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Ilusões de ótica para entendermos a realidade (TED)

Com seus jogos de cores Beau Lotto nos diz como nossa visão é afetada pelo contexto. Uma ardorosa defesa do determinismo mostra como percebe...

Com seus jogos de cores Beau Lotto nos diz como nossa visão é afetada pelo contexto. Uma ardorosa defesa do determinismo mostra como percebemos serem diferentes entes exatamente iguais.


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E não só as pessoas sentem o mundo assim. Os animais também podem ficar visualmente iludidos.

Recomendamos fortemente que assista a essa apresentação de Beau Lotto, que palestrou no TED em 2009 sobre o tema. A seguir, a transcrição da palestra em português (traduzida por Charles Santos e revisada por Durval Castro):

O que eu quero falar hoje não é que contexto é tudo, mas sim porque o contexto é tudo.
Beau Lotto


"Eu quero começar com um jogo. E para vencer nesse jogo, tudo o que você tem de fazer é ver a realidade que está na sua frente como ela realmente é. Combinado? Então, nós temos dois painéis aqui com pontos coloridos E um desses pontos é da mesma cor nos dois painéis. Certo? E você tem de me dizer qual é.

Agora, focalizem os pontos cinza, verde e o laranja Então, levantem as mãos -- vamos começar pelo mais fácil -- Levantem as mãos: quem pensa que é o cinza? Verdade? Certo. Quantas pessoas pensam que é o verde? E quantas pessoas pensam que é o laranja? Igualmente divididos.



Vamos descobrir qual é a realidade. Aqui está o laranja. Aqui está o verde. E aqui está o cinza. Então, cada um que viu isso é um verdadeiro realista, certo?

Isso é bem impressionante, não é? Porquê quase todos os seres vivos desenvolveram uma habilidade de detectar luz de uma maneira ou outra. Então, para nós, enxergar cores é uma das coisas mais simples que o cérebro faz. E mesmo assim, até nesse nível simples e fundamental, contexto é tudo. O que eu quero falar hoje não é que contexto é tudo, mas sim porque o contexto é tudo. Porque a resposta a essa questão nos diz não só porque nós enxergamos o que enxergamos, mas quem nós realmente somos como indivíduos, e quem nós somos como uma sociedade.


Sem as cores não poderíamos distinguir um predador entre as folhas


Mas primeiro, temos que pensar em uma outra pergunta, que é, "Qual a finalidade das cores?" E ao invés de dizer, eu vou mostrar pra vocês. O que vocês vêem aqui é uma floresta. E vocês enxergam a superfície de acordo com a quantidade de luz que a superfície reflete. Agora, alguém consegue ver um predador que está prestes a pular em vocês? E se você ainda não o viu, você está morto. Certo? (Risos) Alguém consegue ver? Alguém? Não? Agora, vamos ver as superfícies de acordo com a qualidade de luz que elas refletem. E agora vocês conseguem ver.

Então, a cor permite-nos ver as similaridades e diferenças entre as superfícies, de acordo com o espectro total de luz que elas refletem. Mas o que vocês acabaram de fazer, é em vários aspectos, matematicamente impossível. Porquê? Porque, como Berkeley diz, nós não temos acesso direto ao nosso mundo físico, a não ser através de nossos sentidos. E a luz que entra em nossos olhos é determinada por múltiplas variantes em nosso mundo -- não só as cores dos objetos, mas também a cor da iluminação dos objetos, e a cor do espaço entre nós e esses objetos. Você altera qualquer um destes parâmetros, e você mudará a cor da luz que entra no seu olho.

Isso é um grande problema porque significa que a mesma imagem pode ter uma infinidade de fontes possíveis no mundo real. Então deixe-me mostrar o que eu quero dizer. Imagine que isto é o fundo do seu olho. E que estas são duas projeções do mundo. Elas são idênticas em todos os sentidos. Em tamanho, formato e conteúdo espectral. Elas são as mesmas, no que concerne ao seu olho. Mas elas vem de fontes completamente diferentes. A da direita vem de uma superfície amarela, na sombra, virada para a esquerda, através de um meio rosado. A da esquerda vem de uma superfície laranja, sobre luz direta, virada para a direita, através de um meio azulado. Significados completamente diferentes, mas mostrando informações retinais iguais. E ainda é só a informação retinal que nós recebemos.



Então como é que nós conseguimos enxergar? Então, se você decorar qualquer coisa nos próximos 18 minutos, decore isto: a luz que entra em nosso olho, informação sensorial, não tem significado. Porque pode literalmente significar qualquer coisa. E o que é verdade para informação sensorial é verdade para a informação em geral. Não existe significado inerente em relação à informação. É o que nós fazemos com essa informação que importa.

Então, como nós enxergamos? Bom, nós enxergamos aprendendo a enxergar. Então, o cérebro evolui mecanismos para encontrar padrões, achando relações em informações, e associando essas relações com um significado comportamental, um sentido, interagindo com o mundo. Estamos muito conscientes disto na forma de atributos cognitivos, como linguagem. Então, eu vou mostrar-lhes algumas sequências de letras. E eu quero que vocês leiam para mim, se vocês conseguirem.

Platéia: "Can you read this?" "You are not reading this." "What are you reading?"

Beau Lotto: "What are you reading?" Metade das letras não estão aí. Certo? Não há razão a priori para um "H" ter de estar entre o "W" e o "A". Mas você coloca um lá. Porquê? Porquê estatisticamente na sua experiência passada foi útil fazer desta maneira, então você faz da mesma maneira. E você não coloca uma letra após aquele "T". Porquê? Porquê não foi útil no passado. Então você não o faz de novo.

Agora deixe-me mostrar rapidamente como o nosso cérebro consegue redefinir a normalidade até no processo mais simples que ele faz, que é a cor. Então, se poderem diminuir as luzes aqui. Eu quero que vocês reparem que essas duas cenas de deserto são fisicamente a mesma. Uma é simplesmente a outra invertida. Certo? Agora eu quero que vocês se concentrem naquele ponto entre o verde e o vermelho. Certo? E eu quero que vocês olhem fixamente o ponto. Não olhem pra nenhum outro local. E vamos olhar isso aí por uns 30 segundos, o que é ruim numa palestra de 18 minutos. (Risos)



Mas eu quero que vocês aprendam. E eu vou lhes contar -- não olhem para nenhum outro local -- e eu vou lhes contar o que está acontecendo nas suas cabeças. Seu cérebro está aprendendo. E está aprendendo que o lado direito do seu campo visual está sob iluminação vermelha; e o lado esquerdo do seu campo visual está sob iluminação verde. É isso que ele está aprendendo. Certo? Agora, quando eu disser, eu quero que vocês olhem para o ponto entre as duas cenas de deserto. Então, porquê não fazer isso agora? (Risos) Podem acender as luzes de novo?

Pela reação de vocês eu percebi que elas não parecem mais as mesmas, certo? (Aplausos) Por quê? Porquê seu cérebro está vendo aquela mesma informação como se a imagem da direita ainda estivesse sob luz vermelha, e a da esquerda ainda está sob luz verde. Esse é o seu novo normal.

Então, o que isso significa para o contexto? Significa que eu posso pegar esses dois quadrados idênticos, e coloca-los sobre fundo claro e escuro. E agora o que está no fundo escuro parece ser mais claro do que o que está no fundo claro. O significado não é simplesmente que os fundos claros e escuros são relevantes. É o que esses fundos claros e escuros significaram para o seu comportamento no passado.

Então vou mostrar o que quero dizer. Aqui nós temos a mesma ilusão. Temos dois azulejos idênticos, na esquerda um com um fundo escuro, um com um fundo claro. E a mesma coisa na direita. Agora, o que eu vou fazer é tornar a olhar para estas duas cenas. Mas não vou alterar nada dentro dessas caixas, exceto o significado delas. E veja o que acontece com a sua percepção.



Perceba que na esquerda os dois azulejos parecem quase completamente opostos: um está bem claro e outro bem escuro. Certo? Enquanto isso, na direita, os dois azulejos parecem ser quase os mesmos. E ainda assim um está no fundo escuro, e um no fundo claro. Porquê? Porquê se o azulejo daquela sombra estivesse de fato na sombra, e refletindo a mesma porção de luz para o seu olho como o azulejo que está fora da sombra teria de ser mais refletivo -- são as leis da física. Então você enxerga dessa maneira.

Considerando o da direita, a informação é consistente com aqueles dois azulejos que estão sob a mesma luz. Se eles estão sob a mesma luz, refletindo a mesma porção de luz para o seu olho, então eles devem refletir igualmente. Então você vê dessa maneira. O que significa que podemos juntar toda essa informação para criar algumas ilusões incrivelmente poderosas.

Esta eu fiz há alguns anos atrás. E você vai perceber que você vê um azulejo marrom escuro em cima e um azulejo laranja no lado.



Essa é a realidade da sua percepção. E a realidade física é que esses dois azulejos são iguais (O Blog Brasil Acadêmico comprovou).

Aqui você vê quatro azulejos cinza à sua esquerda, sete azulejos cinza à direita. Eu não vou alterar esses azulejos de nenhuma forma Mas eu vou revelar o resto da cena.



E veja o que acontece com a sua percepção. Os quatro azulejos azuis na esquerda são cinza. Os sete azulejos amarelos à direita também são cinza. Eles são os mesmos. Certo? Não acreditam em mim? Vamos ver de novo (o Blog Brasil Acadêmico também comprovou).



O que é verdade para as cores também é verdade para a percepção de movimentos complexos. Então aqui nós temos -- vamos virar isto -- um diamante E o que eu vou fazer é isso. Vou segura-lo aqui, e vou gira-lo. E todos vocês provavelmente o verão girando nesta direção.



Agora quero que vocês continuem olhando para ele. Movimentem seus olhos, pisquem, ou então fechem um olho. E de repente ele vai se inverter e começar a girar na direção oposta. Sim? Levantem a mão se vocês conseguiram ver. Sim? Continue piscando. Sempre que vocês piscarem ele vai mudar. Certo? Então eu posso perguntar, em qual direção ele está rodando? Como vocês sabem? Seu cérebro não sabe. Porquê ambos são igualmente prováveis. Então dependendo de como você olha, ele muda entre as duas possibilidades.

Seremos nós os únicos que vêem ilusões? A resposta a esta questão é não. Até a linda abelha, com apenas um milhão de células cerebrais, o que é 250 vezes menos células do que você têm em uma retina, vêem ilusões, fazem coisas muito complicadas que até nosso computador mais sofisticado não consegue fazer. Então no meu laboratório, é claro que nós trabalhamos com abelhas. Porquê conseguimos controlar completamente a experiência delas, e vemos como isso altera a arquitetura do cérebro delas. E fazemos isso no que nós chamamos de A Matrix das Abelhas.



E aqui temos a colméia. Podem ver a abelha rainha, aquela abelha grande no meio ali. Aquelas são todas suas filhas, os ovos. E elas vão e voltam entre essa colméia e a arena, através deste tubo. E você vai ver uma das abelhas saindo. Você consegue ver como ela têm um pequeno número nela? E tem mais uma saindo. Ela têm um número nela também. Bom, elas não nasceram desse jeito. Certo? Nós as tiramos, colocamos numa geladeira, e elas adormecem. E daí usamos superbonder para colocar os números nelas. (Risos)

E agora neste experimento elas são premiadas se forem às flores azuis. E elas aterrissam na flor.Elas enfiam a língua delas lá dentro, que é chamada probóscide, e elas bebem a água açucarada. Agora ela está bebendo um copo de água que equivale mais ou menos a esse tamanho para nós, e ela vai fazer isso umas três vezes, e daí vai voar. E algumas vezes elas aprendem a não ir nas azuis, e vão aonde as outras abelhas estão indo. Então elas copiam umas às outras. Elas conseguem contar até cinco. Elas conseguem reconhecer rostos. E aqui vem ela descendo a escada. E ela vai entrar na colméia, achar um favo vazio, e vomitar lá, e isso é o mel. (Risos)

Agora lembrem-se (Risos) ela tem de ir às flores azuis. Mas o que aquelas abelhas estão fazendo no canto superior direito? Parece que elas estão indo nas flores verdes. Bom, elas estão erradas? E a resposta é não, aquelas são na verdade flores azuis. Mas aquelas flores azuis estão sob luz verde. Então elas estão usando a relação entre as cores para resolver o quebra-cabeça. Que é exatamente o que nós fazemos.

A maneira como enxergamos é redefinindo continuamente a normalidade.


Então, ilusões são muito usadas, especialmente na arte, nas palavras de um artista mais contemporâneo, "para demonstrar a fragilidade dos nossos sentidos." Certo, isso é uma bobagem completa. Nossos sentidos não são frágeis. E se eles fossem, nós não estaríamos aqui hoje. Em vez disso, a cor nos diz algo completamente diferente, que o cérebro não evoluiu para ver o mundo como ele é. Nós não podemos. Em vez disso, nosso cérebro evoluiu para ver o mundo da forma que foi útil ver no passado. E a maneira como enxergamos é redefinindo continuamente a normalidade.

Então podemos aproveitar esta incrível capacidade de plasticidade do cérebro e fazer as pessoas experimentarem o mundo de forma diferentemente? Bom, uma das coisas que fazemos no meu laboratório e estúdio é traduzir luz em som e permitimos que as pessoas ouçam seu mundo visual. E elas podem navegar pelo mundo usando os ouvidos.



Aqui está o David, na direita e ele está segurando uma câmera. Na esquerda está o que a câmera vê. E você pode ver que existe uma linha passando através da imagem. Essa linha está quebrada em 32 quadrados. E em cada quadrado nós calculamos a cor. E simplesmente traduzimos isso em som. E agora ele vai se virar, fechar os olhos, e achar um prato no chão, com os olhos fechados.

Ele achou. Impressionante. Certo? Então nós podemos não só criar uma prótese para os que têm problemas de visão, mas também podemos investigar como as pessoas literalmente fazem sentido do mundo. E também podemos fazer mais uma coisa. Podemos fazer música com cor. Então, trabalhando com crianças, eles criaram imagens, pensando sobre como as imagens que vemos iriam soar se pudéssemos ouvi-las. E então nós traduzimos estas imagens. E está é uma dessas imagens. E aqui podemos ver uma criança de seis anos compondo uma peça musical para uma orquestra com 32 componentes. E aqui está como ela soa. Então, uma criança de seis anos, certo?

Agora, o que tudo isso significa? Isso sugere que ninguém é um observador externo da natureza. Certo? Nós não somos definidos pelas nossas propriedades centrais, pelos bits que nos formam. Somos definidos pelo ambiente e nossa interação com esse ambiente -- pela nossa ecologia. E essa ecologia é necessariamente relativa, histórica e empírica. Então quero finalizar com isto aqui. Porque o que eu realmente tenho tentado fazer é celebrar a incerteza. Porque eu penso que somente pela incerteza existe potencial para a compreensão.

Então, se alguém ainda está se sentindo um pouco certo demais, eu gostaria de fazer isto aqui. Então, podem abaixar as luzes. E o que nós temos aqui -- Todos conseguem ver vinte cinco superfícies roxas à sua esquerda, e vinte cinco amareladas à sua direita? Então, agora, o que eu quero fazer: Eu vou colocar as nove superfícies do meio aqui sob iluminação amarela simplesmente colocando um filtro atrás delas. Certo. Agora vocês todos conseguem ver que isso muda a luz que está atravessando lá, certo? Porquê agora a luz está atravessando um filtro amarelado e então um filtro roxo. Eu vou fazer o oposto aqui na esquerda. Vou colocar os nove do meio sob luz roxa.



Agora, alguns de vocês vão notar que a consequência é que a luz atravessando esses nove do meio da direita, ou melhor, sua esquerda, é exatamente a mesma que a luz atravessando os nove do meio a sua direita. Concordam? Certo? Certo. Então eles são fisicamente iguais. Vamos tirar a cobertura. Agora lembrem-se, vocês sabem que os nove do meio são exatamente iguais. Eles parecem ser os mesmos? Não. A pergunta é, "Isto é uma ilusão?" E vou deixar vocês com ela. Então, muito obrigado. (Aplausos)"


Se não estiver conseguindo colocar legendas em português sugiro acessar o link do TED abaixo:

Fonte: TED

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Brasil Acadêmico: Ilusões de ótica para entendermos a realidade (TED)
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