: Não é de Taubaté não.

Jorge Escosteguy: Aquele deputado; que dizia eu quero que o povo se exploda.

Regina Echeverria: É, o Justo Veríssimo.

Chico Anysio: Sim, sim, sim, isso é social, não é político.

Regina Echeverria: Justo Veríssimo não é político?

Alex Solnik: Ele foi baseado no Humberto Lucena, esse personagem? Foi comentado.

Chico Anysio: Não, não, não foi.

Paulo Caruso: Humberto Lucena ficou parecido com ele depois.

Ivan Ângelo: Eu queria falar disso aí. Porque você foi um criador de personagens sempre, não é? Hoje você vive à custa do professor Raimundo. Então, não há, da sua parte, uma falta de vontade de fazer personagens de novo?

Chico Anysio: Não, não, não quero mais não.

Ivan Ângelo: O público não pede?

Chico Anysio: Pede. Mas agora é tarde, eles reclamaram muito que eu fazia os mesmos, agora não quero mais não. Perdi a paciência.

Ivan Ângelo: Pois é, agora você está recitando o Jesuíno no livro? Você usa o professor Raimundo, Jesuíno e ficou por aí.

Jorge Escosteguy: Pois é, porque você disse: eu não preciso provar nada a ninguém e não preciso mais competir. Passa a impressão que de certa forma que você se acomodou e não está mais com saco de ter trabalho de interpretar vários personagens.

Chico Anysio: Não, não é que eu me acomodei, eu acho o seguinte, eu acho que...

Jorge Escosteguy: Porque você - desculpa - era um ator brilhante interpretando os personagens, ou seja...

Chico Anysio: Muito Obrigado.

Jorge Escosteguy: Você deu uma contribuição muito grande criando os seus personagens e, de repente, desapareceu.

Chico Anysio: Muito obrigado, desapareceu, desapareceu, porque é muito difícil, sabe? É feito dor de rim, difícil de explicar, não é? Só se você um dia fizer 188...

Jorge Escosteguy: Só se um dia eu tiver dor de rim?

Chico Anysio: Não, só se você um dia fizer 188 tipos de entrevistas diferentes e um cara te disser: "Oh! Mas sempre as mesmas?" Aí você vai entender a razão pela qual o cara que faz 188 personagens, absolutamente diferentes um do outro, escutar isso oito, dez, doze, quinze vezes por dia na rua.

Jorge Escosteguy: E, hoje, você só faz um e ninguém diz você faz sempre o mesmo?

Chico Anysio: Não, ninguém reclama, então está ótimo.

Alex Solnik: Você que se encheu do público.

Chico Anysio: É, eu não me enchi do público, não, eu não vou dizer isso, eu não me enchi do público. Eu me decepcionei com o público, por não ter entendido o esforço enorme que eu fazia somente para ele: público, sabe? Não era para mim.

Regina Echeverria: Desculpe Chico, deixa eu só interromper em negocinho: do público ou quem está te julgando, os intelectuais, os jornalistas?

Chico Anysio: Não, eu não dou a menor importância ao que os jornalistas dizem, desculpe, nenhuma, nenhuma, nenhuma. Se eu desse importância ao que os jornalistas dizem, eu já teria me suicidado há cinco ou seis anos e não me suicidei, estou aqui, inteiro e tal. Os jornalistas só falam mal de mim, mas acontece uma coisa, eu sempre disse isso, eles passaram anos dizendo que eu era gênio e eu tive a genialidade de não levar isso a sério. Não é agora que me chamam de idiota que eu vou cometer a idiotice de acreditar. Então...

Regina Echeverria: Por quê? Você acha que houve um patrulhamento porque você casou com a Zélia?

Chico Anysio: Não, acho que até piorou depois que eu casei com a Zélia, o patrulhamento vem de longe, o jornalismo está 95% entregue ao PT, eu não sou petista, não é? Eu sou peemedebista.

Alex Solnik: Mas quem manda nos jornalistas são os diretores, não são os petistas, os repórteres, não...

Chico Anysio: Isso é o que você pensa. Diretores nem têm mais, depois do computador, o diretor só lê o jornal depois que ele está editado.

Alex Solnik: Não, ele é quem manda as ordens pelo computador.

Chico Anysio: Não acredito, não acredito, não acredito.

Alex Solnik: É Chico! É verdade! Não são os petistas que mandam não.

Chico Anysio: Não acredito, não acredito.

Tato Coutinho: Mas 95% são... do PT?

Chico Anysio: Mas, tudo bem. Não vamos discutir o caso do jornalismo porque eu não estou aqui para salvar a imprensa nacional, eu não pretendo salvar ela...

Ivan Ângelo: Chico, e no teatro, você faz o quê? Você não faz personagens, como que é?

Chico Anysio: Faço personagens também.

Ivan Ângelo: Aqueles personagens?

Chico Anysio: Faço personagens, de cara limpa, meus mesmo, é. De cara limpa, é. Porque eu não preciso mais do que a cara limpa para fazer o personagem, não é? Eu faço a voz, o corpo, o jeito, já está feito, não é?

Paulo Caruso: Eu estava vendo você falar do fechamento do mercado para esses humoristas antigos, não é? Que não tem mais onde trabalhar, que o seu programa significa um pouco isso, e o programa do Jô quando fechou, passou para o talk show, esse mercado se foi. Eu estava pensando na época que você pegou, deve ter pego, do Cassino da Urca [A Urca é um bairro tradicional do Rio de Janeiro e abrigou parte da aristocracia do início do século vinte, e também um dos mais famosos cassinos da cidade. Muitos artistas moraram nesse bairro, a exemplo de Carmen Miranda, Roberto Carlos] e os shows que aconteciam em função dos cassinos e dos jogos.

Chico Anysio: Não conheci, não deu para eu entrar, foi fechado em 45 e eu tinha 14 anos.

Paulo Caruso: Agora, você é a favor do jogo? Da abertura dos cassinos?

Chico Anysio: Claro, claro, sou.

Paulo Caruso: Do jogo do bicho. Como é que você vê o jogo do bicho no Rio de Janeiro e a juíza Denise Frossard [política e juíza de direito brasileira, ficou conhecida nacionalmente por condenar 14 contraventores e membros do crime organizado no Rio de Janeiro – leia-se “bicheiros” – em 1993. Aposentou-se do judiciário e entrou para política candidatando-se em 1998 para o Senado. Em 2002 foi eleita deputada federal e em 2006 concorreu, pelo PPS, ao governo do estado do Rio de Janeiro. Foi fundadora da ONG Transparência Brasil] nessa luta aí de botar os juízes nisso?

Chico Anysio: Bem, juíza é sempre mais difícil que juiz, não é? Juíza é sempre uma barra mais pesada. Se eu tiver que um dia ser julgado por alguma coisa, eu espero que seja um juiz que me julgue. As juízas são muito drásticas, são muito...

Jorge Escosteguy: Por que você diria isso?

Chico Anysio: Porque a gente vê aí, não é? Uma juíza foi que, uma promotora...

Paulo Caruso: Você acha que os bicheiros mereciam uma melhor sorte?

Chico Anysio: Não sei se os bicheiros faziam tanto mal ao estado quanto o atraso da Justiça, por exemplo, não é? Os casos, os papéis que estão lá empilhados, os criminosos soltos porque a Justiça não os julga. Não sei, não sei, sinceramente, sabe? Eu acho que vão acabar com o carnaval carioca, os bicheiros não vão mais dar o dinheiro para as escolas de samba, o carnaval carioca que vive...

Regina Echeverria: [interrompendo] Eles só deviam pagar imposto igual à gente, legalizar, não é? O jogo do bicho.

Chico Anysio: Mas isso aí, eles nunca foram contra a legalização. Eu acho que a legalização tinha que ser feita e a coisa tinha que ser entregue a eles para eles tomarem conta, porque eles é que entendem da coisa.

Regina Echeverria: Eles são competentes, está certo? Provaram que são competentes.

Chico Anysio: É. Eu não tenho nada a favor nem contra, eu não jogo no bicho. Eu não tenho nada, sabe Paulo? Não tenho, sinceramente nada, mas acho que há coisas mais importantes a serem feitas no Rio do que prender os homens do jogo do bicho, mesmo porque não acabou o jogo do bicho, não é?

Jorge Escosteguy: Agora Chico, você diz que as juízas são fogo, você se tiver que ser julgado algum dia preferia ser julgado por um juiz ou por uma juíza?

Chico Anysio: Por um juiz.

Jorge Escosteguy: E ministros da Economia, você preferia um homem ou uma mulher?

Chico Anysio: Depende, pelo que entendesse, que fosse de competência, não é?

Jorge Escosteguy: O Jaime Martins, por exemplo, que é da nossa produção, perguntou, deixou uma pergunta aqui para você: o que é mais divertido ter a poupança confiscada ou casar com a ex-ministra que confiscou?

Chico Anysio: A poupança não foi confiscada, foi bloqueada. E eu não casei com a ministra, eu casei com a professora. De maneira que ele está inteiramente por fora, não sabe nem do que está falando.

Regina Echeverria: O seu dinheiro não foi confiscado?

Chico Anysio: Eu não tinha.

Alex Solnik: Agora entrando nesse campo de mulheres, não é? Você foi sempre um cara que sempre teve as mulheres mais lindas do Brasil, não é? Foi casado com mulheres maravilhosas. Eu queria saber se agora com esse casamento você estacionou, parou, você agora se aburguesou ou de repente você ainda é o aquele grande conquistador e tal que é o que você...

Chico Anysio: O perigoso! Não eu acho que parei sim, parei. Não tenho nem idade mais para ficar por aí pela noite...

Regina Echeverria: Se falar outra coisa aqui!

Chico Anysio: Hein?

Regina Echeverria: Se falar outra coisa aqui.

Alex Solnik: Ninguém vai ver, ninguém vai ver.

Chico Anysio: Não, não, sinceramente, acho que parei sim. Acho não, eu tenho certeza eu parei mesmo. Parei mesmo, parei.

Alex Solnik: Aquelas meninas da Escolinha, não te atraem? Aquela que apaga a lousa?

Chico Anysio: Não, aquela é mulher de um amigo meu, do Paulo César Grande. Não, não tem nada, não. Eu sou muito fiel, viu? Eu sempre fui fiel. Eu sou fiel, desde que a mulher começa a me interessar, eu já fico fiel a ela. Então essas minhas fases aí que você se referiu, foram as fases entre casamentos, não é? Aí eu saía na noite, atacava e tal. Isso aí é uma coisa que não vai acontecer mais, não.

Tato Coutinho: Falando do casamento, teve uma vez que, numa entrevista que você falou que a Zélia não se metia no seu trabalho de criar personagens. Ela se mete nas finanças?

Chico Anysio: Não, mas eu gostaria muito que ela se metesse porque...

Jorge Escosteguy: Ela dá dicas? Pega essa, pega essa grana investe aqui.

Chico Anysio: É o seguinte, eu estava, uma coisa muito engraçada isso, porque não tem nada melhor do que o dia seguinte, não é? O único defeito, o único mal da morte é que não tem mais dia seguinte.

Tato Coutinho: [interrompendo] Depende do uísque.

Chico Anysio: E o dia seguinte é maravilhoso... Ela estava recortando coisas que foram faladas dela e tal, desde que ela foi nomeada ministra e tem coisas maravilhosas. Tem um editorial da Veja onde só não a chama de santa, não é? Porque uma pessoa que pegou a poupança... a inflação estava a 84 e botou a menos dois e essa inflação permaneceu por aí. Quando ela saiu estava cinco. Essa pessoa foi uma pessoa importante neste país, ela fez um trabalho, não importa se esse trabalho custou o bloqueio de uma poupança que depois foi devolvida. Essa poupança, se não fosse o trabalho dela, sumiria na hiperinflação. Então é muito melhor você receber o seu dinheiro daqui a dezoito meses do que ele acabar.

Jorge Escosteguy: Alguns economistas, diga-se a favor, que alguns economistas respeitáveis, inclusive aqui no Roda Viva, disseram que essa poupança não poderia ser devolvida senão o país quebrava ou algo parecido, não lembro quais foram as palavras.

Chico Anysio: E foi devolvida, está certo? Eu vou usar o exemplo da Suely May que trabalha comigo que botou cento e 50 mil cruzeiros, três dias antes do bloqueio, houve o bloqueio, quando ela recebeu, recebeu 75 milhões. Ela aí consertou a casa dela de Piquiri que tinha caído com a chuva de granizo o telhado todo, então ela adora a Zélia, acha a Zélia... Ela fala: “aquela casa é da Zélia, foi a Zélia que me deu aquela casa”. Então há pessoas que...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Então Chico...

Chico Anysio: Um minutinho. A Folha publicou um dia o seguinte: “o plano acabou. Inflação chega a 3%”. Hoje em dia a gente dá risada disso, não é? Mas a Folha [de S. Paulo] publicou a sério isso. ”O plano acabou. Inflação chega a 3%”. Hoje quando chega a trinta, nós damos graças a Deus.

Jorge Escosteguy: O plano não começou ainda.

Chico Anysio: Não é? Chega a trinta a inflação. Agora essa inflação a trinta que está hoje, não combina com a minha relação de compra do supermercado. O supermercado me grita 45 no ouvido. Agora dá 30 no jornal, mas na minha vida é 45. Na minha vida, eu não sei na vida dos demais aqui, mas tudo aumenta 45, só que a inflação é 30.

Jorge Escosteguy: Agora Chico, sem querer invadir, com todo respeito, invadir a sua privacidade com a ex-ministra, quer dizer, ela hoje é uma pessoa que está respondendo a um processo. Há um processo do movimento de irregularidades e tal. Como é que isso funciona, não digo nem no relacionamento dos dois, mas em relação à ministra, ou seja, como ela reage em relação a isso? Você falou como ela reage, dá risada, por exemplo, quando a Folha dizia "3% o plano acabou".

Chico Anysio: Olha, o seguinte: está bom, então agora eu vou ser advogado da ministra, já que eu não me formei na Faculdade de Direito do Rio, vou me formar aqui no Roda Viva da Cultura. É o seguinte: eu tenho dois sócios no Rio com os quais eu construo casas. Nós construímos uma casa por ano. Nós compramos um terreno na Barra da Tijuca e nós três nos cotizamos, fazemos a casa e depois vendemos aquela casa no fim do ano, não é? Somos três sócios. Essa casa tem quatro suítes em cima com closet, uma sala íntima de cinco por cinco. Ela tem embaixo um living enorme, um escritório, uma sala de almoço, tem uma piscina de oito por quatro, tem sauna, churrasqueira, dois quartos de empregada, cozinha, duas despensas e tal. É, e garagem para seis carros. Essa casa é padrão, nós fazemos a mesma casa, tá? A mesma casa, com o mesmo material, todo o material de primeira. Eu quase mudei para a última que nós construímos. Então, essa casa custa 150 mil dólares, o aluguel real dela. Cinqüenta mil dólares que eu dou, 50 mil dólares o José Antonio dá cinqüenta, mil dólares... Ela custa.

Jorge Escosteguy: O aluguel não, a construção. Quatrocentos e cinqüenta mil?

Chico Anysio: 150 mil dólares.

Jorge Escosteguy: Ah sim! Cada um dá 50 então?

Chico Anysio: Sim.

Paulo Caruso: A construção então, você falou o aluguel.

Chico Anysio: A construção, a casa, fora o terreno. Muito bem. A casa da praça Morungaba que a Zélia tinha era uma casa de sala e dois quartos, nós mudamos de lá por isso, porque não tinha lugar onde botar o meu ateliê, onde botar um escritório para nós, quando o neném nasceu o outro quarto ficou do neném e não tinha lugar para os meus filhos ficarem quando viessem do Rio para cá. É uma casa de sala e dois quartos e garagem para dois carros sendo que os dois carros não podem ser maior do que Verona, porque se forem dois Diplomatas não cabem, o portão não abre e não fecha. Muito bem. Essa casa, eu construo essa casa, eu e meus dois sócios construímos essa casa, como ela é, exatinho como ela é por 50 mil dólares, porque ela é quatro vezes menor do que a casa que nós construímos no Rio com 150 mil dólares. E colocamos lá portas de ipê, as portas daqui, tal. E o Camargo disse que pegou, na conta de quem foram achados os cheques fantasmas, não foi na dela, foi na dele, que gastou 243 mil dólares na reforma da casa dela. Então o Camargo conseguiu o milagre de reformar com 243 mil dólares uma casa que se constrói nova por cinqüenta mil.

Alex Solnik: Mas deve ser o mesmo que construiu aquele jardim, não é?

Chico Anysio: É possível que tenha sido feito, a casa da Dinda seja obra dele também. O Camargo, na minha opinião, esse dinheiro que ele recebeu foi ressarcimento do que ele gastou na campanha do Collor, porque o Camargo tinha na Avenida Brasil, o maior comitê pró-Collor do país. Ele devia ter dito a verdade, ter dito isso, não é? “Foi o dinheiro que eu recebi porque eu gastei. Então me pagaram esse dinheiro”. Agora, de onde veio esse dinheiro não me interessa desde que você me deu um cheque, ele tem fundo, virou dinheiro, está bom. Ninguém pesquisa de onde veio aquele cheque, mas o Camargo preferiu, estranhamente, acusar a Zélia de tudo, nós éramos amigos, viajamos juntos para Miami, o pai do Camargo, a mãe do Camargo, a mulher do Camargo, que é filha do ministro Funaro, o filho do Camargo. De repente o Camargo ficou adversário dela. E como o Camargo não foi indiciado, ele que tinha os cheques fantasmas no nome dele, isso me deixa uma ponta de suspeita de que tenha havido, sei, lá, algum acerto aí, não é? Você fala mal dela que eu não te indicio, sei lá, posso estar sendo até atrevido ao admitir essa hipótese, mas a minha inteligência me proíbe uma outra.

Jorge Escosteguy: Mas, e no geral, quer dizer, a sua opinião no geral sobre o que aconteceu no governo Collor...

Chico Anysio: Não tem nada contra ela, não é nada contra ela.

Jorge Escosteguy: Não, não, digo, em geral no governo Collor, ou seja, apesar dessa inflação 3% tal, afinal a ex-ministra participou algum tempo do governo, quer dizer, a sua opinião sobre o que houve, ou seja...

Chico Anysio: Eu acho que o governo acabou quando ela saiu. Eu acho que a saída dela acabou o governo. Há dois governos Collor, antes, durante o tempo que ela estava e depois que ela saiu. Eu acho, isso é uma coisa que qualquer um daqui, não estou nem dizendo que fosse melhor no tempo dela, mas que foi diferente do dia que ela saiu para frente, foi. Por que se um ministro da Fazenda é louvado por banqueiros e empreiteiros e empresários e americanos, ele não está trabalhando certo para o país, isso é uma coisa lógica, não precisa ser gênio para descobrir. Se qualquer ministro da Fazenda tiver a louvação dos banqueiros e dos empresários, ele está errado. Para o país, está, não é? Então, quando houve aquele almoço de mil pessoas aquele do ministro Marcílio Marques Moreira, eu falei coitado de mim, porque eu sou apenas um habitante do país, não está legal, não é? Eu quando levei a Zélia na Escolinha, eu levei para me redimir de uma crítica que eu vinha fazendo sistematicamente a ela, porque no dia em que ela saiu houve uma comemoração por parte dos americanos e da elite brasileira, então digo que ela estava certa e eu malhando.

Jorge Escosteguy: Que crítica você fazia a ela, quer dizer, você...

Chico Anysio: Não, era um personagem escrito pelo Nani, não era nem escrito por mim, que dizia: “não, o povo é só um detalhe e tal”.

Regina Echeverria: É, o que fazia...

Jorge Escosteguy: Quer dizer, o personagem em si e não a crítica específica? Era o personagem mesmo.

Chico Anysio: Não, era o personagem, é.

Alex Solnik: Célia Caridosa de Melo?

Chico Anysio: Célia Caridosa de Melo. É.

Jorge Escosteguy: Célia Caridosa, exatamente. Detalhe.

Chico Anysio: Então aí eu a levei lá para me reabilitar disso, porque você não pode agradar ao Palmeiras com grande fidelidade ao Corinthians. Não. Ou você é Palmeiras ou você é Corinthians, não é? Então ministro da Fazenda que banqueiro elogiar está errado.

Jorge Escosteguy: E foi ali que você passou a ser fiel a ela?

Chico Anysio: Não, ali eu passei a ser decente com ela, eu passei a ser fiel a ela no dia 13 de setembro, quando jantei com ela, no [restaurante] Antiquários.

Regina Echeverria: Chico, ela não está aqui, eu teria mil dúvidas a respeito dela, acho que realmente não é o caso, mas eu te perguntaria uma outra coisa. Depois que ela lançou aquele livro abrindo...

Chico Anysio: [interrompendo] O livro quem lançou não foi ela, foi Fernando Sabino [ver entrevista com Fernando Sabino no Roda Viva]. Eu sempre fui contra aquele livro. Aquele livro foi uma grande bobagem, eu vou dizer por quê. Eu estava recém entrando na vida dela, eu não tinha direito de proibir o livro, tá? Se aquele livro fosse quinze dias depois, eu o queimaria, ele não sairia. Falei com ela várias vezes: “Zélia, para que esse livro?” “Não, esse livro esclarece coisas” Mas ninguém está te perguntando nada, ninguém está querendo saber de nada, para que isso? Eu não li o livro.

Regina Echeverria: Você não leu?

Chico Anysio: Não, não li, nem lerei, quer dizer, eu falei: “esse livro só é bom para o Fernando Sabino, ele vai ganhar um dinheirão com esse livro, você não vai ganhar nada e esse livro vai ser um mal estar para você, para com esse livro, tira esse livro”. O livro, o que foi possível, eu tentei evitar que o livro saísse, está certo?

Jorge Escosteguy: E depois ela se arrependeu ou não?

Chico Anysio: Se arrependeu, claro que se arrependeu, é lógico. Porque o livro não trouxe nenhum inimigo para ela, apenas revelou os que eram.

Regina Echeverria: Algumas decepções, não é? Talvez assim.

Chico Anysio: Mas se... As decepções existem para comprovar a regra, não é? Então, como se ela tivesse aberto a tampa da cacimba e todo mundo pode meter uma caneca. Então, pessoas de menor gabarito, pessoas passaram a fazer piada com ela, pessoas que não faziam, porque ela era muito respeitada, e o livro tirou esse respeito que havia, não é? Esse livro poderia ter sido para ela, uma coisa assim tipo o Simonal que ficou... [referência ao cantor Wilson Simonal, acusado de ter coloborado com a polícia da ditadura militar num espisódio nunca comprovado e que marcou o artista até o final da vida]

Regina Echeverria: [interrompendo] Marcado.

Chico Anysio: Marcado, destruído até, uma coisa absurda, quando o Simonal nem tem culpa daquilo, mas isso é outro assunto.

Paulo Caruso: Vou aproveitar essa deixa que você deu aí, que você casou com a Zélia por causa do texto do Nani. Como é que é a tua relação com os criadores do texto do programa?

Chico Anysio: Ah, a melhor possível, eles fazem o que eles querem.

Paulo Caruso: Você tem uma equipe enorme, mas você...

Chico Anysio: São vinte e três, Paulo.

Paulo Caruso: Mas você dá uma peneirada, como é que é?

Chico Anysio: Não, depois de tudo pronto aí eu vejo, mexo aqui, muito pouquinho, muito pouquinho, porque eles são da maior competência, porque é exaustivo, é desgastante, é uma coisa cruel.

Paulo Caruso: Quem tem? O Luis Fernando [Veríssimo], o Nani?

Chico Anysio: É o seguinte: São...

Paulo Caruso: O Haroldo Barbosa?

Chico Anysio: Não, o Haroldo morreu. Tem, não sei de cor todo mundo, tem o Roberto Silveira, tem Ghiaroni, Mário Tupinambá, tem Nani, Jésus Rocha, Elisa Palatnik, José Sampaio, Arnaud Rodrigues [todos redatores de esquetes da Escolinha do professor Raimundo] . São 23.

Jorge Escosteguy: A criação dos novos personagens como é, Chico? Alguém propõe, a direção, você imagina ou?

Chico Anysio: Propõe, às vezes, o próprio ator propõe, através de um teipe, de um..., eu estou levando, esta semana eu estou levando para o Rio quatro fitas de comediantes, um de São José dos Campos, dois aqui de São Paulo e um de...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Aparece muito candidato?

Chico Anysio: Muito, muito, muito.

Jorge Escosteguy: Personagens? Não é?

Chico Anysio: Muito, e tem muitos lá na espera para entrar. Muitos.

Alex Solnik: Agora Chico, você acha que tem alguma política das televisões de cortar humorístico, eu ia perguntar outra hora, porque tem muito menos hoje do que antigamente, não é? É alguma decisão?

Regina Echeverria: Mas, o Brasil está muito engraçado? Está? Muito fácil de a gente rir, está todo mundo querendo rir, no teatro todas as peças de humor fazem sucesso, quer dizer humor está na moda, não é?

Chico Anysio: Mas sempre esteve, não é? Sempre esteve. Rir, ninguém reclama de rir.

Regina Echeverria: Não.

Chico Anysio: Agora, de repente isso passou a ser uma decisão das televisões, eu não posso combater, decidiu está decidido. Eu sou o empregado, não é? Eu faço o que me mandam. Eu até tenho, nunca ouvi um não na Globo, sabe? Eu acho até que se eu chegasse para o Boni agora e pedisse para voltar o meu outro programa no ano que vem ele concordaria, tenho quase certeza disso. É que não passa mesmo pela minha cabeça voltar. Mas essa decisão veio principalmente por parte da Globo, não é? Porque a Globo é a madrinha, a Globo ela encaminha, ela comanda, aquela coisa. Então a Globo tem hoje cinco novelas por dia, seis contando com a novela da Cultura que vai de manhã, e eu acho isso demais, acho muito, muito... Claro que eu entendo que a programação tem que ser horizontal, nós somos Terceiro Mundo, tudo bem. Mas as novelas, elas de uma hora para outra passaram a contar principalmente com atores desconhecidos. Um dia desses, eu estava com a Zélia vendo a novela, eu não vejo novela muito. E vinte e três vezes eu disse não sei. Ela perguntou: quem é esse? Falei: não sei. Quem é essa? Não sei, 23 vezes, aí passei a contar, e eu não conhecia 23 atores que estavam no elenco da novela. Eu sei que todo mundo tem que começar, porque eu já fui jovem, também tive que começar. Mas quando eu comecei jovem, eu comecei no meio de Brandão Filho, Walter D’Ávila, José Trindade [nome artístico de Milton da Silva Bittencourt (1915-1990) ator cômico do cinema nacional], cobras criadas, eu era o único jovem. E os jovens que deram certo nas novelas, foram jovens que apareceram em novelas onde estavam Lima Duarte, Fernanda Monte Negro, Yoná Magalhães, Dina Sfat, Paulo José ["monstros sagrados" da TV brasileira], porque ali é que segura. Então, você vê um seriado como esse, por exemplo, “Contos de Verão” onde só tinha a juventude, foi um desastre.

Alex Solnik: Agora o que acontece com os galãs da Globo? Existe alguma diferenciação em relação aos galãs antigos? Quer dizer...

Chico Anysio: Existe. Os galãs da Globo são a nova geração de galãs, eu só acredito mesmo no[ator] Marcos Palmeira, não é por ser meu sobrinho, mas eu só boto a mão no fogo pelo Marcos Palmeira. O resto tudo eu não boto a minha mãozinha não.

Alex Solnik: Nem Antônio Fagundes?

Chico Anysio: Não, isso não é nova geração. Antônio Fagundes é um monstro! Vamos, um pouco de respeito. Antônio Fagundes, Tony Ramos, isso aí é outra linha. Eu digo o pessoalzinho que está chegando aí, se você não me der uma luvinha de amianto eu não boto a minha mão no fogo, mas nem por um milhão de dólares.

Alex Solnik: Agora, você acha que isso interfere na história?

Chico Anysio: Interfere em tudo, não é? Por que chega uma hora que se um cara diz para alguém: eu te amo, ele só estará sendo sincero se esse alguém for outro homem, não é? [risos] Isso dito para uma mulher fica ridículo, não é? Fica absolutamente sem sentido, porque, sabe?, há uma chama interior que tem, que funciona, sabe?, essa coisa que funciona, numa cena de amor. Uma cena de amor tem que ser vivida por um homem e uma mulher, não é que eu... Pode ser vivida por dois homens, se o filme tratar disso ou por duas mulheres se esse for o tema da novela, mas não por um falso homem e, às vezes, até por uma falsa mulher, fica esquisito demais não é?

Regina Echeverria: Chico, você é uma pessoa séria? A gente sempre imagina os humoristas dando risada, contando piada. Quando eu conheci o Veríssimo ele disse: “eu sou a antítese do humorista, não sei contar piada”.

Chico Anysio: Não sabe nem falar, o Veríssimo falar já é muito.

Regina Echeverria: E você como é que é? Na sua...

Chico Anysio: Eu sou sério sim.

Regina Echeverria: Você é sério, não é?

Chico Anysio: Sou.

Ivan Ângelo: Mas tem sempre alguém que fala, quem foi que falou que você era engraçado, quem falou que você era humorista, como é que foi?

Chico Anysio: Não, não falaram que eu era engraçado, porque eu, não, não. Foi engraçado. Foi o seguinte, quando eu fiz o teste na rádio Guanabara, eu já tinha feito todos os programas de calouros do Rio e tinha ganhado todos eles, e ganhei uns três aqui [em São Paulo], A hora do pato, o Trabuco, e tal.

Ivan Ângelo: Como humorista?

Chico Anysio: Como imitador.

Ivan Ângelo: Ah, como imitador.

Chico Anysio: Eu fazia imitação dos locutores do cinema e tal, Luiz Jatobá, Fernando...

Ivan Ângelo: Ramos Calhelha.

Chico Anysio: Ramos Calhelha e tal. Luiz Lopez Correia e tal. E fazia imitação dos atores da época e tal. Cantores também ,Luiz Gonzaga. E, então, quando eu fiz o teste de radioator e fui aprovado na rádio Guanabara, eu era galã de novela, eu era galã da Fernanda Montenegro, fizemos novelas juntos e tal. Aí uma pessoa disse lá que eu sabia fazer vozes, porque me reconheceu de um Papel carbono, do Renato Murce. Aí me transferiram para a linha de shows. Então, eu fui fazer o humor por ser engraçado, é por fazer vozes, sabe?

Regina Echeverria: Por que no Ceará dá tanto humoristas hein?

Chico Anysio: Ceará dá muito humorista. E tem mais para vir.

Regina Echeverria: Por quê? Tem um monte aí. Tom Cavalcante tem em série lá, não é?

Chico Anysio: Não, e tem mais para vir, tem mais. Tem uma moça ótima que está para chegar aí. Espera um pouco.

Regina Echeverria: Por quê?

Chico Anysio: Por que... Sei lá, acho que o cearense é mais inteligente, não é? [risos]

Jorge Escosteguy: Você é uma pessoa bem humorada, quer dizer, você não usa esse bom humor, essa graça na vida cotidiana? Ou seja, de repente você não liga para a Zélia com a voz do Justo Veríssimo ou uma coisa qualquer?

Chico Anysio: Não, não, não.

Jorge Escosteguy: É sempre: alô Zélia aqui é o Chico Anysio?

Chico Anysio: Não preciso nem dizer. Às vezes, eu telefono daqui para Belém do Pará e digo assim, por exemplo: “O Paulo está?” “Chico Anysio?” As pessoas dizem de lá. Passei dezesseis anos no Fantástico, não é? Com a minha voz saindo, então, a coisa mais comum que existe é, eu não posso passar trote para ninguém, entendeu?

Alex Solnik: Mas você não faz dezenas de vozes, você pode fazer alguma outra.

Chico Anysio: É mais não me preocupo com isso, isso é profissional, não é? Só para ganhar dinheiro.

Edélcio Mostaço: Chico, em geral os atores, comediantes possuem vidas pessoais angustiantes, problemáticas e vários deles com situações conflituosas na sua vida íntima e pessoal. Como é que é a sua nesse sentido? E qual é a relação que você vê nisso com o humor, ou seja, nessa faceta que o público não conhece?

Chico Anysio: Bom, nesse sentido eu sou inteiramente dominado porque meu psiquiatra me dá ororix e frontal, então isso é uma coisa que eu nem tenho. Número um e número dois: eu acho que qualquer pessoa que pensa, não é?, uma pessoa que tenha filhos, como eu tenho, são seis, não é?, uma pessoa que tenha dependentes, como eu tenho, porque os atores, de um modo ou de outro são dependentes meus, eles confiam em mim, eles acreditam que eu vou dar emprego para eles até o fim das suas vidas, isso é uma coisa que se não angustiar...

Jorge Escosteguy: O Walter D’Ávila, por exemplo, deu uma entrevista um dia desses dizendo que...

Chico Anysio: Como?

Jorge Escosteguy: O Walter D’Ávila deu uma entrevista esses dias dizendo que a grande satisfação da vida dele era trabalhar com você na Escolinha, e que seria o papel último da vida dele.

Chico Anysio: Com certeza será. Lógico! Isso acontecerá com Brandão Filho, acontecerá com a Zezé Macedo [(1916-1999) atriz cômica do cinema e da TV, usando as suas próprias palavras sempre fazendo "empregadinhas e mulheres feias", na Escolinha seu personagem era a Dona Bela] , acontecerá com um monte deles. Então, isso aí tudo tem que me trazer uma angústia muito grande. Eu sou um angustiado, se eu não fosse eu seria um louco, eu seria um irresponsável, porque eu não tenho a menor certeza do que será o ano de 94, muito menos o de 95, ainda menos o de 96, eu não sei para onde as coisas irão.

Edélcio Mostaço: Eu entendo Chico, mas eu quero saber o seguinte: qual é a relação que existe para o humorista entre essa sua angústia pessoal, que em geral as vive no seu lado sério, e se o humorista costuma ver nisso, quer dizer, vê-la como situações trágicas, às vezes, dolorosas, às vezes, por um outro ponto de vista. Como é que se dá essa relação com você?

Chico Anysio: Não, comigo, da minha própria angústia eu não tiro partido, não é? Eu tiro partido da sua angústia, porque da minha, na minha opinião, não existe, ela está domada, domesticada, está, já é uma coisa, faz parte da minha vida. Então, as demais angústias, sim eu uso, porque uma das armas do humor, das situações que segundo Bernard Shaw são 45, não há mais que 45 situações de humor. Uma delas é a tragédia de ontem. A gente sempre conta rindo o tombo que levou ontem, não é? Mas ontem a gente não riu, a gente ficou vexado e passou situação, ficou desesperado ali. Então, a angústia, esse modo de viver que o humorista tem mais do que os outros, porque o humorista é um observador maior do que os outros... Então, se nós estamos aqui, digamos oito pessoas; se entrar aqui um cabeleireiro, a primeira coisa que ele faz é olhar para o cabelo de cada um, e se entrar um alfaiate ele vai olhar para a roupa de cada um, se entrar um dentista, para os dentes de cada um, mas se entrar um humorista, ele vai olhar para o cabelo, para o terno, para os dentes, para os óculos, para tudo de cada um. Porque o humorista é um observador. Qualquer pessoa que viva de humor, ele tem que olhar tudo na vida, e tudo na vida tem que dar motivo para..., ele procura sempre a graça da coisa. Então mesmo num velório, eu vou a um velório, eu fico olhando o velório com um olho diferente, a não ser que seja velório de parente, não é? Que a pessoa está envolvida, mas um velório aonde você vai para se despedir de um amigo e tal, você vai lá e tal e dá uma olhada, porque velório sempre tem alguma coisa interessante para a gente usar. Quanto mais dramática a situação for, mais engraçada ela ficará.

Jorge Escosteguy: Você já utilizou alguma situação de velório que você observou?

Chico Anysio: Muitas vezes.

Jorge Escosteguy: Uma, por exemplo, que observou e...

Chico Anysio: Por exemplo, eu fui num velório aqui... Eu trabalhava na TV Paulista, no canal 5, e o pai de um rapaz que trabalhava conosco na carpintaria morreu. Então nós fomos para o velório, e o velório era no bairro do Limão, na casa, o corpo velado na mesa e tal. Então saímos, Walter D’Ávila, Castro Barbosa, o Lauro Borges e eu. E nós íamos ouvindo um jogo Palmeiras e Santos.

Jorge Escosteguy: Você torcendo para o Palmeiras?

Chico Anysio: Eu torcendo para o Palmeiras e o Santos fez um à zero. O Palmeiras fez um à zero. E quando fez um a zero o carro chegou. Aí descemos do carro, entramos no velório e pessoas que a gente nem conhecia, nós conhecíamos apenas o filho, e quando eu me preparei para dar uma saída, eu estava sozinho com um senhor do lado, a viúva tinha levantado, a própria viúva. Aí eu achei que eu deixar o senhor sozinho era maldade, eu fiquei ali dando uma força a ele, parado aqui. Aí a viúva voltou e disse no ouvido dele: “Pagão empatou e Chinesinho perdeu um pênalti”. [risos] A viúva dar uma saidinha para ir ouvir o jogo é... Velório é uma loucura.

Jorge Escosteguy: Chico, deixa eu falar, há pouco o Edelcio perguntou sobre a questão de angústia e tal, você tinha falado um pouco antes em ganhar dinheiro, e antes de começar o programa, entre as várias coisas que você estava fazendo, você disse que tinha vendido quarenta ou quarenta e cinco quadros.

Chico Anysio: Aqui em São Paulo.

Jorge Escosteguy: Como é a coisa do pintor, ou seja, você é pintor, mas o público, quer dizer, você não é pintor de profissão? [risos]

Paulo Caruso: Como é a coisa do pintor?

Chico Anysio: É uma brocha, não é? É o seguinte, eu vou explicar.

Jorge Escosteguy: Não, eu digo pelo seguinte: você quando o cara compra o quadro do Chico Anysio, você não tem, por exemplo, a angústia de que ele está comprando o quadro por que é o quadro ou por que tem a assinatura, tem o nome do Chico Anysio?

Paulo Caruso: E essa, os teus mestres na pintura, como é que você foi para isso e quem foi que te influenciou?

Chico Anysio: Bom, eu tive um professor porto alegrense, que depois mudou para lá e aí eu tive que parar, há uns 16 anos atrás. Depois eu, por intermédio do Pacote, eu conheci o Roberto de Souza, que é meu professor atual; que é mais que professor é meu amigo, ficamos amigos. Então o caso da pintura é o seguinte: eu sou um pintor, isso é uma coisa inquestionável. Eu pinto 20 quadros por mês, eu pinto 240 quadros por ano. Eu, modéstia à parte, eu estou entre, acho que não tem 10 que vendam tanto quanto eu. Eu vendi em 91, 107 quadros, vendi 108 quadros em 92, esse ano eu já vendi 105. Estamos em junho, eu pretendo vender mais uns 50 daqui até o fim do ano.

Jorge Escosteguy: Então, mas de repente, você acha que, por exemplo, o cara compra, de repente, porque tem a assinatura Chico Anysio. Você não tem esse tipo de preocupação ou de angústia? Como falou o Edelcio, quer dizer, estão comprando porque eu sou um grande pintor?

Chico Anysio: Eu não posso ter esse tipo de preocupação porque não tem como eu botar outra assinatura lá que não seja Chico Anysio. Eu sou o Chico Anysio, não tenho culpa disso, não é?

Jorge Escosteguy: Mas isso não mexe com você, quer dizer, dane-se se é a assinatura ou o quadro?

Chico Anysio: Não, porque isso acontece com meu livro, isso acontece com tudo, não é? O cara vai ver o show do teatro porque é o Chico Anysio que está lá.

Jorge Escosteguy: Bom, é que essas coisas, essas outras atividades tem uma reação mais instantânea, mais imediata, ou seja, a música, você ouve, você tem mais ligação.

Chico Anysio: Não, eu já tive conversas com pessoas do Centro de Artes, de Belas Artes e tal, eu estou incluído entre os 10 melhores marinhistas atuais do Brasil e isso me deixa muito feliz. Eu tenho certeza, pelo progresso que eu percebo em mim, eu próprio percebo, porque coisas que eu fazia com muita dificuldade, eu faço com muita facilidade hoje. Eu acho que eu vou continuar marinhista, porque o que eu gosto de fazer é marinha, então eu, daqui a três anos, vou estar entre os cinco e daqui a dez...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Você não tem medo que alguém diga a você “Mas ele pinta sempre as mesmas coisas!”.
[risos]

Chico Anysio: Não, porque não é a mesma coisa, não é, sabe? É como se você pegar um quadro do... as bandeirinhas, do Volpi, não é? São maravilhosas...

Jorge Escosteguy: São sempre as bandeirinhas.

Chico Anysio: E são, aparentemente, as mesmas coisas, mas são inteiramente diferentes.

Alex Solnik: E tem alguma razão para você ter escolhido as marinhas, uma razão especial?

Chico Anysio: Porque são as duas coisas que eu mais tenho medo, não é? Que são o mar e a solidão. Eu não ponho figura nos meus quadros, só tem o mar e ninguém. Então, os quadros são muito gostados, sabe? Claro que o Brasil é um país muito atrasado, porque, por exemplo, se eu sou impressionista, então eu vou fazer uma exposição impressionista na França, por exemplo, essa exposição será criticada pelo Le Figaro [importante e influente jornal francês, fundado em 1826] por uma pessoa especializada em impressionismo, porque se for um cara que goste de abstrato julgar os meus quadros, ele vai achar aquilo tudo um lixo. Ao mesmo tempo, se houver uma exposição de modernistas aqui, e for um acadêmico julgar, ele vai achar um lixo. Então, a coisa tem que ser julgada pela pessoa que entende daquele assunto, eu não posso fazer um quadro impressionista e agradar quem gosta de abstrato, não tem essa possibilidade, não existe.

Jorge Escosteguy: Você diria que com o passar dos anos, a tendência é você ser mais pintor e cada vez menos comediante...

Chico Anysio: Acho que com o passar dos anos, a minha tendência é ser, eu acho que a pintura é o emprego da minha velhice. Eu acho, eu sempre disse isso, eu estou arrumando aqui um emprego para a minha velhice. Eu acho que eu vou pintar até os 80 anos.

Tato Coutinho: Você fala dos que você vende..., um dos pintores que vende mais quadros, usando isso, talvez até como índice da qualidade do teu trabalho. É verdade que a Globo compra quadros para distribuir como brindes?

Chico Anysio: Compra, compra.

Tato Coutinho: É? E é uma parcela grande do que você vende?

Chico Anysio: É a terça parte do que eu vendo, eu vendo para a Globo, todo ano, e ela dá, ela deu para os donos de afiliadas, ela deu para os superintendentes das afiliadas, ela deu para donos de agências, ela deu para diretores de agências, ela vai dar esse ano, acho que para diretores de criação das agências.

Tato Coutinho: Quantos quadros você vende para a Globo?

Chico Anysio: Vendo 50, vendo 40, depende do número de pessoas que vão ser presenteadas. Eu estou tentando agora ver se faço os quadros de um hotel, sabe? Porque aí são 300 quadros, é uma jogada. Trezentos quadros, porque há quartos que tem três, não é? Eu vou conversar com o dono do hotel na semana que vem, e ver se eu consigo convencê-lo a botar, em vez daquelas gravuras, botar quadro... Como tem o Juarez...

Regina Echeverria: [interrompendo] E como é que você arruma tempo para fazer todas as coisas que você faz? Como é que você arruma tempo para fazer todas essas coisas?

Jorge Escosteguy: Em quanto tempo você pinta um quadro?

Chico Anysio: Eu acordo cedo, acordo cedo. Acordo seis horas, eu pinto de manhã.

Jorge Escosteguy: Você acorda e vai dar suas pinceladas?

Chico Anysio: Eu pinto. Eu tenho um ateliê aqui em São Paulo, tenho em Petrópolis e tenho no Rio, não é? Tudo, tudo de que eu preciso, eu tenho nos três lugares, quer dizer, eu só não pinto quando eu estou no hotel. Então, eu pinto de manhã, no Rio não é? De tarde eu vou gravar; de noite, eu dou uma pintadinha ainda, também. Na terça-feira eu pinto de manhã, de tarde vou gravar, na quarta-feira eu gravo de manhã, e pego os 12 quadros ou 10 ou 14, o que eu tiver pintado durante as duas últimas semanas, aí eu vou ao ateliê do Roberto, botamos lá um a um. E ele fala: “Esse aqui está legal, não tem que mexer em nada, aqui, bota um pouco mais de onda nessa pedra aqui e tal, sabe? Esse aqui o céu está bonito, mas esse céu aqui exige um pouco mais de luz aqui nessa pedra” e tal, ele me dá as dicas. Então o meu progresso eu sinto mais também por aí, porque antigamente eu ficava lá de três até cinco e meia. Em duas horas e meia nós consertávamos quatro quadros. Hoje, a gente em duas horas e meia conserta catorze. É sinal de um progresso, não é verdade, Paulo? Você que desenha, que não pinta porque não quer.

Paulo Caruso: Eu acho engraçado por que essa... Inclusive, esse aprendizado, nessa linha, eu aprendi a desenhar, por exemplo, tinha um avô que me iniciou e que pintava, era um pintor amador. E um dia, eu comecei a pintar uma tela e era um oceano revolto com uma parede, ali para mim estava tudo carregado de simbolismo.

Chico Anysio: Certo.

Paulo Caruso: E quando eu volto, saio, vou para escola, quando eu volto, o oceano está tranqüilo, absolutamente perene. E meu avô diz assim: “Então, mar é assim, não é daquele jeito que você estava pintando.” A minha linha de desenho é absolutamente expressionista e carregada daquilo que eu quero dizer.

Chico Anysio: Claro!

Paulo Caruso: Então, esse aprendizado, não sei, inclusive, sair da coisa da linguagem da comunicação com o público direto maciço, agora uma coisa que é muito mais introspectivo e solitário, é um salto.

Chico Anysio: É, mas eu já tinha tentado...

Paulo Caruso: Eu imagino que seja o descanso do guerreiro, na verdade, é uma coisa que você faz para terapia.

Chico Anysio: Mas, isso aí eu já tinha feito, através do livro, porque meus livros não são engraçados, meus livros são sérios. Eu acho que...

Jorge Escosteguy: Jesuíno, o profeta trata do quê?

Chico Anysio: O profeta é o seguinte: é um personagem que tem 26 anos, não é? Até teve um jornal aí que disse que eu estou entrando na seara do Paulo Coelho. Puxa! Há vinte e seis anos que eu faço o profeta, essa seara não é do Paulo Coelho, poderia ser até do Rabindranath Tagore podia ser até do Khalil Gibran Khalil, não... Gibran Khalil Gibran, não é?

Alex Solnik: Não, ali é mais sexo, não é?

Chico Anysio: Não, é assim: o profeta dizia uma frase no final do programa, uma frase que era uma frase de alento, não é? Uma frase de otimismo, um toque para o povo, para o povo se aperceber que nem tudo está tão ruim, que tudo podia ser pior, não é? Então você passou o dia procurando emprego, mas você esqueceu que você passou o dia andando, vendo, olhando, ouvindo e essas vantagens você esqueceu. E as pessoas que não andam, não ouvem, não vêem, estão num hospital e tal, estão piores do que você.

Jorge Escosteguy: Seria um doutor Pangloss ou uma Pollyanna?

Chico Anysio: Não sei, eu acho que não porque eu não tive essa intenção.

Paulo Caruso: O plano verdade.

Chico Anysio: Não, eu não sou deslumbrado, não. Eu só peguei a frase do profeta e fiz uma história para antes. Mas tudo ambientado no agreste, na caatinga no sertão bravo, sabe? O profeta nunca..., essas histórias nunca ele chegou a um lugar onde tivesse uma casa de dois andares, é só palhoça, casebre; a entrada de cada cidade. Eu tenho prontos, pronto para bater, escolhido já, no caso desse livro funcionar, de fazer um segundo livro do profeta na vila, dentro das vilazinhas do interior, como eu tenho um terceiro de histórias do profeta nas cidades grandes, em São Paulo, em Belo Horizonte, no Rio, Porto Alegre, Curitiba.

Jorge Escosteguy: Chico, para encerrar, você é uma pessoa que deu certo, se deu bem, fez com competência muitas coisas: humorismo, compositor, livros, etc, pintor. Quando é que uma coisa não dá certo? Ou seja, eu me lembro, sei lá, quando você foi comentar futebol, por hipótese, não deu muito certo, e quando não dá certo?

Chico Anysio: Não, deu certo sim. [risos]

Jorge Escosteguy: Você acha que deu certo, as pessoas acham que não deu.

Chico Anysio: Eu vou explicar por que deu. Deu certo, não deu certo na Globo, porque na Globo é impossível comentar futebol, na Globo é impossível.

Jorge Escosteguy: Mas na Globo sempre tem um comentarista de futebol.

Chico Anysio: Mas não é um comentarista como..., o comentarista de futebol não está ali para contar o que foi visto, está para prever o que se pode acontecer. A minha opinião é esta, então eu sempre comentei para frente, não para trás.

Tato Coutinho: Onde é que dá certo? Você está falando que na Globo...

Chico Anysio: Na Globo tem um fone de ouvido, você começa falar, o cara: “Está bom,, Chico, chega, Ok! Pode cortar, passa para o Galvão [Bueno]". Então, não existe, não há comentarista que resista a isso. Ou você é pusilânime o suficiente para suportar essa idiotice ou então você se rebela contra e sai. Aí, eu fui para a rádio Tupi, e quando eu cheguei na rádio Tupi, a rádio Tupi tinha 1.3 de índice, quando eu saí, ela estava com 4.7. Então, deu certo. Não deu certo na Globo. O que não deu certo foi os Estados Anysios de Chico City.

Jorge Escosteguy: Para deixar a sua opção, quando não deu certo se é que não deu?

Chico Anysio: Não, várias vezes não deu certo, eu não me incomodo...

Jorge Escosteguy: Não, digo, mas como é? Por isso que eu digo: você sempre dá certo, você tem sucesso nas coisas que você faz?

Chico Anysio: Eu escrevi um livro, chamado Sou Francisco, onde eu conto todo os meus fracassos, eu não tenho vergonha de ter fracassado, porque cada fracasso que eu obtive, eu ganhei ali um aprendizado. A vitória não ensina nada, você só aprende com a derrota. Mas o meu fracasso mais incrível foi o programa Estados Anysios de Chico City, porque eu incorri no erro que eu alertei na TV Pirata, sabe? Eu fiz um programa elitizado. Aí eu fiz o primeiro programa que era a independência de Chico City, Chico City ficava um país independente do Brasil e o programa foi um sucesso enorme, todo mundo entendeu e deu 47 no Ibope e tal. Eu fiz o segundo programa que era a escolha dos candidatos, e esse programa não agradou tanto, deu 39. Aí eu fiz o terceiro programa que era a eleição. E aí ele deu 34. Aí eu fiz o quarto programa que era a posse. E ele deu 28.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Ele tomou posse, fez um plano econômico, deu zero.

Chico Anysio: Aí eu fiz um quinto programa que é isso aí. O quinto programa era a visita do FMI [Órgão das Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional foi criado, em 1946, para promover a cooperação monetária, a expansão comercial e a estabilidade cambial entre os países, oferecendo ajuda financeira (empréstimos) aos países membros], o povo pensa que FMI é aquele caminhão [refere-se ao FNM – caminhão brasileiro fabricado pela Fábrica Nacional de Motores], rapaz! [risos] Então o povo não sabe o que é FMI, não sabe nada. Aí o programa deu 19. Eu falei para o Boni: “Eu vou fazer o seguinte, eu estou errado, eu vou voltar ao que era: quadrinho, quadrinho, quadrinho e prometo a você acabar o ano com quarenta. Eu vou recuperar o público todo, porque isso foi um erro, está errado”. Ele falou: “Está legal, faz o que você quiser.” Aí eu voltei para o quadrinho, quadrinho, quadrinho, o último programa do ano deu 43, entendeu? Quer dizer, esse foi um fracasso, mas eu tive outros, vários. É que nós não temos tempo para isso, poderíamos fazer o Roda Viva tudo fracasso. Breve nesse canal!

Jorge Escosteguy: Não, não, digo que você fique mais experiente em relação a isso.

Chico Anysio: Não.

Jorge Escosteguy: Nós agradecemos, então, a presença esta noite aqui no Roda Viva, do Chico Anysio, agradecemos também aos companheiros jornalistas e aos telespectadores, lembrando que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Muito obrigado. Uma boa noite e uma boa semana a todos. Até lá.

Fonte: Memória Roda Viva - Fapesp
[Via BBA]

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Brasil Acadêmico: Chico Anysio fala ao Roda Viva
Chico Anysio fala ao Roda Viva
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